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Metadados
- Título: Curadoria
- Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
- Localização: Necrópole (O Estúdio do Taxidermista)
- Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot), Rangel (Inconsciente), O Taxidermista (Antagonista)
- Resumo: A batalha no Estúdio começa. As "Esculturas" do Taxidermista provam ser adversários formidáveis, movendo-se com elegância letal. Gabo luta com recursos limitados enquanto Aria calcula as probabilidades. Valéria identifica que o "Tríptico da Lamentação" atua como um servidor de coordenação para as Esculturas. Gabo toma a decisão brutal de destruir o Tríptico para quebrar a sincronia dos inimigos, provocando a fúria do Taxidermista, que inicia o protocolo de "Limpeza".
Narrativa
Capítulo 139: Curadoria
A primeira Escultura não correu. Ela flutuou.
Foi um movimento de balé, um jeté silencioso impulsionado por pistões hidráulicos que a lançou sobre Gabo. Ele mal teve tempo de levantar o vergalhão enferrujado. O metal da sua arma improvisada chocou-se contra a lâmina vibratória que substituía o braço da criatura, soltando uma chuva de faíscas que iluminou o branco clínico do Estúdio.
O impacto vibrou nos ossos de Gabo, subindo pelos braços até os dentes. Ele grunhiu, firmando os pés no chão polido. Era liso demais. Perfeito demais.
— Postura incorreta, Detetive — a voz do Taxidermista ecoou pelos alto-falantes invisíveis, calma como um curador guiando um tour. — Você luta como um animal encurralado. Falta... intenção.
Gabo girou o corpo, deixando a lâmina da criatura deslizar pelo vergalhão, e chutou o joelho da Escultura. Parecia chutar uma coluna de concreto. A criatura nem se moveu. Em vez disso, a segunda lâmina veio em um arco descendente visando seu pescoço.
— Gabo, esquerda! — gritou Valéria.
Ele se jogou para o lado, rolando sobre o piso. A lâmina cortou o ar onde sua cabeça estava um segundo antes e riscou o polímero branco do chão, deixando uma cicatriz preta.
— Aria! — ele berrou, levantando-se com dificuldade.
Aria já estava em movimento. Mas ao contrário da dança fluida das Esculturas, os movimentos dela eram quebrados, econômicos. Staccato. Ela interceptou a segunda Escultura que avançava contra a maca de Rangel.
A criatura desferiu um golpe horizontal. Aria não bloqueou. Ela calculou o ângulo, abaixou-se milímetros abaixo da lâmina e enterrou a mão — agora reforçada com os polímeros roubados do laboratório anterior — na junção da cintura da Escultura.
Houve um som de metal rasgando. Aria puxou, arrancando um feixe de cabos hidráulicos. A Escultura vacilou, uma perna falhando, mas girou o torso em 180 graus, algo anatomicamente impossível, e atingiu Aria com o "cotovelo".
Aria voou três metros, colidindo contra uma vitrine de vidro blindado. Ela caiu, mas se levantou instantaneamente. O lado do seu rosto sintético estava amassado, revelando o chassi metálico sob a pele falsa. Sua expressão não mudou.
— Dano estrutural: 12% — ela anunciou, a voz desprovida de dor. — Padrão de ataque inimigo analisado. Coordenação via rede local de baixa latência. Eles não são indivíduos. São membros de um único corpo.
— Eles compartilham a visão — Valéria disse, os dedos voando sobre o deck holográfico de pulso. Seus olhos cibernéticos giravam freneticamente, processando o fluxo de dados do ambiente. — É uma rede mesh fechada. Eu não consigo entrar! A criptografia é biológica.
Gabo bloqueou outro golpe, o vergalhão entortando perigosamente. Ele estava suando frio. O ar reciclado estava começando a cheirar a ozônio e sangue. O cheiro ativou a memória traumática da asfixia; a sombra da fumaça do charuto de seu pai fechou sua garganta. A ansiedade era um inseto rastejando sob sua pele. Ele largou uma mão do vergalhão por um segundo e apertou o Colar de Sol no peito. As pontas de metal morderam a carne, a dor aguda dissipando a alucinação e ancorando-o de volta à luta.
Dor é foco. Fumaça é fraqueza.
A náusea do desejo passou, substituída pela clareza adrenal.
— Onde está o servidor? — Gabo gritou, aparando um golpe que visava suas pernas.
