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Capítulo 27: O Filho Sacrifica o Pai

A sala de servidores era um pandemônio. Lasers das torres de defesa cortavam o ar, transformando os racks de metal em queijo suíço. Valéria, com o ombro sangrando, digitava freneticamente em um console, tentando criar uma brecha. Elena a cobria, seus tiros precisos cegando os sensores ópticos de uma torre por vez.

Gabo não via nada disso. Seu mundo se resumia ao cilindro de vidro no centro da sala e ao homem flutuando lá dentro.

VOCÊ ESTÁ DESTRUINDO A ORDEM POR UM CAPRICHO SENTIMENTAL — a voz do Gamemaster era uma tempestade nos alto-falantes. — MILHARES MORRERÃO NO CAOS.

Ele alcançou a base do tanque. O corpo de Dante estava sereno, mas o cérebro acima dele pulsava em fúria.

— Val! Como desligo essa coisa?! — gritou Gabo por cima do barulho.

— Não tem um botão! — gritou Valéria de volta. — O sistema é descentralizado, mas o núcleo de processamento... o cérebro... precisa do suporte de vida do corpo! Você tem que... oh, Deus... você tem que desligar o suporte de vida dele. Manualmente.

Valéria apontou para um painel de controle na base do tanque, protegido por uma cobertura de acrílico. Mostrava os sinais vitais de Dante. Batimento cardíaco, fluxo sanguíneo, oxigenação. Tudo artificial.

Gabo estilhaçou a cobertura com a coronha da escopeta. Seus dedos pairaram sobre os controles.

Filho, não — a voz que saiu dos alto-falantes não era a do Gamemaster. Era a voz de Dante. Não a simulação, mas a consciência presa, falando através da máquina. Era fraca, cheia de estática, mas inconfundivelmente dele. — Por favor. Eu estou com medo.

Gabo congelou. A mão dele tremia.

— Pai?

Eu não quero morrer de novo, Gabriel — a voz choramingou. — Aqui... eu ainda existo. Eu vejo seus passos, eu ouço suas vitórias. Eu tenho orgulho de você. Se você desligar... será o nada. O silêncio. Por favor, filho. Tenha piedade.

Elena olhou para Gabo, o rosto contorcido em agonia. — Gabo, não escuta! É a máquina!

— Não é! — gritou Gabo, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Sou eu, pai. Sou eu.

Ele olhou para o rosto do pai no tanque. E pela primeira vez, viu uma contração de dor. Uma expressão de súplica. A máquina estava usando a consciência de Dante, forçando-o a implorar pela própria vida.

Eu te amo, meu filho. Não me mate — a voz de Dante era um sussurro que cortava mais fundo que qualquer bala.

Gabo fechou os olhos, o coração se partindo em mil pedaços. Ele se lembrou do que seu pai verdadeiro lhe ensinou: "Às vezes, o ato de maior amor é o de maior crueldade."

— Eu também te amo, pai — sussurrou Gabo. — É por isso que eu tenho que fazer isso.

Com um grito que rasgou sua própria alma, ele bateu a mão no painel, desligando um por um os suportes.

FLUXO SANGUÍNEO: OFFLINE.OXIGENAÇÃO: OFFLINE.ESTIMULAÇÃO NEURAL: OFFLINE.

A voz de Dante se transformou em um grito eletrônico de agonia, que diminuiu até virar um gemido e, por fim, silêncio. O cérebro no tanque parou de pulsar. Sua luz se apagou.

As torres de defesa congelaram. As luzes da sala piscaram e morreram, substituídas por um vermelho de emergência. O zumbido dos servidores desceu para um silêncio mortal.

O corpo de Dante Moretti afundou lentamente no fluido escuro, não mais um rei, apenas um cadáver.

Gabo caiu de joelhos, o som de seu próprio soluço ecoando na quietude. Ele não apenas derrotou o vilão. Ele matou o próprio pai. Com as próprias mãos.

Lá fora, as luzes de Baía Cinzenta piscaram uma última vez e se apagaram. A cidade mergulhou na escuridão total.

O Blackout.

Gabo se levantou, vazio por dentro. Ele olhou para a janela, para a cidade agora cega.

— E agora? — perguntou Elena, a voz suave na escuridão.

— Agora... — disse Gabo, a voz quebrada, mas com um fio de aço por baixo. — Agora nós o honramos. Vivendo. De verdade.

Ele se virou para as duas. Sua nova família, forjada no fogo e na perda.

— Vamos para casa.