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Capítulo 93: Fome

Arredores do Hospital Central

O cerco havia começado.

O Hospital Central era uma ilha de concreto branco em um mar de verde e preto. As raízes subiam pelas paredes, tentando encontrar frestas nas janelas blindadas.

Lá dentro, o clima era de desespero. Centenas de refugiados se amontoavam nos corredores. A comida estava acabando. A água era racionada.

Mas o pior era o som.

Do lado de fora, a Colmeia gemia. Um som constante de estômagos roncando, amplificado por milhões de gargantas.

— Eles estão com fome — disse Nise, olhando do terraço.

Apoiado rigidamente nas pesadas órteses mecânicas que mantinham o que sobrou de suas pernas funcionando, Gabo estava ao lado dela, enfaixando o braço infectado. A mancha negra tinha parado de crescer, contida por um coquetel de antifúngicos experimentais que Nise criara, mas a dor era constante.

— Eles gastaram muita energia com a Praga de Ferro — analisou Gabo. — Aceleraram o metabolismo para destruir nossas defesas. Agora precisam repor.

— Eles não vão apenas nos matar, Gabo. Eles vão nos comer. Absorver nossa biomassa para alimentar o Sol Negro.

Val apareceu na porta do terraço.

— Consegui contato com Vilar. Ele está nos túneis de serviço, chegando com o que restou dos Puros. Mas ele diz que trouxe... convidados.

— Convidados?

— O Profeta Mudo e seus seguidores. Eles estão bloqueando as saídas. Estamos cercados.

Gabo olhou para o horizonte. O Sol Negro pulsava no céu, cada vez maior.

— O servidor está pronto? — perguntou ele.

— O código está carregado — disse Val. — Mas ele... ele vai nos queimar junto, Gabo. Você sabe o que vai acontecer.

Gabo assentiu. Ele puxou seu revólver. Era uma peça antiga, herança de família, feita de aço inoxidável de alta qualidade que resistira à Praga, embora mostrasse sinais de corrosão.

— Eu vou checar o servidor. Nise, prepare a enfermaria. Vilar vai trazer feridos. Val, preciso que você ache uma rota para o Memorial.

— Para o Memorial? Você está louco? É o coração da besta!

— Exatamente. O vírus precisa ser injetado na fonte. O servidor não pode fazer isso daqui via wi-fi. O sinal é muito fraco com toda essa interferência biológica.

— Você quer levar o servidor até lá? — Val arregalou os olhos. — Pesam 50 quilos! No meio de uma zona de guerra biológica!

— Então é melhor eu ajustar a potência máxima dos servomotores destas pernas velhas — disse Gabo, verificando o tambor do revólver. — Porque vamos entregar uma bomba no colo de Deus.