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Capítulo 52: Dívida Eterna

O flutuante do "Dourado" balançava violentamente nas águas negras da cidade submersa, mas não era por causa da maré. O barco, uma boate adaptada sobre cascos de barcaças de lixo, era um templo de néon e vício flutuando sobre a miséria do Setor 9.

Gabo firmou a base no píer escorregadio. Os servos das órteses nas pernas zumbiram baixo, compensando o balanço. A estrutura era uma necessidade médica; desde que o Taxidermista esmagara seus ossos na Torre do Relógio com aquele maldito contrapeso, o metal era a única coisa que o mantinha em pé.

"Você é uma âncora", a voz do assassino ainda ecoava.

— Foco, Gabo — ele murmurou para si mesmo. A Dra. Cecília Weiss diria que ele estava dissociando de novo. Que ele precisava dormir. Mas o sono trazia sonhos com água subindo, então ele escolhia a vigília armada.

Ele concentrou a força hidráulica na perna direita e chutou a porta de metal reforçado.

A fechadura cedeu com um gemido de aço torto, explodindo para dentro em uma chuva de parafusos. Ele entrou com a Glock 19 modificada em punho, o cano varrendo o salão enfumaçado.

— Dourado! — gritou Gabo. — A visita chegou!

O lugar estava estranhamente silencioso.

Não havia música bate-estaca. Não havia risadas de capangas contando dinheiro sujo. Havia apenas o som rítmico de goteiras e um cheiro que Gabo conhecia bem demais: o cheiro acobreado e doce de sangue arterial fresco.

Ele avançou, arma em guarda baixa, pisando com cuidado sobre o carpete encharcado. Corpos estavam espalhados pelo chão como bonecos quebrados. Os guardas de elite do Dourado. Homens enormes, armados com submetralhadoras e blindagem subcutânea, todos mortos antes que pudessem puxar o gatilho ou levantar um alarme.

E todos com as mãos quebradas. Os ossos dos dedos esmagados metodicamente.

— Clara! — Gabo gritou, o pânico profissional de policial dando lugar ao pânico primal de irmão.

Um som abafado veio dos fundos, atrás de uma cortina de contas de plástico dourado.

Gabo correu, as órteses batendo pesado no tablado de madeira. Ele rasgou a cortina e parou.

O escritório do Dourado era uma paródia de opulência. Veludo vermelho mofado, ouro falso descascando e estátuas de querubins roubadas de igrejas alagadas. O agiota, um homem gordo com pele sintética dourada (daí o apelido), estava sentado em sua cadeira de couro de avestruz.

Sua cabeça pendia para trás em um ângulo impossível. Sua garganta havia sido esmagada com precisão cirúrgica. No peito dele, cravada na carne, brilhava uma moeda de prata antiga.

Encolhida num canto, abraçando os joelhos contra o peito, estava Clara. Ela estava suja de lama e óleo, os olhos arregalados de terror catatônico, tremendo incontrolavelmente.

— Clara... — Gabo abaixou a arma e se aproximou devagar, desativando os servos barulhentos para não assustá-la.

Ela levantou a cabeça. Quando viu o rosto dele, o reconhecimento demorou um segundo doloroso para atravessar o trauma. E então, a raiva veio, quente e necessária.

— Você... — ela sussurrou, a voz rouca.

Gabo tentou tocá-la, mas ela se encolheu como se ele fosse fogo.

— Onde você estava? — ela gritou, a voz quebrando em soluços secos. — Onde você estava quando a mãe morreu gritando de dor sem remédio? Onde você estava quando eu tive que vender minha assinatura biológica pra esse porco pra pagar a cremação?

— Clara, eu não sabia... eu juro... eu estava...

— Salvando a cidade? — Ela se levantou, cambaleando, o rosto contorcido de ódio. — Você está muito ocupado brincando de herói, derrubando torres, enquanto sua própria família apodrece no esgoto dos refugiados!

