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Capítulo 1: Olhos de Vidro

A chuva em Baía Cinzenta não lavava nada; ela apenas empurrava a sujeira de um lado para o outro.

Gabriel "Gabo" Moretti sentiu a água fria escorrer pelo pescoço, infiltrando-se sob a gola do sobretudo que já cheirava a mofo e café frio. Ele estava parado na entrada da Vila da Ferrugem, onde o asfalto da cidade alta cedia lugar a passarelas de metal corroído e lama tóxica. O brilho dos neons publicitários — COMPRE FELICIDADE, COMPRE AETERNA — refletia nas poças como óleo derramado, distorcendo as cores em um arco-íris doentio.

— Você demorou, inspetor — disse o oficial de patrulha, um garoto novo que tremia, não de frio, mas do que tinha visto. Ele deu um passo para o lado, e a bota dele chapinhou em uma poça escura perto do corpo.

— Cuidado onde pisa, soldado! — Gabo rosnou, empurrando o ombro do rapaz. — Você quer contaminar a única cena de crime limpa que temos esta semana? Se misturar suas pegadas com as do assassino, eu mesmo te denuncio para a Corregedoria.

— D-desculpe, senhor.

— O trânsito na Ponte Sul estava um inferno. Já isolou o perímetro e colheu depoimentos dos vizinhos? — Gabo olhou para as janelas fechadas dos contêineres acima. Cortinas se mexiam rapidamente. Olhos assustados espiavam através das frestas.

— Ninguém viu nada, senhor. Bateram portas na minha cara. Como sempre.

— Sempre alguém vê algo. Eles só têm medo de falar. Vá de porta em porta de novo. Ameace com obstrução de justiça se for preciso, mas consiga um nome. — Gabo suspirou, puxando um bloco de notas encharcado. — E verifique as lixeiras num raio de dois quarteirões. O assassino pode ter descartado luvas ou ferramentas. É o básico, soldado. Trabalho de perna, não de máquina.

O oficial assentiu, engolindo em seco, e apontou para um beco estreito entre dois contêineres habitacionais empilhados. A fita amarela da polícia parecia uma piada ali, uma tentativa frágil de impor ordem ao caos.

Antes que Gabo pudesse avançar, seu comunicador de pulso vibrou. Uma luz vermelha: PRIORIDADE: CORREGEDORIA.

— Moretti — ele atendeu, a voz ríspida.

Inspetor — a voz do Diretor Dantas era seca como papel lixa. — O sistema de monitoramento de recursos indica que você solicitou uma equipe forense completa para a Vila da Ferrugem. O orçamento do departamento está sangrando, Moretti. Se isso for mais um drogado que teve uma overdose, vou descontar o custo do reagente químico do seu fundo de pensão.

— É um homicídio, Diretor. Tenho um corpo.

Certifique-se de que tenha um culpado também, e rápido. A Prefeitura quer as ruas limpas para o festival da semana que vem, não manchetes sobre assassinatos na favela. Você tem 24 horas antes que eu repasse o caso para a Divisão de IA.

A linha ficou muda. Gabo praguejou baixinho.

Gabriel engoliu rapidamente o resto de seu café, sentindo o gosto amargo descer pela garganta misturado com a bile da raiva. Ele não queria entrar lá. Aos trinta anos, sentia-se como se tivesse setenta. Seus joelhos estalavam, e a insônia da semana passada fazia as luzes da cidade deixarem rastros em sua visão periférica.

Sua mão direita foi instintivamente para o peito, tateando sob a camisa até encontrar o metal frio do "Colar de Sol". Ele apertou o pingente com força, sentindo as arestas morderem a palma da mão. A dor aguda era seu âncora. Melhor que nicotina, melhor que álcool. A dor o lembrava de que ele ainda estava ali, físico e real, num mundo que tentava se dissolver em dados.

Para piorar, sua bexiga protestava. Três canecas de café na última hora estavam cobrando o preço, mas não havia onde aliviar-se ali sem contaminar a cena ou ser visto pelos drones de imprensa que zumbiam como mosquitos no perímetro. Ele cerrou os dentes.

E havia o Ruído. Aquele zumbido onipresente de baixa frequência que a cidade emitia 24 horas por dia. Hoje, estava mais forte. Gabo sentiu a pressão atrás dos olhos aumentar, pulsando em compasso com os neons. Ele passou a mão pelo nariz e viu sangue na luva. "Ótimo", pensou. "Mais um pouco e meu cérebro escorre pelo ouvido."

O desconforto era apenas mais um ruído de fundo. O cheiro era o pior. Uma mistura de ozônio queimado, lixo apodrecendo na umidade e aquele odor metálico e adocicado de sangue velho. Gabo puxou um lenço do bolso e cobriu o nariz e a boca por um segundo, inspirando o cheiro forte de cânfora e menta que ele usava para mascarar o fedor da morte.

Ele avançou, desviando de poças que refletiam o céu cinza como espelhos quebrados. Iluminou o chão com sua lanterna, procurando marcas de pneus, cartuchos de adrenalina vazios, qualquer coisa que a chuva ainda não tivesse levado. A água gelada batia em seu rosto, trazendo uma memória indesejada. A mesma chuva caía na noite em que encontraram Beatriz. Bia... sua parceira, seu amor, sua âncora.

