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Capítulo 40: O Céu Quebrou

O Cemitério dos Esquecidos parecia mais abandonado do que nunca. Sem os drones de manutenção para podar a vegetação mutante, o mato já começava a engolir as lápides digitais apagadas. Raízes finas e acinzentadas — produto de alguma semente que escapara dos laboratórios da Aeterna — serpenteavam pelas rachaduras do mármore sintético, consumindo os nomes dos mortos.

Gabo estava diante do túmulo de Dante Moretti. O verdadeiro túmulo, onde jaziam os restos mortais que ele recuperara da Torre dois dias antes, em uma operação que custara três costelas fraturadas e a sanidade de um carregador que viu o que restava do Comissário.

A cerimônia havia sido patética. Só ele, Elena e Val. Três pessoas para enterrar o homem que um dia comandara mil policiais. O capelão robótico que costumava presidir os funerais estava desligado, então Gabo improvisou algo sobre poeira e descanso. As palavras soaram ocas, vazias como o caixão antes de receberem o corpo.

— Você conseguiu, pai — disse Gabo para a terra revirada, os dedos tamborilando nervosamente na coxa. — A chuva parou.

Era mentira. E ele sabia.

A chuva ácida que martelava Baía Cinzenta há três décadas havia de fato cessado há duas semanas, quando os satélites de controle climático da Aeterna foram desativados no colapso. Mas o que veio em seu lugar era pior.

Gabo olhou para o céu.

As nuvens não eram mais o manto cinza uniforme e controlado do Smog industrial. Eram negras, turbulentas, girando em padrões caóticos que ele nunca tinha visto em sua vida. Formações que pareciam rostos distorcidos, bocas abertas em gritos silenciosos. Pareciam feridas abertas no próprio firmamento, infectadas e supurando luz púrpura nos intervalos entre trovões.

O vento mudara também. Não era mais a brisa úmida e previsível da costa controlada. Era quente. Úmido de um jeito diferente — carregado de sal, ozônio e algo que Gabo não conseguia identificar. Cheirava a eletricidade estática, enxofre e mar podre.

A pressão atmosférica fazia seus ouvidos estalarem. Suas cicatrizes — as velhas e as novas — latejavam em sincronia com os relâmpagos que cortavam o horizonte.

Uma gota caiu em sua mão estendida. Grossa. Morna. Viscosa. Não era água limpa. Era cinza escuro, quase negro, como se o próprio céu estivesse sangrando óleo.

Gabo limpou a mão no sobretudo, sentindo o tecido absorver a substância pegajosa.

— O clima está quebrando — murmurou ele, mais para si mesmo do que para o túmulo. — Sem a Aeterna para controlar as barreiras de tempestade e os ionizadores atmosféricos... a natureza está cobrando a dívida. Trinta anos de manipulação. Trinta anos de sequestro do ciclo das águas. E agora o planeta quer de volta. Com juros.

Um trovão sacudiu o chão. Não o estalo elétrico seco que Gabo conhecia desde criança — o som domesticado das tempestades artificiais. Este era um rugido profundo, geológico, vindo das entranhas do céu, fazendo seus dentes vibrarem e seu estômago revirar.

Os pássaros — os poucos que sobreviviam no ecossistema devastado da cidade — levantaram voo em massa dos carvalhos mutantes do cemitério, uma nuvem negra de corvos sintéticos e garças de plástico biológico fugindo de algo que seus instintos programados não conseguiam processar.

Gabo sentiu um arrepio subir pela espinha. Não de frio. De pressentimento.

Quando ele voltou para o Cobalt, estacionado no portão enferrujado do cemitério, Valéria estava do lado de fora, de pé na lama, olhando para o horizonte sul com um binóculo analógico que haviam recuperado do escritório de evidências da delegacia.

— Gabo... — A voz dela estava estranha. Não assustada. Reverente. Como quem observa um deus acordando. — Olha aquilo.

Gabo pegou o binóculo e ajustou o foco.

O que viu fez seu sangue gelar.

