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Capítulo 194: O Preço da Manutenção

Elias nos guiou através do labirinto de transformadores inativos. O lugar fedia a ozônio velho e poeira metálica, um aroma industrial morto que eu engolia com gratidão. Qualquer coisa era melhor do que o cheiro fantasma de charuto. A ameaça da asfixia mental estava acorrentada no fundo da minha mente, mantida lá pela dor constante e rascante do meu joelho a cada passo.

— A torre principal de exaustão perdeu a pressurização quando vocês implodiram o andar inferior, — Elias explicou, sua voz esganiçada ecoando pelos conduítes ocos. Ele andava rápido, olhando para trás a cada dez segundos como se o Jardim ainda pudesse brotar do chão. — Os poços principais estão cheios de gases tóxicos. Fumaça, metano, ácido sulfúrico evaporado. Subir por lá é suicídio.

A palavra "fumaça" me atingiu como um soco no estômago. Meu peito contraiu, a garganta fechou em um reflexo condicionado. Parei abruptamente, agarrando o cabo grosso de um conduíte descascado. Eu não hesitei. Esfreguei o antebraço da minha prótese industrial avariada contra os fios de cobre vivos que ainda retinham carga residual do sistema de backup.

O choque foi violento. O arco elétrico subiu pelo metal vagabundo da prótese e mordeu minha carne diretamente na conexão do ombro descalibrado. Gritei de dor através dos dentes cerrados. O pulso de eletricidade limpou a névoa perfumada do charuto de Dante que ameaçava voltar, trocando o pavor do sufocamento imaginário pelo gosto inegável de sangue e ferro na boca.

Voltei a respirar, arfando pesadamente, mas no controle.

Elias deu um pulo para trás, horrorizado. — O que diabos você está fazendo, cara?! Você podia ter torrado o seu coração!

— Manutenção preventiva, — rosnei, me endireitando com esforço. Não havia como explicar a fobia para um rato de esgoto assustado. A dor era meu soro da verdade.

Valéria observou a cena com seus olhos estéreis. Ela não ofereceu suporte moral ou questionou minha ação extrema. Para o seu algoritmo, a autopunição era um meio válido se mantinha a unidade funcional.

— As rotas principais são inviáveis. Apresente a alternativa, Elias. Tempo estimado até que as chamas do Nível C comprometam os suportes de sustentação da Subestação B: vinte e dois minutos, — Valéria informou com um tom perfeitamente constante.

Elias empalideceu. — Vinte e dois minutos?! Vocês trouxeram o inferno para a minha porta!

— A porta já estava apodrecendo, — retruquei, a impaciência rosnando na minha voz. — A rota, Elias. Agora.

Ele engoliu seco e apontou para um duto de ventilação secundário encrustado no teto.

— Os dutos de refrigeração forçada. Eles contornam o fosso de exaustão principal e deságuam direto nas catacumbas do Distrito Comercial do Setor 6. Mas as escotilhas de manutenção lá em cima... elas estão seladas por travas de compressão hidráulica. Sem energia, você tem que virar as válvulas na mão. E pesam meia tonelada cada.

Olhei para a minha prótese. O choque tinha fritado alguns relés secundários. Estava pesada, lenta e emitia estalos preocupantes. Mas ainda tinha força hidráulica brutal, se eu estivesse disposto a rasgar mais um pouco do meu próprio ombro para usá-la.

— Me leve até a válvula, — ordenei.

O caminho até a sala de controle da refrigeração era uma subida por escadas helicoidais enferrujadas. Cada degrau era um tributo pago em sangue pelo meu joelho esquerdo e suor frio. Quando finalmente alcançamos a câmara, a temperatura já estava subindo rapidamente. O chão sob nossos pés vibrava com a fúria do fogo morrendo no andar de baixo.

Elias apontou para uma roda de aço colossal incrustada na parede reforçada. — Ali. Aquela abre o duto.

Me aproximei da válvula. Estava congelada pela ferrugem e pelo tempo. Valéria escaneou o mecanismo.

— Torque necessário: 1800 Newton-metros. Com seu estado estrutural atual, a tentativa resultará em ruptura muscular do ombro direito em 94% de probabilidade, — ela calculou, sem paixão.

— Não me importo com a matemática, Valéria, — murmurei, cravando os dedos hidráulicos da prótese ao redor do metal grosso da roda.

Apertei a mandíbula. O Jardim estava queimando lá embaixo, as bio-baterias derretendo, o ar começando a cheirar mal. Eu podia sentir o fantasma de Dante sussurrando através das engrenagens enferrujadas. Para calá-lo de vez, forcei o braço com tudo o que me restava.

O motor não calibrado berrou, e a carne do meu ombro estalou, a dor me banhando em um foco sangrento absoluto.