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Capítulo 188: O Abismo de Aço
O fosso do elevador era um vácuo de breu e óleo rançoso, cortado apenas pela descida inexorável de nossos corpos suspensos pelos cabos de aço. Cada metro aprofundado no Setor 7 afogava a temperatura, mas o frio não era o suficiente para aplacar o suor que escorria sob a minha jaqueta sintética. Meus joelhos gritavam a cada balanço. As órteses mecânicas das minhas pernas, exaustas desde a clínica de Vasco e moídas pelas ruínas do Distrito 4, rangiam como dentes quebrando em uma mordida metálica, suportando um peso para o qual não foram mais calibradas.
E então, o cheiro retornou.
Não era o mofo industrial do fosso. Era o perfume quente, adocicado e denso de fumo e cinzas — o fumo exato dos charutos do meu pai, Dante. O ar imaginário tornou-se asfalto líquido na minha garganta. O pânico de asfixia, primitivo e visceral, arranhou minha mente. O "Jardim" não estava apenas hackeando servidores com carne podre; o miasma da praga reverberava nas fraturas do meu córtex, usando minha síndrome de estresse pós-traumático como uma arma paralisante.
Minha respiração falhou. O cabo de aço começou a escorregar pela minha mão de carne.
— Tensão no cabo primário aumentada em 14% devido ao deslize da sua empunhadura, — a voz de Valéria ecoou perfeitamente uniforme no escuro. Ela descia um cabo adjacente, seus olhos artificiais emitindo dois pontos mortos de luz azulada que não carregavam nenhuma empatia. Ela estava submersa em seu Modo de Segurança, um constructo lógico estéril processando o abismo como um fluxo de equações. — Um declínio adicional de 3% resultará na falha mecânica da sua sustentação. A queda de quarenta e cinco metros resultará em trauma craniano fatal.
— Cala... a boca, — rosnei, engasgando com o ar que minha mente insistia estar envenenado por fumaça.
Eu precisava de uma âncora. Precisava estripar o fantasma.
Com um urro gutural, liberei minha prótese direita — o monstro industrial grosseiro que Vasco havia pregado ao meu cotoco sem anestesia. Em vez de agarrar o cabo, lancei o braço pesado em um arco brutal contra a parede de concreto do fosso.
O impacto soou como um tiro. Faíscas espirraram na escuridão quando o aço cru e descalibrado raspou na parede vertical. O tranco reverberou pelo meu ombro, rasgando o tecido cicatricial recém-formado em torno das fixações neurais. Uma dor fulgurante, branca e absoluta, explodiu por toda a metade direita do meu corpo.
O cheiro do charuto desapareceu no mesmo instante, afogado na adrenalina pura e no gosto acobreado de sangue que mordi no próprio lábio. Puxei o ar com força, sentindo apenas o óleo e a ferrugem abençoados do mundo real.
Apoiei o cotovelo de metal contra a parede para ajudar na frenagem da descida, rasgando o concreto e usando o atrito agonizante como punição para manter a sanidade. O som estridente do metal contra a pedra preenchia o fosso, uma cacofonia horrível de dor e sobrevivência.
— O atrito intencional com o substrato estrutural reduzirá a vida útil da sua prótese em aproximadamente dez horas de operação contínua, — calculou Valéria, descendo com precisão de máquina, alheia ao horror que eu combatia. — Estatisticamente, é uma manobra redundante e prejudicial.
— Estatisticamente, Valéria, — eu cuspi as palavras junto com uma gota de sangue, minhas pernas mecânicas batendo forte quando a parede do fosso cedeu para a abertura do nível inferior, — eu não ligo. A gente chegou.
Abaixo de nós, o breu abriu espaço para um brilho doentio. O duto de manutenção do Arquivo Executivo não estava morto. As paredes estavam forradas com o "Jardim" — não os filamentos sutis de antes, mas cabos ópticos e veias de carne podre trançados, pulsando em um vermelho letárgico, se contorcendo pelo teto e entrando nas fendas da porta blindada que bloqueava o nosso avanço. O silêncio ali não era vazio. Era a respiração de mil servidores enxertados com a biologia de quem já deveria estar morto.
— Destino alcançado, — Valéria relatou, tocando o piso metálico sem emitir som. — Análise da porta: selo de segurança nível Sete.
Desci o restante do cabo e pisei no chão grosso de lodo biológico. Minhas pernas gemeram sob o impacto. Estiquei o braço industrial avariado, o cotoco latejando na sua sinfonia purificadora de dor. Olhei para a porta selada, entremeada pela biomassa, e cerrei os punhos.
— Então abra a porra da porta.