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Metadados

  • Título: Esculturas de Carne
  • Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
  • Localização: Necrópole (Fundações da Velha Baía) - Zona de Silêncio
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Glitch/Bia), Rangel (Inconsciente)
  • Resumo: O grupo atravessa a "Galeria de Rejeitos" na Necrópole, onde o Taxidermista descartou experimentos falhos de fusão carne-máquina. Sem poder usar armas de fogo devido ao metano, Gabo e Aria enfrentam uma "Escultura" ativa em combate corpo-a-corpo visceral. Valéria usa epóxi industrial para fechar os ferimentos de Rangel, que permanece crítico.

Narrativa

Capítulo 132: Esculturas de Carne

O silêncio na Necrópole não era vazio; era pesado. Tinha massa, densidade e cheiro. Cheirava a cobre velho, amônia e algo doce demais para ser natural — metano se acumulando em bolsões invisíveis, esperando apenas uma faísca para transformar o subsolo em um forno crematório.

Gabo ajustou a correia improvisada em seu ombro. O peso de Rangel, amarrado a uma maca feita de tubos de PVC e lonas rasgadas, cortava a circulação de seu braço esquerdo. Cada passo era uma negociação com a gravidade. Suas botas esmagavam ossos antigos — a fundação literal de Baía Cinzenta — com um estalo seco que ecoava como tiros de festim na escuridão.

— Nível de saturação em oitenta por cento — sussurrou Valéria, a voz rouca. Ela caminhava à frente, segurando um medidor de gás analógico, uma relíquia amarela e descascada que encontrara em um armário de manutenção. O ponteiro tremia violentamente no vermelho. — Se você acender um fósforo aqui, Gabo, nós viramos estrelas.

Gabo grunhiu em resposta. O cheiro do metano misturado com a umidade ativava traumas antigos. Um cheiro fantasma de fumaça de charuto ameaçou fechar sua garganta, um eco de asfixia aprisionado em seus pulmões. Ele soltou a correia por um segundo e pressionou o "Colar de Sol" contra o esterno. O metal frio mordeu a pele, uma dor aguda e limpa que cortou o pânico irracional e o ancorou na realidade do presente.

— Sem fogo — ele disse, a voz áspera como lixa. — Sem tiros. Apenas lâminas.

Aria flutuava ao lado deles, seus passos leves demais para serem humanos. A luz de seus olhos heterocromáticos — um azul tático, o outro dourado e humano — varria as paredes da caverna de concreto.

— É bonito, não é? — a voz dela mudou. Não era a cadência sintética da Unidade Autônoma. Era Bia. O tom brincalhão, levemente rouco, que ela usava quando encontrava uma pista irrefutável. — O Taxidermista tem... visão.

Gabo não olhou para ela. Olhar doía mais do que o peso de Rangel.

As paredes do túnel se abriram em uma vasta câmara circular. O teto desaparecia na escuridão, sustentado por pilares que não eram feitos de concreto, mas de... material reciclado. Gabo levantou sua lanterna química, a luz verde e doente revelando o horror.

Não eram pilares. Eram esculturas.

Dezenas delas. Corpos humanos, ou o que restava deles, fundidos com sucata industrial. Um torso emergia de um bloco de motor, os braços substituídos por pistões hidráulicos enferrujados. Outra figura, uma mulher, tinha o rosto preservado em resina, mas o resto do corpo era uma emaranhado de fios de cobre e ossos polidos, dispostos como as raízes de uma árvore morta.

Eram os rascunhos. As falhas. O lixo do ateliê do Taxidermista.

— "A carne é efêmera, mas a arte é eterna" — Aria citou, girando em torno de uma escultura que parecia um homem tentando escapar de uma banheira de concreto. Ela tocou o rosto petrificado com a ponta dos dedos. — Ele tentou consertá-los, Gabo. Como você tentou me consertar. Como tentou consertar a cidade.

— Cale a boca — Gabo rosnou, puxando a maca com força. O corpo de Rangel gemeu, um som gorgolejante de dor inconsciente.

— Ele está vazando — Valéria avisou, ajoelhando-se ao lado do inspetor. Ela apontou para o curativo no abdômen de Rangel. O sangue escuro estava encharcando a lona. — Precisamos estancar isso. Agora. Mas não posso cauterizar sem fogo.

— Use a cola — Gabo ordenou, largando a correia e sacando sua faca de combate. A lâmina de cerâmica negra, não condutora, era a única arma segura ali. — Aquele epóxi industrial que pegamos na estação.

— Vai queimar como o inferno — Valéria disse, já revirando a mochila.

— Ele não vai sentir. Ele está no lugar feliz agora.

