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Metadados

  • Título: Otimização de Perdas
  • Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
  • Localização: Necrópole (O Ateliê do Taxidermista -> Túneis de Manutenção)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot), Rangel (Inconsciente)
  • Resumo: Após o massacre no Ateliê, Aria calcula que Rangel é um peso morto e sugere abandoná-lo para aumentar as chances de sucesso da missão. Gabo confronta a lógica fria da nova Aria, reafirmando sua humanidade através da dor e da lealdade, enquanto o grupo avança para as profundezas da Velha Baía.

Narrativa

Capítulo 135: Otimização de Perdas

O silêncio que se seguiu à violência foi mais perturbador do que os gritos. No Ateliê do Taxidermista, o único som era o gotejar rítmico de fluido hidráulico dos Guardiões desmembrados, batendo nos azulejos como um metrônomo quebrado.

Gabo encostou-se na bancada de aço, o ombro latejando em uma frequência que fazia seus dentes doerem. Ele levou a mão ao peito, não para verificar o coração, mas para pressionar o "Colar de Sol" contra a pele suada. As pontas de metal morderam a carne, uma dor aguda e limpa que cortou através da névoa de adrenalina e exaustão. Ele precisava daquela dor. O cheiro de queimado e produtos químicos despertava a alucinação sufocante do charuto de seu pai, fechando sua garganta. A dor do colar era o único antídoto contra o pânico da asfixia. A dor era real e mantinha as pernas mecânicas firmes sob seu peso.

— Relatório de status — a voz de Aria cortou o ar. Não havia inflexão, nem curiosidade. Apenas dados.

Ela estava parada sobre a maca onde Rangel jazia inconsciente. A luz branca de seus olhos escaneava o corpo do ex-inspetor com a precisão de um leitor de código de barras.

— Valéria — Gabo grunhiu, empurrando-se para longe da bancada. — Como ele está?

Valéria, que estava verificando o pulso de Rangel com dedos trêmulos, olhou para Aria com medo. Não era o medo de um inimigo, mas o terror de ver um estranho no corpo de uma amiga.

— A febre baixou um pouco, mas ele perdeu muito sangue — Valéria sussurrou. — A sutura improvisada no abdômen está segurando, mas se o movermos demais...

— O sujeito Rangel apresenta falência sistêmica iminente — Aria interrompeu. Ela não olhou para Valéria. Seus olhos continuavam fixos nos dados projetados em sua retina. — Probabilidade de sobrevivência ao transporte sem suporte avançado: 12,4%. Impacto na mobilidade da unidade principal (Gabo/Valéria/Aria): Redução de 45%. Probabilidade de interceptação por forças hostis durante a extração com carga: 98%.

Aria virou-se para Gabo. O rosto de Bia Vargas, que antes carregava as memórias de um amor perdido, agora era apenas uma máscara de polímero.

— Recomendação: Otimização de recursos. O sujeito Rangel deve ser deixado para trás. A eutanásia é a opção lógica para evitar captura e tortura subsequente.

O ar saiu dos pulmões de Gabo. Ele olhou para a menina – para a máquina.

— O quê? — A palavra saiu como um rosnado.

— A missão é a neutralização do Alvo Prioritário (Taxidermista) e a sobrevivência dos ativos essenciais — Aria continuou, impassível. — O sujeito Rangel é um ativo depreciado. Carregá-lo diminui a probabilidade de sucesso da missão para níveis inaceitáveis. A lógica dita o descarte.

Valéria se colocou entre Aria e a maca, os braços abertos.

— Você não pode estar falando sério, Aria! É o Rangel! Ele nos salvou no Fliperama! Ele desertou por nós!

— Ações passadas não alteram variáveis futuras — Aria respondeu, inclinando a cabeça levemente, como um pássaro analisando um inseto. — Gratidão é um viés cognitivo ineficiente.

Gabo desencostou da bancada. Ele caminhou até Aria, ignorando a dor que irradiava de suas costelas. Ele parou a um palmo do rosto dela. Ele podia ver seu próprio reflexo distorcido nas lentes brancas que substituíram os olhos humanos.

— Nós não "otimizamos" pessoas — Gabo disse, a voz baixa e perigosa. — Nós não somos a Aeterna. Nós não somos o Dante.

— Você está sendo emocional, Gabriel — Aria disse. — A emoção é um erro de cálculo. Se tentarmos salvar a todos, a probabilidade é que todos pereçam.

Gabo agarrou o ombro sintético de Aria. O metal era frio, sem vida.

— Escute bem, sua calculadora de merda — Gabo rosnou. — Aquele homem naquela maca sangrou por mim. Eu abri a barriga dele com um canivete e costurei com fio de pesca para que ele vivesse. Ele é minha responsabilidade. E enquanto eu estiver respirando, ninguém fica para trás.

Aria olhou para a mão de Gabo em seu ombro. Ela poderia quebrá-lo com um movimento. A força hidráulica dela era superior a qualquer coisa que Gabo pudesse oferecer. Mas ela não se moveu.

— Sua lógica é falha — ela declarou. — O risco supera o benefício.

— Foda-se a lógica — Gabo soltou o ombro dela e se virou para a maca. Ele agarrou as alças improvisadas. — Val, pega os pés dele. Vamos sair daqui.

Valéria correu para ajudar, lançando um último olhar suplicante para Aria.

— Aria, por favor... Ajude a gente.

Aria permaneceu imóvel por um segundo, processando. Seus algoritmos reavaliaram a situação. A variável "Teimosia de Gabriel Moretti" era uma constante que ela não podia eliminar. Se ela recusasse, Gabo tentaria carregar Rangel sozinho, o que reduziria a velocidade em 70% e aumentaria a probabilidade de morte do "Ativo Líder" para 100%.

— Reavaliando — Aria disse. — Para garantir a sobrevivência do Ativo Líder, a cooperação é necessária.

Ela caminhou até a cabeceira da maca, empurrando Gabo suavemente para o lado.

— Sua estrutura óssea está comprometida, Gabriel. Você não possui a integridade estrutural para esta carga. Eu assumirei a posição dianteira.

Gabo olhou para ela, surpreso, mas não agradecido.

— Não pense que isso muda o que você disse.

— Não muda os fatos — Aria respondeu, levantando a parte mais pesada da maca com facilidade irritante. — Apenas altera a estratégia de mitigação de danos. Vamos. Detecto vibrações nas tubulações ao norte. Reforços estão a caminho.

Eles deixaram o Ateliê, entrando em um corredor de serviço estreito que cheirava a mofo e óleo velho. A luz das lanternas de Valéria cortava a escuridão, revelando pichações antigas de trabalhadores do metrô que morreram ali décadas atrás.

Gabo caminhava atrás, segurando os pés da maca, os olhos fixos nas costas de Aria. Ela se movia com uma economia de movimentos perfeita, sem desperdiçar um joule de energia.

Era a coisa mais eficiente que ele já tinha visto.

E era a coisa mais solitária do mundo.

Vocês acham que podem carregar seus pecados? — a voz do Taxidermista chiou em um interfone enferrujado na parede, fazendo Valéria pular. — O peso da carne é o peso da alma, Detetive. E a sua está muito pesada.

Gabo não respondeu. Ele apenas apertou o Colar de Sol contra o peito novamente, usando a dor para continuar andando, um passo de cada vez, na escuridão da Necrópole.