Ele ainda podia ver o corpo dela estendido no asfalto, o buraco de bala no peito fumegante. O relatório oficial dizia "assalto mal sucedido", mas Gabo sabia a verdade. Ele vira a sombra de Roberto Miranda se afastando no beco. Miranda, o amigo que virou carrasco. A dor daquela perda nunca cicatrizou; apenas calcificou, transformando-se em uma armadura de cinismo que ele vestia todos os dias.

Ele sacudiu a cabeça, apertando o Colar de Sol mais uma vez, forçando o fantasma de Bia de volta para o fundo de sua mente. Agora não. Havia um trabalho a fazer.

O corpo estava sentado, encostado em uma parede de zinco. Era um rapaz jovem, vinte e poucos anos, vestindo roupas de segunda mão que provavelmente pertenceram a alguém da cidade alta antes de serem descartadas. Cabelo azul desbotado, tatuagens de circuitos nos braços — um ativista, provavelmente. Alguém que acreditava que podia mudar o mundo gritando em praças públicas.

— Causa da morte? — Gabriel perguntou.

Ele se agachou com um movimento controlado, distribuindo o peso para poupar os joelhos — um reflexo dos anos de treino em Hapkido que a academia de polícia tentara, sem sucesso, substituir por táticas de força bruta. Ele calçou as luvas de látex sintético. A lama manchou suas botas.

— Nenhuma marca visível no corpo, senhor. Sem tiros, sem facadas. Parece... parece que ele apenas desligou.

— Overdose?

— Talvez. Mas... olhe o rosto.

Gabriel ajustou a lanterna tática. O facho de luz cortou a penumbra e iluminou o rosto pálido do rapaz. Sua boca estava entreaberta, congelada em uma expressão que não era de medo, mas de... admiração? Êxtase?

Mas foram os olhos que fizeram o estômago de Gabriel revirar.

Não havia olhos. As órbitas estavam preenchidas, perfeitamente encaixadas, por duas lentes de câmera antigas, analógicas. O vidro escuro das lentes refletia o rosto cansado de Gabriel.

— Cirúrgico — murmurou Gabriel. — Não há sangue. Quem fez isso sabia o que estava fazendo. Não foi um açougueiro da Vila.

Ele aproximou a mão enluvada do rosto da vítima. As lentes focaram. Um leve zumbido mecânico, quase imperceptível sob o som da chuva, emanou de dentro do crânio do rapaz.

— Elas ainda estão ativas — disse Gabriel, sentindo um arrepio.

Ele não usou um scanner. Em vez disso, puxou uma lupa de relojoeiro do bolso e aproximou o rosto da órbita mutilada, ignorando o cheiro de decomposição que começava a subir. Ele iluminou a junção da pele com uma lanterna de penlight, observando a inflamação, os micro-cortes.

— A incisão é irregular nas bordas, mas o encaixe é perfeito — murmurou ele, passando o dedo enluvado pela borda metálica. — Não foi laser. Foi bisturi. A moda antiga. Quem fez isso queria sentir a carne cedendo.

Ele puxou um pequeno frasco de metal do bolso do sobretudo — seu kit de reagentes portátil. Pingou uma gota de uma solução azulada na junção entre a pele e o metal. O líquido efervesceu e ficou roxo.

— Reação positiva para selante biológico de alto custo — disse ele, recolhendo uma amostra com uma lâmina e depositando-a em um saco de evidência. — Isso não é sucata da Vila. Vou precisar que o laboratório faça a espectrografia, vai demorar uns dois dias com a fila de espera, mas aposto meu distintivo que veio dos estoques médicos roubados da Zona Industrial.

— O que isso significa? — perguntou o oficial.

— Significa que ele não apenas "está transmitindo". A largura de banda aqui... — Gabo seguiu um fio fino que corria da nuca do rapaz até um transmissor sob a gola da camisa. — Alguém assistiu a morte desse garoto. Talvez ainda esteja assistindo.

Ele cortou o fio com um canivete. O zumbido parou abruptamente. Gabo ensacou o transmissor.

— Tem mais uma coisa, inspetor — o oficial disse, estendendo um saco de evidências. — Estava no bolso da jaqueta dele. Eu usei luvas, juro.

Gabriel pegou o saco. Dentro, protegida do dilúvio, havia uma fotografia física, impressa em papel fotográfico de verdade — uma raridade cara hoje em dia.

Ele apontou a lanterna para a foto.

Era uma imagem em preto e branco de um parque ensolarado, algo que não existia em Baía Cinzenta há décadas. No centro da foto, um menino de cerca de cinco anos sorria, segurando um sorvete derretendo.

Gabriel sentiu um gosto metálico na boca. O mundo girou por um segundo. A chuva parou de fazer barulho.

O menino na foto era ele.

E atrás do menino, desfocado mas inconfundível, estava um homem observando. Um homem que Gabriel viu morrer há quinze anos: seu pai.

— Cerquem a área — a voz de Gabriel saiu rouca, irreconhecível. — Ninguém entra, ninguém sai. E tragam a detetive Cruz. Agora.

Ele olhou novamente para as lentes nos olhos do cadáver. Elas pareciam piscar, capturando cada milímetro de sua reação.

O jogo havia começado, e Gabriel nem sabia que estava no tabuleiro.