— Não tem servidor! — Valéria respondeu, frustrada. — O sinal está vindo de todo lugar... Espere.
Ela olhou para o centro da sala. Para o cilindro de vidro dourado. Para as três figuras humanas fundidas.
O "Tríptico da Lamentação".
As bocas costuradas tremiam. O zumbido que emanava delas mudava de tom a cada movimento das Esculturas.
— É o tanque! — Valéria apontou. — O Tríptico! Eles são o processador central! Ele está usando os cérebros deles para coordenar os ataques em tempo real!
O Taxidermista riu, um som seco.
— Bravo, Srta. Cruz. A crítica finalmente compreende a obra. O sofrimento deles é o maestro. A agonia cria uma largura de banda incomparável.
Gabo olhou para o tanque. Três pessoas. Ou o que sobrou delas. Vivas. Sofrendo. E agora, sendo usadas como armas contra eles.
Se ele destruísse o tanque, pararia as Esculturas. Mas mataria os três.
Uma das Esculturas avançou contra Valéria. Aria interceptou, mas estava perdendo velocidade. Outra Escultura se aproximava de Rangel.
Não havia escolha.
— Me perdoem — Gabo sussurrou.
Ele correu. Não para as Esculturas, mas para o centro da sala.
— Detetive, não! — a voz do Taxidermista perdeu a calma polida. — Isso é insubstituível!
Uma Escultura tentou interceptá-lo, mas Aria se jogou nas pernas dela, derrubando-a com o peso do próprio corpo.
Gabo alcançou o cilindro. Ele segurou o vergalhão com as duas mãos, canalizando todo o ódio, toda a frustração, todo o peso de Baía Cinzenta naquele movimento. Ele não estava batendo em um vidro. Estava batendo na arrogância de quem achava que a dor alheia era matéria-prima.
O metal atingiu o vidro temperado.
CRACK.
Uma teia de aranha se formou. O líquido dourado começou a vazar.
O zumbido do Tríptico virou um grito agudo, mental, que fez Gabo cair de joelhos.
Ele bateu de novo. E de novo.
O vidro estourou.
O fluido dourado inundou o chão branco como uma onda de âmbar. Os corpos fundidos caíram para frente, desconectando-se dos cabos superiores. O som parou.
Imediatamente, as Esculturas pararam. Elas não desligaram, mas perderam a graça. Ficaram rígidas, confusas, como marionetes que tiveram as cordas cortadas.
Aria aproveitou a falha. Com um movimento preciso, ela girou e decapitou a Escultura mais próxima. A cabeça de cerâmica rolou pelo chão, parando aos pés da plataforma do Taxidermista.
O silêncio voltou ao estúdio. Mas agora era um silêncio pesado.
O Taxidermista estava na beira da plataforma. Ele não olhava para Gabo. Olhava para a massa de carne e cabos no chão, envolta em fluido e cacos de vidro. As "bocas" costuradas não se moviam mais.
— Bárbaro... — ele sussurrou. Sua voz tremia. — Você... você arruinou a composição. Anos de cultivo. A simetria neural perfeita... Destruída por um bruto com um pedaço de lixo na mão.
Ele levantou os olhos para Gabo. O cinza líquido dos seus olhos estava fervendo.
— Eu ofereci a eternidade. Vocês escolheram o lixo. Muito bem.
Ele pressionou a mão sobre a mesa de metal. As luzes brancas do estúdio ficaram vermelhas. Luzes de emergência giratórias lançaram sombras longas e dançantes sobre as paredes.
Uma sirene, diferente das da cidade, começou a tocar. Era um som grave, industrial.
— Protocolo de Curadoria: Limpeza — anunciou a voz do sistema, fria e feminina. — Incineradores ativados. Selando saídas.
Vapor começou a sair dos cantos da sala. O chão, antes frio, começou a aquecer sob as botas de Gabo.
— Se não sabem apreciar a arte — disse o Taxidermista, enquanto uma redoma de vidro blindado subia ao redor de sua plataforma, isolando-o —, serão reduzidos a cinzas. Talvez o carbono de vocês sirva para o esboço da próxima peça.
Gabo olhou para Valéria, depois para Aria e Rangel. O calor estava subindo rápido.
— A saída! — ele gritou.
Mas a porta hidráulica pela qual entraram já estava fechada. E o metal dela começava a brilhar em um tom laranja opaco.