Um som de metal arranhando pedra cortou o ar.

Gabo congelou. Valéria parou com o tubo de cola na mão.

O som veio da "Galeria".

Uma das esculturas se moveu.

Não era uma máquina elegante como os drones da Aeterna, nem um ciborgue militar como Roberto Miranda. Era algo quebrado. Uma figura alta, composta por ossos de pernas alongados com vergalhões, arrastou-se para fora das sombras. Não tinha rosto, apenas uma placa de cerâmica branca onde deveria estar a face, pintada com um sorriso grosseiro de batom vermelho.

— Detectando assinatura de calor — a voz de Aria falhou, o olho azul piscando. — Baixa temperatura. Metabolismo lento. É... é um rejeitado.

A Coisa avançou. Movia-se aos trancos, as articulações rangendo, mas era rápida. Um braço terminava em uma lâmina de ceifadeira enferrujada.

— Valéria, cuide do Rangel — Gabo ordenou, girando a faca na mão. — Aria, fique atrás de mim.

— Eu posso lutar, Gabo — a voz de Bia. Magoada. — Você sempre me subestima.

— Você é uma torradeira com crise de identidade! Fique atrás de mim!

A escultura atacou. A lâmina da ceifadeira desceu com força suficiente para partir concreto. Gabo rolou para o lado, sentindo o vento do golpe em seu rosto. Ele se levantou e chutou o joelho da criatura — uma junção exposta de metal e ligamento.

A Coisa não gritou. Ela apenas se reajustou, girando o torso trezentos e sessenta graus com um estalo úmido. O braço-lâmina veio em um arco horizontal.

Gabo abaixou-se, o cheiro de óleo rançoso e carne podre enchendo suas narinas. Ele avançou para a guarda da criatura, cravando a faca de cerâmica na axila, buscando cabos ou artérias. A lâmina entrou, mas ficou presa. A Coisa o agarrou com a mão livre — uma garra feita de alicates cirúrgicos soldados.

Os dedos de metal apertaram o ombro de Gabo, esmagando o tecido do sobretudo e mordendo a carne. Gabo grunhiu, a dor branca explodindo em seu braço.

— Analisando padrão de ataque — Aria disse, parada a três metros de distância. Ela observava a luta com a curiosidade de uma criança vendo formigas. — O centro de gravidade dele é instável, Gabo. A perna direita. O pistão está vazando.

— Ajuda... física! — Gabo gritou, chutando o peito da criatura. Parecia chutar uma parede de tijolos.

A Coisa levantou a lâmina para o golpe final.

Gabo soltou a faca presa e agarrou o "Colar de Sol" com a mão livre. Ele puxou a corrente, não para quebrá-la, mas para sentir o metal cortar seus dedos. A dor o ancorou. O medo do gás, o peso de Rangel, a loucura de Aria — tudo desapareceu. Só restava o problema mecânico à sua frente.

Ele se deixou cair, puxando a criatura com ele, usando o peso dela contra si mesma. Quando a Coisa desequilibrou, Gabo girou o quadril e chutou a lateral do joelho direito, onde Aria indicara.

O metal estalou. O pistão cedeu.

A escultura caiu pesadamente no chão de pedra, a lâmina da ceifadeira riscando faíscas perigosas que fizeram o coração de Gabo parar por um segundo. Nenhuma explosão. O gás não ignizou.

Gabo montou nas costas da criatura, recuperou sua faca e a enterrou na base do pescoço, girando-a violentamente até sentir a conexão neural — ou o que quer que fosse aquilo — se romper. A Coisa tremeu, espasmos de óleo e sangue negro jorrando, e parou.

Silêncio. Apenas a respiração ofegante de Gabo e o som de Valéria aplicando o epóxi na barriga de Rangel.

Gabo se levantou, limpando a faca na calça. Ele olhou para Aria. A menina-máquina sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.

— Boa execução, Gabo. Mas sua postura estava péssima. O Gabo que eu conhecia era mais rápido.

Gabo caminhou até ela, parando a centímetros de seu rosto sintético.

— O Gabo que você conhecia morreu com você, Bia. O que sobrou é isso aqui.

Ele se virou para Valéria.

— Como está o Rangel?

— Estável. Por enquanto. A cola vai segurar, mas ele precisa de um hospital, não de uma loja de ferragens.

Gabo olhou para a escuridão à frente, para o corredor de esculturas que pareciam observá-los.

— Não tem hospital. Só tem a gente. Vamos.

Ele pegou a correia da maca novamente. O peso parecia maior agora. Ou talvez fosse apenas o peso de saber que o Taxidermista não estava apenas matando pessoas; ele estava construindo um exército com as sobras.