Appearance
O calor ali embaixo não era apenas temperatura; era uma pressão física. O ar vibrava com o thump-thump colossal dos pistões, um ritmo que Gabo sentia nos dentes e na fratura recém-adquirida no antebraço.
Ele apertou o torniquete improvisado com um pedaço de camisa rasgada. O sangue da mordida da Quimera já estava escuro e coagulado, misturando-se à graxa do esgoto. A dor era aguda, latejante, uma âncora necessária. Sempre que sua mente vagava para o cheiro adocicado e enjoativo do fluido que corria nos tubos — um cheiro que lembrava fumaça de incenso barato e carne queimada —, a memória traumática da asfixia na cabine de seu pai ameaçava sufocá-lo. Para se ater à realidade, ele apertava o Colar de Sol contra o peito até o metal frio morder a pele.
A dor física espantava o cheiro de queima, varrendo a fumaça de suas narinas.
— Gabo, você está pálido — a voz de Bia Vargas ecoou. Não vinha dos alto-falantes, mas da garganta sintética da garota parada à sua frente. Aria inclinou a cabeça, o cabelo loiro platinado brilhando sob as luzes de emergência âmbar. O sorriso era idêntico. Cruelmente idêntico. — Está perdendo sangue rápido. Igualzinho àquele dia no beco da Rua 7. Lembra? Quando você hesitou em atirar no traficante e eu levei um tiro de raspão?
Gabo ignorou o fantasma. Ele se virou para Valéria. A hacker estava ajoelhada diante de um painel de controle manual, seus olhos cibernéticos varrendo os mostradores analógicos com frustração.
— Val, relatório — ele grunhiu, içando Rangel para uma posição mais segura com um esforço que fez as engrenagens de suas órteses de perna protestarem com um rangido metálico afiado. O inspetor estava febril, murmurando sobre arquivos perdidos e carimbos sem tinta.
— Estou cega, Gabo — Valéria respondeu, a voz tensa. Ela bateu no painel com a mão enluvada. — A interferência eletromagnética aqui embaixo é brutal. Meus drones caíram. O deck não conecta. Estou tendo que ler ponteiros físicos. Ponteiros! Quem projeta uma estação de bombeamento com agulhas de pressão em 2078?
— Alguém que não queria ser hackeado — Gabo disse, observando o ambiente.
A estação era uma catedral de pesadelo. Paredes de concreto brutalista eram invadidas por feixes de cabos grossos como troncos de árvores, que pulsavam com luz vermelha. Mas não eram apenas cabos. Em certos pontos, a "fiação" parecia orgânica, tendões sintéticos esticados sobre metal.
— Onde estamos? — Gabo perguntou.
Valéria apontou para um diagrama esquemático gravado em uma placa de bronze na parede, corroído pelo tempo.
— Estação de Reciclagem de Fluido Neural 04. — Ela limpou a placa com a manga. — Gabo... isso não é esgoto. E não é água potável. O fluido nos tubos... é o refrigerante do sistema de Dante. É o que mantém a temperatura dos servidores lá em cima.
— E por que cheira a sangue? — Gabo perguntou, aproximando-se de um dos tubos de vidro reforçado. O líquido carmesim fluía com uma viscosidade perturbadora.
— Porque é — disse Aria/Bia, saltitando até o tubo e tocando o vidro. — Sangue sintético enriquecido com glicose e... dados.
Gabo olhou para ela. A sobreposição da imagem de sua ex-namorada morta sobre o corpo de uma androide letal era uma dissonância cognitiva que ele lutava para processar.
— Explique — ele ordenou.
— O sistema não usa apenas eletricidade — Aria disse, sua voz oscilando para o tom monótono de IA por um segundo antes de voltar ao timbre provocante de Bia. — Processamento exige energia. E a melhor bateria que existe é a biológica. Dante não inventou isso. Ele apenas... otimizou.
