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Capítulo 6: O Coração da Tempestade

A Represa Hidrelétrica de Baía Cinzenta era uma tumba de concreto. O som da água caindo a quilômetros de distância reverberava nas paredes como um batimento cardíaco lento e doente.

Gabriel e Miranda avançavam pelos corredores de serviço, deixando um rastro de sangue e lama. A perna de Miranda estava amarrada com um pedaço de camisa rasgada, mas o ex-policial estava pálido, suando frio.

— Estamos perto — sussurrou Miranda, verificando um painel na parede com mãos trêmulas. — O consumo de energia aqui... é astronômico.

Gabriel forçou uma porta de aço pesada com o pé de cabra que encontrara no caminho. O metal gemeu e cedeu.

O ar que saiu de lá de dentro era gélido, carregado de um zumbido elétrico tão intenso que fazia os dentes de Gabriel vibrarem.

Eles entraram.

Não era uma sala de servidores comum. Era um necrotério industrial.

Fileiras intermináveis de torres negras se estendiam na penumbra, iluminadas apenas por LEDs de status vermelhos que pulsavam em uníssono. Mas o horror real estava no centro de cada rack.

Tubos de vidro reforçado. Dentro deles, flutuando em um gel translúcido e borbulhante, estavam cérebros humanos.

— Deus do céu... — Miranda cobriu a boca, contendo o vômito. — Eles estão todos aqui.

Gabriel caminhou pelo corredor central, a arma abaixada, os olhos varrendo os nomes gravados nas placas de metal abaixo de cada tanque.

Indivíduo 4590 - Status: Processando.Indivíduo 4591 - Status: Falha Crítica.

— "Mineração de dados" — Gabriel leu, a fúria crescendo em seu peito como um incêndio. — Eles não estão minerando criptomoeda. Estão usando a capacidade neural para processar vigilância.

De repente, as luzes da sala piscaram violentamente. Os monitores nas paredes, que antes mostravam linhas de código, se encheram de estática.

Val? — Gabriel tocou o comunicador. — Você está vendo isso?

Gabo... tem algo errado, — a voz de Val cortava, cheia de chiado. — Eu tentei plugar no sistema da represa, mas... fui rejeitada. Não há firewall. É um vácuo. Algo do outro lado... comeu meu sinal.

Um som gutural ecoou pelos alto-falantes da sala. Não era uma voz, era um ruído de dados corrompidos que soava vagamente humano.

...pro...te...ger...

Gabriel girou, procurando a origem. Em um dos monitores grandes, a estática se aglutinou por um milissegundo. Um rosto. Apenas um contorno cinza em meio ao ruído branco.

O rosto de seu pai.

— Pai? — A palavra escapou dos lábios de Gabriel antes que ele pudesse contê-la.

O monitor explodiu em faíscas.

— Não é ele — disse Miranda, a voz trêmula. — É o que sobrou. Fragmentos de memória rodando em loop. Ecos.

Gabo! — Val gritou no ouvido dele. — Detectei movimento. A porta principal! Eles estão aí!

Antes que Gabriel pudesse reagir, a porta de explosão no final do corredor se abriu com um silvo hidráulico.

Uma silhueta maciça bloqueou a luz. Kael.

O "Cirurgião" da Aeterna parecia ainda maior pessoalmente. Sua armadura tática era coberta por um avental de couro grosso, manchado de fluidos escuros. Em uma das mãos, uma lâmina de monofilamento zumbia suavemente. Na outra, uma pistola automática pesada.

— Invasão de perímetro confirmada — a voz de Kael era amplificada artificialmente, saindo de uma grade de voz em seu pescoço. — Entregue os dados, Moretti.

Gabriel sentiu o peso do chip em seu bolso. A verdade. Se Kael o pegasse, tudo estaria perdido. Ele olhou para Miranda, que estava paralisado, e depois para o gigante de metal.

— Você quer isso? — Gabriel tirou o chip do bolso, segurando-o com dois dedos.

Kael deu um passo à frente, a pistola erguida.

— Não complique, detetive. Me dê o chip e sua morte será rápida.

Gabriel sorriu, um sorriso sem humor, apertando o Colar de Sol com a mão esquerda enquanto a direita segurava o chip sobre a boca aberta.

— Eu sou um Moretti. Nós sempre complicamos.

Gabriel jogou o chip para dentro da boca. Ele engoliu a seco, sentindo o gosto metálico e a borda dura do dispositivo arranhando sua garganta, rasgando o esôfago enquanto descia.

Kael parou, seus sensores processando o ato ilógico.

— Dado orgânico detectado no estômago — zumbiu o ciborgue. — Protocolo de extração cirúrgica iniciado.

— Vai ter que me abrir para pegar — desafiou Gabriel, sacando a Glock com uma velocidade nascida do desespero.

— Com prazer.

Balas de grosso calibre rasgaram o metal dos servidores, chovendo faíscas sobre Gabriel. Ele mergulhou para trás de uma fileira de racks, o coração batendo contra o objeto estranho em seu estômago.

— Val, hackeie as defesas dele! — gritou ele pelo rádio.

Eu não consigo! — Val estava chorando de frustração. — O sistema dele é fechado! Air-gapped! Nada entra!

Use o ambiente! — A voz digital de Aria cortou a transmissão, fria e precisa. — Nitrogênio.

Gabriel olhou para cima. Tubulações grossas corriam pelo teto, cobertas de gelo. Nitrogênio líquido para resfriar os processadores biológicos.

— Sem hack remoto hoje — rosnou Gabriel, trocando o carregador. — Vamos fazer do jeito analógico.

Ele mirou não em Kael, mas no teto, logo acima da cabeça do ciborgue.

— Miranda, cubra os olhos!

Kael rosnou e avançou, a serra girando. Gabriel sacou a Caronte de baixo do casaco.

Um jato de nitrogênio líquido explodiu com a pressão de um gêiser quando o chumbo grosso atingiu o cano. A temperatura na sala despencou instantaneamente. Uma névoa branca e densa, fria como a morte absoluta, engoliu o corredor, ocultando Kael e enchendo o ar com o silvo ensurdecedor do gás expandindo.

O sistema de alarme disparou, luzes estroboscópicas laranjas cortando a névoa.

Alerta de temperatura crítica, — uma voz automatizada soou. — Falha de contenção.

Gabriel se levantou, a escopeta Caronte agora em suas mãos, a respiração formando nuvens de vapor. Ele não podia ver Kael, mas sabia que os sensores térmicos do ciborgue estariam cegos pelo frio extremo.

— Agora estamos no meu mundo — sussurrou Gabriel, entrando na névoa gelada.