Uma parede de nuvens roxas se erguia sobre o mar, avançando em direção à costa com a velocidade de um trem desgovernado. Era colossal — não era uma formação meteorológica, era uma muralha. Três quilômetros de altura, talvez mais. O topo se perdia nas camadas superiores da atmosfera, brilhando com descargas elétricas internas que iluminavam a massa como um crânio translúcido revelando sinapses de um cérebro gigante.

Relâmpagos vermelhos dançavam dentro da massa de nuvens. Não azuis ou brancos como os normais. Vermelhos. Como sangue arterial. Como fúria.

— O que diabos é aquilo? — perguntou Elena, saindo do carro e parando ao lado deles, os olhos arregalados.

— Um super-ciclone — disse Val, a voz trêmula mas controlada. Ela estava lendo dados em seu tablet improvisado, conectado a sensores atmosféricos que ela mesma construíra. — Categoria 6. Talvez 7. Ventos sustentados de 350 km/h no olho. Sem a rede de satélites para dissipar a energia acumulada... ele está vindo com força total. Sem freios. Sem filtros.

Ela olhou para Gabo, e ele viu o medo nos olhos dela. Val nunca tinha medo.

— Gabo, o barômetro do carro caiu para níveis que não existem na escala. Estamos prestes a ver algo que nenhum ser humano vivo já presenciou.

— É o Dilúvio — disse Gabo, sentindo um arrepio na espinha que não tinha nada a ver com o frio. A palavra saiu de sua boca antes que ele pudesse processá-la, vinda de algum lugar primitivo de sua mente. — A conta chegou.

Ele lembrou das histórias que sua avó contava. De um tempo antes das corporações controlarem o tempo. De tempestades que varriam cidades. De enchentes que reorganizavam a geografia. De um mundo onde a natureza era senhora, não escrava.

Esse mundo estava voltando. E ele não seria gentil.

O rádio da polícia no painel do Cobalt chiou, a estática cortada por uma voz que Gabo reconheceu — Capitão Vilar, a voz carregada de um pânico que o velho nunca demonstrara nem mesmo sob fogo cruzado.

Código Vermelho. Atenção todas as unidades disponíveis. As comportas do dique sul estão apresentando falha estrutural crítica. Repito: falha estrutural nas comportas do sul. A pressão da maré anormal está além dos parâmetros de projeto. Estimativa de ruptura em menos de quatro horas. A água está subindo. Os setores baixos estão sendo evacuados. Isso não é um exercício. Repito: isso NÃO é um exercício.

Gabo olhou para Elena. Para Val. Para o horizonte onde a muralha de nuvens roxas continuava avançando, devorando o céu.

Ele suspirou — um som pesado, de quem aceita mais um peso em ombros já sobrecarregados — e entrou no carro, jogando a Caronte no banco de trás. A escopeta bateu no estofado rasgado com um som metálico familiar.

A paz tinha durado vinte e três dias. Vinte e três dias desde a queda da Torre. Vinte e três dias de uma liberdade frágil e sangrenta. Ele deveria ter sabido que era bom demais para durar.

— Vamos — disse ele, ligando o motor do Cobalt. O carro tossiu, engasgou, depois rugiu com a determinação de uma máquina que se recusava a morrer. — Temos que voltar para a delegacia e coordenar a evacuação. Levar todo mundo para os andares altos. Antes que essa cidade vire um aquário.

— E depois? — perguntou Elena, entrando no banco de trás.

Gabo olhou pelo retrovisor. O primeiro raio vermelho cortou o horizonte, seguido por um trovão que fez os vidros do carro vibrarem.

— Depois... a gente nada.

Ele pisou no acelerador. O Cobalt disparou pela estrada enlameada do cemitério, deixando para trás os mortos que, pela primeira vez em suas eternidades silenciosas, teriam companhia em massa.

O Dilúvio estava chegando. E Baía Cinzenta, a cidade que sobrevivera a tudo, estava prestes a descobrir que algumas dívidas não podem ser negociadas.