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Capítulo 213: O Peso da Maquinaria

Ultrapassar a barricada de biomassa morta foi como rastejar através da garganta de uma criatura congelada. Do outro lado, o tubo de resfriamento se alargava, desaguando num salão imenso, sustentado por pilares de aço maciço devorados pela oxidação violenta. A luz aqui era estroboscópica, painéis de LED moribundos piscando nas paredes acima de nós.

No fundo da câmara, avultava o Portão do Hub Principal do Setor 6. Uma abóbada de chumbo e titânio, projetada para resistir a ataques terroristas diretos antes da queda corporativa. Agora, exibia cicatrizes pálidas de tentativa de corrosão pelo Jardim, sem sucesso. O problema era que o painel de acesso eletrônico fora esmagado não por raízes, mas sim pela estrutura desabada de um mezanino de aço acima dele.

— Bloqueio físico absoluto. Os protocolos primários da porta exigem reinicialização local, mas a interface foi fisicamente aniquilada pelo colapso estrutural, — informou Valéria, a luz de seus receptores óticos rastreando as toneladas de sucata caídas. — Existe uma válvula de override manual à direita da moldura.

A cabeça dela girou lentamente na direção de uma pesada engrenagem vermelha encrustada na parede de cimento, parcialmente engolida por estalactites de gelo sujo.

— A pressão estática nas travas de titânio é de aproximadamente seis mil libras por polegada quadrada. O destravamento exige força motriz extrema rotacional. Probabilidade de sucesso orgânico é de três vírgula dois por cento, — concluiu ela.

Eu ri seco, cuspindo um coágulo amargo no chão. A febre da infecção subia pelo meu ombro lacerado, mas o frio ao redor anestesiava parte do dano.

— Ótimo, — murmurei, apoiando a escopeta na perna de Elias. — Segure.

Arrastei-me até a roda vermelha. Quando minhas mãos tocaram o metal, o gelo pareceu morder meus dedos, penetrando os nervos. Olhei para o meu braço direito biônico. A prótese não calibrada zumbia, engrenagens protestando contra o clima hostil.

O ar rarefeito forçou-me a puxar fôlego mais fundo. Pânico frio rastejou pelas espinhas e alojou-se nos pulmões. Senti a sombra olfativa invadir: charuto, poluição, fumaça me enforcando na escuridão. O trauma nunca dormia.

Lembrei da instrução de Aria. Pare de se machucar para lembrar de viver. Um luxo que eu não podia me dar ali. Ajoelhei de mau jeito e usei a borda da roda para pressionar todo o meu peso diretamente contra meu ombro com a musculatura rasgada. A dor que floresceu foi branca, pura e gritante. O cheiro de fumaça evaporou no calor da minha própria tortura física.

Gemi, trincando os molares, e encaixei a garra da minha prótese numa das frestas da válvula, firmando a mão humana do outro lado.

— Gabo... você vai quebrar as costas! — Elias gritou de trás, dando um passo, horrorizado.

— Cala a boca e fica longe, — rosnei.

Mandei um comando neural bruto para o toco amputado, ignorando os bloqueios de segurança do sistema nervoso. Os servos da prótese gritaram num tom de metal esfolado. Puxei com tudo o que me restava. Músculo contra aço. Carne contra titânio congelado. A válvula não moveu no primeiro segundo, e eu senti o sangue quente começar a empapar as bandagens novamente.

Gira, desgraçada!

Usei a minha perna mecânica arruinada para dar o empuxo final contra a parede, a agonia radiando do joelho quebrado até minha espinha. A roda estalou com o som de um trovão mudo. O gelo se rompeu em uma explosão de fragmentos cortantes, e o metal cedeu. Girei a roda, gritando de agonia crua, cada centímetro sendo comprado com mais rasgos na minha anatomia já exausta.

Uma sequência pesada de estrondos industriais ecoou pelo chão. As travas de chumbo destrancaram. As imensas portas do Hub Principal deslizaram abertas lentamente, jorrando um ar purificado e estranhamente quente que não sentíamos há séculos.

Soltei a válvula, caindo de joelhos sobre as grades de metal. Meu braço biônico fumegava fracamente devido ao atrito das engrenagens sobrecarregadas, e meu ombro humano era um incêndio florestal de dor latejante.

— Acesso permitido, — constatou Valéria, com aterradora indiferença. — Procedimento estatisticamente impraticável, mas bem-sucedido.