Valéria soltou um engasgo horrorizado. Ela tinha conseguido abrir uma escotilha de inspeção manual em uma das paredes laterais.
— Gabo... — ela chamou, a voz falhando. — Você precisa ver isso.
Gabo deixou Rangel encostado em uma viga e caminhou até ela, mantendo a Caronte levantada. Ele olhou pela escotilha.
O que parecia ser a parede da estação era, na verdade, um favo. Células hexagonais, centenas delas, estendendo-se para a escuridão acima e abaixo. E dentro de cada célula, envolto em uma membrana translúcida e submerso no fluido vermelho, havia um corpo.
Não eram os "Drenados" recentes que eles viram no caminhão de lixo. Eram antigos. Corpos esqueléticos, fundidos ao maquinário, com tubos entrando por suas bocas e olhos, conectando-os diretamente à rede de bombeamento.
— Eles são o filtro — Valéria sussurrou, tremendo. — O fluido passa por eles. Os cérebros... eles limpam os dados corrompidos. Como rins humanos filtram toxinas, esses... essas pessoas filtram erros de lógica.
Gabo sentiu o estômago revirar. A bile subiu, ácida. Ele se afastou da escotilha, a mão indo instintivamente para o pescoço, buscando o ar que parecia faltar. O cheiro de "incenso" agora fazia sentido. Era o subproduto metabólico de centenas de corpos sendo consumidos lentamente.
— "Fluxo Reverso" — Aria leu em voz alta, olhando para uma alavanca grande, pintada de amarelo e preto, no centro do console. — Se invertermos a pressão, causamos um refluxo. O sistema vai tentar expelir a obstrução.
— Vai matar todos eles — Valéria disse, horrorizada.
— Eles já estão mortos, querida — Aria sorriu, um sorriso triste e cínico que Gabo conhecia de tantas manhãs chuvosas. — São apenas processadores de carne agora. Se invertermos o fluxo, abrimos as comportas de manutenção. É a nossa saída.
Gabo olhou para Rangel, que estava pálido e suando frio. Olhou para o ferimento em seu próprio braço. Eles não durariam mais uma hora ali. Os anticorpos — o que quer que fossem — estariam chegando.
— Gabo, não — Valéria suplicou. — Deve haver outro jeito.
— Não há — Gabo disse, a voz rouca. Ele caminhou até a alavanca. — O sistema de Dante se alimenta de gente. Nós vamos fazê-lo engasgar.
Ele segurou a alavanca fria.
— Tem certeza, Detetive? — Aria sussurrou em seu ouvido, a voz de Bia carregada de uma intimidade dolorosa. — Vai sujar as mãos de sangue de novo? Como fez comigo?
Gabo fechou os olhos. A dor no braço era fogo. O colar no peito era gelo.
— Isso não é por você — ele rosnou.
E puxou a alavanca.
O som mudou. O thump-thump rítmico tornou-se um guincho agudo de metal torturado. O chão tremeu violentamente. Sirenes analógicas começaram a uivar, e o fluido nos tubos parou, hesitou, e então começou a correr para trás, borbulhando furiosamente.
Uma porta pesada de explosão no fundo da sala começou a se abrir lentamente, revelando um túnel de serviço seco, mas o barulho atraiu algo mais.
Do teto, sombras se desprenderam. Autômatos de manutenção, parecidos com aranhas de vidro e cromo, desceram por fios de seda sintética.
— Corram — Gabo gritou, levantando Rangel com um esforço que quase rasgou seus músculos e fez os servomotores de suas pernas mecânicas chiarem em sobrecarga. — Para o túnel!
Enquanto corriam, Gabo olhou para trás uma última vez. Pela escotilha, ele viu os corpos nos favos se agitarem em espasmo, como se, por um breve segundo, o choque do fluxo reverso os tivesse acordado de seu pesadelo eterno.
Ele não olhou mais. Ele apenas correu, carregando o peso dos vivos e dos mortos.