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Capítulo 201: Degraus de Sangue e Ferrugem

A escada de manutenção de emergência cheirava a séculos de abandono. Cada barra de metal estava coberta por uma crosta grossa de oxidação e um lodo escorregadio que parecia respirar. Elias foi o primeiro, empurrado pelo terror visceral de ser devorado pelo que quer que fosse a massa biomecânica rastejando paredes abaixo. Seus sapatos rasparam contra a ferrugem, as mãos trêmulas agarrando o aço como um homem se agarraria a um bote salva-vidas.

Eu fui logo atrás. Não por bravura, mas porque se Elias travasse, alguém precisava empurrá-lo para cima. Valéria encerrava a marcha, cobrindo a retaguarda, os implantes em modo silencioso, embora o peso dos três juntos ameaçasse arrancar as buchas da parede a cada degrau.

— Não olha pra baixo, Elias, — rosnei, a voz rouca arranhando minha garganta. — Só olha pro próximo maldito degrau.

Minha perna esquerda era uma âncora de pura agonia. A junta carbonizada da órtese raspava contra a estrutura de suporte, enviando choques de dor branca pelo meu quadril até a base da coluna. O ar frio e saturado de poeira varria o túnel vertical, trazendo consigo um fedor adocicado de decomposição botânica.

Por um instante avassalador, a escuridão tentou pregar uma peça. O cheiro de lodo se distorceu, metamorfoseando-se no aroma enjoativo e quente de um charuto caro. A fumaça fantasma parecia espiralar ao redor do meu pescoço, apertando. O rosto do meu pai piscou na periferia da visão.

Não.

Bati o joelho da perna mecânica contra o degrau de ferro com força brutal. O metal dobrou ligeiramente. A dor aguda varreu a alucinação, rasgando o véu de fumo antes que ele pudesse se formar. A ardência me puxou de volta ao agora. Sangue real pulsando em minhas veias. Ferrugem descascando sob minhas palmas enluvadas. O som das entidades descendo.

— Indivíduos na marca de quinhentos metros e caindo, — informou Valéria, a voz impessoal, estéril de qualquer pânico. O modo de segurança a transformava em uma calculadora tática ambulante. — A velocidade de descida aumentou dezoito por cento. A bioluminescência do Jardim no poço os está estimulando.

— Continua subindo, Elias! — gritei.

Mas o silêncio acima de mim me disse o contrário. Elias havia parado. Eu bati com a testa nas costas das botas dele.

— Eu... eu não consigo... — A voz de Elias era um guincho quebrado, reverberando no abismo. — O degrau... tá podre. Vai quebrar. Nós vamos cair. Todos nós vamos cair.

Eu olhei para o alto. Acima dele, a barra transversal estava corroída até a espessura de um lápis, o ácido do lodo vegetal tendo devorado a integridade estrutural. Mais acima, as raízes bioluminescentes do Jardim pulsavam com um azul febril, e eu podia ver sombras grotescas e multifacetadas descendo em espiral pelas paredes de concreto. Aranhas do tamanho de cães, fundidas com metal derretido e carne podre.

— Pisa no canto! — instruí, forçando a dor para trás da mente. — No encaixe da parede. O centro vai ceder, mas o pino na pedra ainda segura.

— Não dá! Eu vou escorregar!

As sombras acima se agitaram. Um silvo agudo, meio sintético, meio orgânico, perfurou o ar, ricocheteando no espaço estreito. Uma das entidades mais rápidas se soltou da parede, caindo em queda livre antes de pregar as garras metálicas violentamente na escada, apenas dez metros acima de Elias.

O monstro era um amálgama de fiação estripada e tecido muscular exposto, coroado por uma placa craniana de drone de entrega. Suas mandíbulas mecânicas estalaram.

— Elias, move! Agora! — gritei.

Elias choramingou e tentou alcançar o degrau podre. Seu pé escorregou. A barra cedeu no centro com um estalo doentio de metal rasgado.

Ele caiu.

O peso esmagador de Elias bateu direto no meu ombro. Minhas mãos, já em carne viva pela ferrugem, deslizaram. Eu grunhi, o oxigênio expulso dos pulmões enquanto o impacto quase arrancava meus braços das juntas. Fechei as mãos com uma força insana, o vergalhão enferrujado cortando através das minhas luvas.

A dor foi estelar. Uma supernova de agonia nas juntas e nos músculos rasgados. E foi perfeita. A alucinação do charuto foi dizimada. Eu estava vivo.

Valéria, operando com precisão de máquina, lançou o braço ao redor do meu torso, estabilizando nós dois na estrutura vacilante enquanto a aberração acima avançava para nós, atraída pelo barulho do metal quebrado.

— Padrão de ataque iminente, — disse Valéria. — Defesa letal recomendada.

Com Elias pendurado em mim e a criatura a centímetros do rosto dele, levantei minha perna esquerda — a massa pesada, desajeitada e de órtese queimada — e chutei para cima.

O impacto do metal pesado contra a face sintética do drone-aranha foi acompanhado pelo som satisfatório de osso e plástico quebrando. A criatura guinchou, soltou a barra e despencou para o abismo, batendo nas paredes até sumir na escuridão.

O solavanco me fez morder a língua, o gosto de cobre quente inundando a boca.

— Trava na escada, Elias! — eu rosnei, cuspindo sangue. — Tem uma escotilha de manutenção três metros acima. É lá que a gente sai. Valéria, me empurra.

Ela não questionou. Com um empurrão quase gentil, me ergueu, e eu ergui Elias. Quebramos o cadeado enferrujado da escotilha com a órtese, abrindo passagem para a escuridão horizontal de um novo corredor, segundos antes que o enxame biomecânico despencasse sobre a escada, rasgando o metal que deixamos para trás.