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Capítulo 196: Ecos de Neon no Submundo
O duto vomitou a escória enferrujada em um abismo de concreto e cabos cortados. Eu fui o primeiro a cair. O impacto no chão cimentício reverberou pelas minhas articulações gastas, mas foi o baque do meu ombro estilhaçado que acendeu a fornalha. Uma fisgada aguda, elétrica e gloriosa rasgou minha musculatura esfarrapada, banindo imediatamente a lufada de fumaça fantasma de charuto que ameaçava fechar minha traqueia. A dor era meu único oxigênio puro.
O ar ali embaixo era pesado, um coquetel indigesto de ozônio úmido, ferrugem em decomposição e o cheiro enjoativo de plástico derretido. Acima de nós, perdidas na escuridão, antigas lâmpadas de neon quebradas pendiam de correntes industriais, zumbindo fracamente com os restos de uma energia parasita, pingando uma luz estroboscópica cor de mofo verde sobre as poças d'água ácida.
Elias rolou para fora do duto logo atrás de mim, caindo de joelhos, tossindo e engasgando como se tivesse engolido areia suja. Ele olhava para cima, para a vastidão opressiva das catacumbas do Setor 6, uma monstruosidade de arquitetura esquecida que servia como alicerce para o Distrito Comercial, quilômetros acima de nossas cabeças.
— Nós... nós conseguimos, — ele arfou, os olhos arregalados percorrendo os canos espessos que pareciam sucuris de aço negro nas paredes de concreto bruto. — Isso é a espinha dorsal do Setor 6. Longe daquele fogo. Longe do... do Jardim.
O baque metálico leve dos pés de Valéria encerrou sua frase. Ela aterrissou com a precisão rígida de quem calculou a queda, sem demonstrar a menor fadiga. As lentes emitiam um feixe azul-pálido que varria o ambiente com uma indiferença gélida. O Modo de Segurança mantinha a camada afetiva dela completamente desligada.
— Atualização de status, — declarou ela, a voz monótona e sem peso. — Probabilidade de sobrevivência estática aumentada para 21.3%. No entanto, a taxa de perda de fluido vital de Gabo projeta falência estrutural orgânica em cento e vinte e sete minutos, caso o deslocamento constante não seja interrompido. Recomendo, novamente, amputação da via não crucial ou cauterização a fogo.
Pressionei minha mão intacta contra o ombro sangrento, esmagando a ferida apenas o suficiente para arrancar um gemido surdo dos dentes cerrados. Mais uma dose de choque na medula para manter o espectro do meu pai sepultado.
— Não encosta no meu braço, Valéria, — rosnei, me apoiando na parede pegajosa para levantar o corpo pesado e manco, a perna mecânica protestando com o ranger de areia nas engrenagens. — Nós andamos. Onde fica o ponto de acesso para os Níveis de Manutenção Superiores?
— O mapa arquitetônico obsoleto indica um elevador de carga industrial a oitocentos metros a oeste, — ela calculou em uma fração de segundo. — Nota adicional: detecto variações de temperatura atípicas nos dutos de drenagem. A biomassa orgânica não está restrita ao Setor 7. O fogo no nível inferior apenas catalisou sua expansão por rotas não convencionais.
Elias empalideceu sob a luz neon moribunda. Ele olhou para um canal de escoamento no centro da câmara, onde um líquido espesso e escuro movia-se letargicamente. — Ela quer dizer... o Jardim? Ele nos seguiu?
Arrastei meu pé em direção ao canal de escoamento. O líquido ali não era apenas água ácida. Nas margens do concreto corroído, filamentos bioluminescentes azulados, lembrando veias adoecidas, pulsavam fracamente sob a crosta de sujeira. O cheiro de lodo e formol preencheu minhas narinas, acendendo um pânico pavloviano, o odor acrimonioso de fumaça de charuto, invadindo minha percepção.
Pressionei todo o meu peso esquerdo contra a beirada do fosso, usando o metal frio do corrimão rompido para esfolar ainda mais o que restava do meu ombro rasgado. A pulsação incandescente de agonia lavou a alucinação nauseante de fumaça, ancorando minha mente no horror tátil e imundo do presente.
— Não nos seguiu, — murmurei com cinismo amargo, limpando o sangue que escorria da boca com as costas da mão suja de óleo. — Sempre esteve aqui, esperando. O subsolo inteiro é a raiz dessa desgraça. A diferença é que agora não tem ninguém no topo alimentando os geradores para conter a podridão.
Apontei com o que restava da minha prótese hidraulicamente castrada para o corredor escuro e gotejante que se estendia a oeste. — Oitocentos metros. A gente não para por nada. E se alguma dessas veias agarrar vocês, — lancei um olhar pesado para Elias —, eu arranco fora a parte do corpo antes de deixar a praga engolir o resto. Andando.
Enquanto caminhávamos para a escuridão, acompanhados pelo chiado baixo dos implantes de Valéria e os passos trôpegos de Elias, a dor lacerante no meu ombro continuava a bater como um tambor constante. Era o som da minha sobrevivência em um mundo que teimava em desmoronar. Um passo arrastado de cada vez.