Gabo aceitou as palavras como aceitaria facadas. Ele merecia cada uma. O silêncio dele era sua confissão.

— O Dourado... — Clara apontou para o cadáver com nojo. — Ele não queria dinheiro, Gabo. A gente não tinha dinheiro. Ele queria meu código genético. Ele estava vendendo amostras de sangue dos refugiados para alguém. Para o "Jardim".

Gabo gelou. "Jardim". O nome aparecia nos arquivos criptografados de Vilar. O Sindicato não estava apenas lavando dinheiro; estava lavando DNA.

— Ele trabalhava para o Sindicato... — murmurou Gabo, conectando os pontos.

De repente, uma sombra se moveu na varanda externa do flutuante, cortando a luz da tempestade.

Gabo girou em um segundo, apontando a Glock.

Uma figura encapuzada estava parada na amurada, a chuva torrencial batendo em suas costas largas. O "Santo".

— Baixe a arma, detetive — disse uma voz distorcida por um modulador vocal pesado, soando como várias vozes sobrepostas.

— Você matou eles — disse Gabo, o dedo tensionando no gatilho.

— Eu limpei a sujeira. A dívida da sua irmã está anulada. O contrato foi revogado com sangue.

— Você não é juiz e júri — rosnou Gabo.

— Alguém precisa ser, quando a lei se afoga. — O Santo apontou para o cofre aberto do Dourado. Estava vazio de dinheiro, mas cheio de frascos de sangue. — Eles estão construindo algo novo, Moretti. Usando as peças dos pobres. Eu estou apenas... podando as ervas daninhas.

— Quem é você?

O vigilante deu um passo à frente. A luz de um raio iluminou brevemente seu rosto sob o capuz. Usava uma máscara balística lisa, branca e sem feições, exceto por dois riscos verticais negros para os olhos, como lágrimas chorando para cima.

— Eu sou o que sobra quando a esperança morre — disse o vigilante. — Eu sou a consequência.

Ele se moveu. Rápido demais para um humano normal. Gabo disparou duas vezes, mas o vigilante já tinha saltado para o barco atracado ao lado com uma agilidade sobre-humana.

Gabo correu até a varanda, seus servos zumbindo no máximo, mas o motor do barco vizinho rugiu e a figura desapareceu na escuridão e na chuva, deixando apenas o rastro de espuma.

Gabo ficou ali, a arma ainda quente na mão, a água fria lavando seu rosto quente. Ele tinha acabado de encontrar o assassino mais perigoso que a cidade já vira. Um assassino que salvara sua irmã, mas que roubara as provas do DNA.

Ele voltou para dentro. Clara estava chorando agora, um choro convulso de quem finalmente permitiu que o terror saísse.

Gabo guardou a arma. Ele tirou o sobretudo pesado e o colocou sobre os ombros dela. Dessa vez, ela não o afastou. Ela se deixou cobrir, pequena e quebrada.

— Vamos para casa, Clara — ele disse suavemente.

— Nós não temos casa, Gabo — ela soluçou, agarrando a lapela do casaco dele. — A enchente levou tudo. O apartamento, as fotos... a mãe.

— Eu sei — disse ele, levantando-a com a ajuda das órteses. — Eu sei. Mas eu tenho um lugar seguro. E eu vou descobrir quem estava comprando seu sangue. Eu prometo.

Eles saíram do flutuante da morte, dois órfãos em um barco no meio do dilúvio. Gabo olhou para a cidade iluminada ao longe, a carcaça da Torre de Marfim ainda visível como uma lápide gigante.

A conspiração não era apenas política. Era biológica. Era pessoal. E Gabo Moretti sabia que, para descobrir a verdade sobre o "Santo" e sobre o "Jardim", ele teria que mergulhar mais fundo na escuridão do que jamais ousara.

O Dilúvio não havia lavado os pecados da cidade. Apenas os havia fertilizado.