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Capítulo 112: O Peso da Memória

SYSTEM LOG // PERIMETER BREACH
LOCAL: SAÍDA DE DRENAGEM 04-B [DISTRITO INDUSTRIAL]
CLIMA: CHUVA ÁCIDA (NÍVEL 3)
VISIBILIDADE: 15%
ALERTA: TRÁFEGO DE DRONES DE VIGILÂNCIA AUMENTADO

A Superfície

A tampa do bueiro pesava como uma lápide de ferro. Gabo empurrou com o ombro bom, grunhindo enquanto a ferrugem cedia com um grito agudo de metal contra metal. O ar da superfície invadiu o túnel imediatamente — não o ar limpo, mas a mistura familiar de diesel, chuva ácida e o cheiro adocicado de lixo sintético queimando nas incineradoras distantes.

Eles emergiram em um beco estreito entre dois armazéns abandonados no Distrito Industrial. A chuva caía em lençóis pesados, lavando a poeira do esgoto de suas roupas, mas não a tensão.

Valéria foi a primeira a sair, sua techwear já camuflando-se com o cinza do concreto. Ela não olhou para o perímetro; ela olhou direto para Gabo, que subia a escada de mão como se alguém fosse ao lado dele.

Assim que os pés de Gabo tocaram o asfalto molhado, Valéria o prensou contra a parede de tijolos.

— Val! — Gabo tentou intervir, mas a perna travou.

— Não — Valéria rosnou, o braço pressionando o pescoço dele. A lâmina de cerâmica saiu de seu pulso, pairando a milímetros da jugular. — Chega de segredos. Chega de fingir que ela está aqui.

Gabo piscou, atordoado, os olhos buscando algo que só ele via.

— Por que você continua falando o nome dela? — A voz de Valéria tremeu, uma falha rara em sua armadura cínica. — Aria morreu no Dilúvio. Era sua filha com a Elena. Eu vi o relatório. Eu vi as fotos.

Rangel, que terminava de fechar o bueiro, congelou. A chuva escorria por seus óculos, mas ele não precisava limpá-los para ver a verdade que Valéria exigia.

Gabo mancou até ela, colocando a mão suavemente no ombro de Valéria.

— Val, solta... — ele sussurrou. — Ela não foi embora para mim.

— Isso está te matando — disse Rangel, aproximando-se. — E vai matar todos nós se você não voltar.

Valéria soltou Gabo, recuando como se tivesse se queimado.

— O que você sabe, Rangel? — ela cuspiu. — Você era da Corregedoria. Você encobria a sujeira deles.

— Eu encobria os erros dos policiais — Rangel corrigiu, tirando a pasta manila que roubara do bunker de Kiko Vibe de dentro da jaqueta. Ele a protegeu da chuva com o corpo. — Mas isso aqui? Isso não é erro policial. Isso é engenharia familiar.

Ele abriu a pasta sob o toldo podre do armazém.

— Eu li os arquivos no caminho. Marco Moretti não apenas criou o projeto de "higiene social". Ele tinha medo.

— Medo de quê? — perguntou Gabo, observando o céu em busca de drones.

— Do próprio filho — Rangel apontou para um parágrafo sublinhado em vermelho desbotado. — Dante nasceu doente. Uma condição degenerativa rara. Marco usou a tecnologia da Aeterna para salvá-lo, mas ele sabia que Viktor Krell iria querer cobrar o favor. E ele sabia que Dante, uma vez "melhorado", seria incontrolável.

Rangel olhou para o grupo.

— O colapso térmico. A necessidade de resfriamento. Não é um defeito de fabricação, Gabo. É um Kill Switch. Marco desenhou uma coleira no próprio filho. Se Dante saísse do controle, Marco podia trancar a Usina Prometeu e deixar o cérebro dele cozinhar.

— Pai do ano — murmurou Valéria, limpando a chuva do rosto. — Mas o velho morreu antes de poder puxar a coleira.

— E agora Dante tem a chave da própria cela — concluiu Aria. — Ele mantém Prometeu funcionando apenas o suficiente para sobreviver aos ciclos.

Um som de motor pesado cortou a conversa. Luzes amarelas varreram o beco. O grupo se achatou contra as sombras.

Um caminhão de coleta de lixo automatizado — um monstro de aço blindado com o logo da "Saneamento Baía Cinzenta" — passou roncando pela rua principal. Não havia motorista na cabine, apenas sensores LIDAR girando.

— Transporte — disse Gabo, os olhos fixos no veículo. — Blindado, ignora toques de recolher e vai direto para a zona de processamento de biomassa.

— Que fica ao lado da usina — completou Valéria.

— Eu não consigo hackear isso sem alertar a rede — disse Valéria. — O firewall desses caminhões é isolado para evitar sequestros de carga.

Rangel guardou a pasta e sacou um molho de chaves antigas, um chaveiro físico com o brasão da polícia.

— Quem disse que precisamos hackear? — Rangel sorriu, um sorriso triste e nostálgico. — A Prefeitura terceirizou a frota de saneamento cinco anos atrás, mas eles nunca mudaram os cilindros de ignição manual de emergência. Protocolo de segurança em caso de falha de IA.

Gabo olhou para o ex-policial com um respeito relutante.

— Você está dizendo que vai roubar um caminhão de lixo com uma chave mestra?

— Eu estou dizendo que vou requisitar um veículo oficial para uma operação em andamento — Rangel caminhou em direção à rua, a chuva batendo em suas costas largas. — Vamos. O lixo não espera por ninguém.

Enquanto corriam para interceptar o gigante de metal, Gabo olhou para trás uma última vez. A sombra de Aria se alongava no asfalto molhado, e por um segundo, parecia a silhueta de uma criança.

O passado de Baía Cinzenta não estava morto. Ele estava apenas esperando a chuva parar para sair das covas.

Mas a chuva nunca parava.