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Capítulo 41: Maré Alta

A chuva não parava. Não era apenas água caindo; era o oceano decidindo que a terra lhe pertencia.

Em menos de três horas, os Níveis Baixos (1 ao 10) tinham desaparecido.

Gabo dirigia o Cobalt azul pela Avenida da Indústria, que agora era um rio turbulento. A água barrenta batia na altura das portas. O motor rugia, lutando contra a correnteza.

— Gabo, tem gente no teto daquele ônibus! — gritou Valéria, apontando.

Um transporte escolar automatizado estava tombado, a água cobrindo as janelas. Em cima dele, uma dúzia de crianças e dois adultos gritavam, acenando lanternas.

— Segura firme! — Gabo girou o volante. O carro patinou na lama, mas os pneus tracionaram.

Ele encostou o Cobalt o mais perto possível.

— Elena! Corda!

Elena saiu pelo teto solar, jogando uma corda de reboque.

— Amarrem nas crianças primeiro! — gritou ela.

Foi um caos coordenado. A água subia visibly, engolindo placas de trânsito e lixeiras. Gabo mantinha o motor acelerado para não deixar a água entrar no escapamento.

Uma, duas, três crianças foram puxadas para o teto do carro e depois para dentro.

— O dique rompeu! — gritou um dos adultos resgatados, um homem encharcado tremendo de frio. — Foi de repente. O muro simplesmente cedeu.

— Sem manutenção, sem barreiras — murmurou Gabo.

Quando o último foi resgatado, o ônibus foi arrastado pela correnteza, batendo contra um pilar de viaduto e afundando.

Gabo olhou para o retrovisor. O carro estava lotado, cheirando a cachorro molhado e medo.

— Para onde? — perguntou Elena.

— Para o único lugar alto e seco que nos resta — disse Gabo. — A Delegacia.