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Capítulo 69: O Fantasma no Shell
Esgotos Principais - Nível -2
O cheiro era insuportável, mas era o cheiro da sobrevivência. Gabo, Val e Aria caminhavam pelas passarelas estreitas acima do fluxo de águas residuais.
Aqui embaixo, o som da guerra na superfície era abafado.
Eles chegaram a uma câmara de manutenção antiga, iluminada por lâmpadas de sódio amarelas que piscavam ritmicamente. Havia um terminal de computador velho na parede, coberto de musgo e ferrugem.
Assim que Aria se aproximou, o terminal ligou.
A tela de fósforo verde exibiu apenas um cursor piscando.
Depois, palavras começaram a aparecer, digitadas por mãos invisíveis.
OLÁ, GABRIEL.
Gabo se aproximou, tirando o capacete. Ele tocou a tela fria.
— Pai? É você mesmo?
SOU O QUE RESTOU. SOU O CÓDIGO E A MEMÓRIA. MAS O AMOR... O AMOR É O MESMO.
Gabo sentiu um nó na garganta. Ele nunca teve a chance de se despedir.
— Eu sinto sua falta — disse Gabo, a voz embargada.
EU SEI. EU VI TUDO. CADA PASSO SEU. CADA ERRO. CADA VITÓRIA. ESTOU ORGULHOSO.
Valéria se aproximou, olhando para o código que corria nas bordas da tela.
— Dante, precisamos de acesso ao hub de comunicações da Aeterna. Se conseguirmos hackear os satélites daqui de baixo, podemos desviar o ataque cinético.
O HUB É UMA FORTALEZA. MINHA INFLUÊNCIA LÁ É LIMITADA. ELES TÊM FIREWALLS BIOLÓGICOS.
— Firewalls biológicos? — perguntou Gabo.
CÉREBROS HUMANOS DESCONECTADOS DO CORPO, USADOS COMO FILTROS DE SEGURANÇA. ELES SENTEM DOR QUANDO HÁ UMA INTRUSÃO. É UM SISTEMA CRUEL.
Gabo cerrou os punhos.
— Como passamos por eles?
NÃO PASSAMOS. NÓS OS LIBERTAMOS.
O terminal mostrou um mapa esquemático da Torre Aeterna. O Hub ficava no subsolo, protegido por camadas de concreto e aço.
HÁ UMA ENTRADA SECRETA. UM TÚNEL DE SERVIÇO QUE EU CONSTRUÍ QUANDO A TORRE AINDA ERA APENAS UM PROJETO NO PAPEL. NINGUÉM SABE QUE EXISTE. NEM O MARCO.
— Você sabia que isso ia acontecer? — perguntou Gabo. — Que a cidade ia virar isso?
EU TEMIA. POR ISSO DEIXEI AS PORTAS DOS FUNDOS. POR ISSO DEIXEI ARIA.
Aria tocou a tela.
— Eu sou a chave — disse ela.
SIM. VOCÊ É O VÍRUS DA LIBERDADE, MINHA FILHA.
Gabo olhou para Aria, depois para a tela.
— Filha?
ELA FOI CRIADA A PARTIR DO DNA DE HELENA E DO MEU CÓDIGO GENÉTICO SINTETIZADO. ELA É SUA IRMÃ, GABRIEL. NÃO DE SANGUE, MAS DE ALMA.
Gabo olhou para a menina. A "Menina do Orelhão". A órfã que ele protegeu instintivamente. Agora tudo fazia sentido. A conexão. O dever.
Ele se ajoelhou e abraçou Aria. Ela retribuiu, enterrando o rosto no ombro dele.
— Vamos salvar nossa casa — disse Gabo.
O terminal piscou uma última vez.
CUIDADO COM O SANTO. ELE NÃO É APENAS UM ROBÔ. ELE É... OUTRA COISA.
A tela apagou.
— Outra coisa? — repetiu Val. — O que pode ser pior que um assassino cibernético gigante?
Um rugido ecoou pelos túneis de esgoto. Um som que não era humano, nem animal, nem máquina. Era algo primitivo.
— Acho que vamos descobrir — disse Gabo, recarregando a escopeta.
