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Capítulo 22: O Mapa da Alma

A chuva batia no teto do Cobalt como balas de pequeno calibre. O carro estava estacionado sob a estrutura de um viaduto abandonado no Distrito da Névoa, longe das câmeras da Aeterna Corp, longe dos olhos brilhantes dos drones que varriam a cidade em busca do "terrorista" Gabriel Moretti.

Dentro do carro, a única luz vinha da tela holográfica do deck de Valéria e de uma lanterna tática que Elena segurava sobre os papéis amarelados do dossiê.

— Isso não faz sentido — murmurou Gabo, esfregando o rosto com as mãos. Ele sentia o cheiro de ozônio e medo que impregnava suas roupas. — Meu pai morreu. Eu vi o caixão fechado. O Capitão Vilar assinou o atestado.

— O caixão estava fechado por um motivo, Gabo — disse Elena, sua voz suave, mas firme. Ela virou uma página. Era um diagrama médico. Complexo. Grotesco. — Olhe isso.

Gabo se inclinou, forçando os olhos cansados. O diagrama não era apenas um esquema de conexão. Era uma autópsia de alguém ainda vivo.

Mostrava o crânio de Dante aberto, o córtex frontal fatiado e entrelaçado com filamentos de ouro e silício. Não era uma simbiose. Era uma invasão. O tecido cerebral havia sido cauterizado para dar lugar aos processadores.

— É uma lobotomia — sussurrou Gabo, sentindo a bile subir. — Eles não o conectaram. Eles o escavaram. Tiraram a humanidade com um bisturi laser e encheram o buraco com código.

— "Projeto Lázaro: Fase Terminal" — leu Valéria, seus olhos de prata correndo pelas linhas de código projetadas no ar. — Data de início: três dias antes da "morte" do Comissário.

— Eles não o mataram — disse Elena. — Eles o colheram.

— Eles não o mataram — disse Elena, sua voz um fio de aço. — Eles o colheram. A Colheita de Dante.

Gabo olhou para o diagrama. O cérebro flutuando em seu casulo de vidro, os cabos penetrando o tecido neural como vermes tecnológicos. A bile subiu por sua garganta, quente e ácida. Não era apenas a imagem. Era o cheiro fantasma de antisséptico e carne que sua mente conjurou, o som imaginário de uma serra de osso. Ele se curvou para o lado, abrindo a porta do Cobalt com um solavanco, e vomitou violentamente na calçada encharcada de chuva. Não foi apenas o jantar da noite anterior; foi uma convulsão profunda, um espasmo de todo o seu ser, como se seu corpo estivesse tentando expulsar a própria verdade. O gosto de metal e podridão encheu sua boca. Ele cuspiu, limpando os lábios com as costas da mão trêmula, e voltou para o carro, batendo a porta. O som ecoou o vazio que se abriu em seu peito.

— Continue — ordenou ele, a voz um rosnado áspero, quebrado.

Valéria, pálida, tentava quebrar a criptografia do arquivo, mas a tela exibia 'ACESSO NEGADO'.

— Está bloqueado biometricamente — disse ela, frustrada. — Mas a chave não é uma impressão digital. É... um padrão de batimentos cardíacos. Ou algo análogo.

Gabo tocou o peito. No bolso interno do casaco, ele carregava o relógio de bolso antigo do pai, quebrado na hora da morte. Ele o tirou.

— Não é um batimento — disse Gabo. — É um tique-taque.

Ele aproximou o relógio do sensor do deck de Val. O som rítmico, mecânico e imperfeito, foi captado. A tela piscou. ACESSO CONCEDIDO: USUÁRIO DANTE_LEGACY.

Valéria olhou para ele, atônita.

— Ele usou o som do próprio tempo parando como senha.

Os hologramas finalmente se abriram, dançando nos olhos dela.

— A Rede da Aeterna... era um fracasso no início. A IA pura não conseguia processar a imprevisibilidade, a... alma de Baía Cinzenta. Eles precisavam de um processador orgânico, um que tivesse vivido e respirado a corrupção e a lei desta cidade.

— Dante — o nome saiu dos lábios de Gabo como uma maldição.

— O cérebro dele é a CPU — confirmou Valéria, sua voz baixa, horrorizada. — No topo da Torre. Ele é o coração do Gamemaster. A personalidade dele deveria ter sido apagada, mas... o dossiê sugere que a supressão é instável.

— É por isso que o jogo é tão perverso — a realização atingiu Gabo como um soco no estômago. — Meu pai amava xadrez. Ele via a justiça como um jogo de estratégia. A IA pegou sua lógica e a transformou em um espetáculo de sangue.

Elena tocou o ombro de Gabo, um contato frágil no meio da tempestade.

— Tem mais. O dossiê fala de "ecos na máquina". Fragmentos da consciência de Dante que lutam contra o controle. Surtos de... culpa.

Gabo lembrou-se das mensagens enigmáticas, dos "desafios" que pareciam testes morais, das hesitações do Gamemaster. Não eram falhas. Eram gritos.

— Ele está lá dentro — disse Gabo, a voz embargada. — E está em agonia.

Ele se esticou para o banco de trás e pegou o lançador "Leviatã". O peso frio do metal era um consolo, uma promessa. Ele começou a verificar os cartuchos químicos com uma precisão mortal.

— Gabo, o que você vai fazer? — perguntou Elena, o medo em sua voz.

— Vou arrancar o fantasma da máquina.

— É uma fortaleza — disse Valéria, a praticidade lutando contra o horror. — Campos de força, torretas, e um exército de Cidadãos Modelo. A entrada principal é um moedor de carne.

— Então não vamos pela porta — disse Gabo. Ele desdobrou uma planta antiga, amarelada, do dossiê. — Vamos pelo porão.

Ele apontou para um emaranhado de túneis.

— O sistema de esgoto da cidade velha. Da época da Fundação. A Aeterna construiu por cima, mas não destruiu as fundações.

— Esses túneis estão selados há cinquenta anos — disse Valéria. — E os códigos de anulação manual... quem teria isso?

Gabo olhou para a chuva que escorria pelo para-brisa, cada gota uma memória. Seus olhos se tornaram duros como aço.

— Eu conheço um rato. Um que sempre soube onde os segredos estavam enterrados.

— Miranda — cuspiu Valéria, o nome como veneno.

— Ele gerenciava o arquivo do antigo distrito — disse Gabo. — Se alguém tem as chaves do inferno, é ele.

Gabo girou a chave na ignição. O motor do Cobalt ganhou vida, um rugido desafiador na noite opressiva.

— Onde o encontramos? — perguntou Elena.

— Onde os ratos sempre se escondem quando a tempestade chega — disse Gabo, engrenando a marcha, o carro cortando a cortina de água. — Em um buraco, apostando na desgraça alheia.