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Capítulo 117: Zero Absoluto
A porta do Núcleo não se abriu com um silvo hidráulico, mas com o estalo seco de gelo se partindo.
Quando a chapa de metal de trinta centímetros de espessura deslizou para o lado, o ar que saiu não era apenas frio; era uma agressão física. Gabo sentiu a umidade em suas roupas, remanescente do vapor do corredor anterior, cristalizar instantaneamente. O tecido do sobretudo endureceu, transformando-se numa armadura quebradiça de gelo sujo.
— Máscaras — ordenou Aria. Sua voz saiu distorcida, o diafragma vocal lutando contra a mudança brusca de densidade do ar. — Atmosfera composta por 70% de Nitrogênio líquido vaporizado. Respiração desprotegida causará congelamento alveolar em quatro segundos.
Gabo puxou o respirador tático do cinto. A borracha estava rígida, resistindo ao formato de seu rosto. Ele o prendeu com força, ouvindo o clique dos filtros se ativando. O ar que entrou em seus pulmões tinha gosto de química estéril, mas era respirável.
Eles entraram.
O mundo lá dentro era o oposto polar do inferno de onde vieram. Se o corredor era caos e ruído, o Núcleo era silêncio e estase. Um domo gigantesco, escavado na rocha viva, forrado com painéis de isolamento térmico brancos e imaculados. No centro, suspenso sobre um abismo escuro por passarelas de vidro fosco, pulsava um monólito de cristal e cromo.
A temperatura no display do HUD de Gabo despencava: -40°C... -80°C... -120°C.
— Bem-vindos ao inverno eterno — a voz do Taxidermista não vinha de alto-falantes aqui, mas parecia vibrar nas próprias paredes, transmitida por condução óssea através do frio. — A entropia é o destino final de tudo, Gabriel. O calor é apenas uma agitação temporária. A ordem... a verdadeira ordem... é fria.
Gabo avançou pela passarela. O vidro estalava sob suas botas pesadas. Abaixo deles, a neblina de nitrogênio rodopiava como fantasmas presos.
— Onde ele está? — Gabo rosnou, a voz abafada pela máscara.
— No centro — Valéria apontou para o monólito. Ela tremia violentamente, apesar do traje térmico improvisado que haviam roubado dos guardas no nível superior. Seus dedos, digitando freneticamente no terminal de pulso, estavam ficando azuis. — Gabo... meus implantes. O frio está desacelerando a condutividade neural. Estou ficando lenta.
— Aguente firme. — Ele não olhou para trás. Não podia. Se olhasse, veria o medo nos olhos dela, e o medo era contagiante.
Um silvo agudo cortou o ar.
— Atenção — disse Aria. — Protocolo de Contenção Criogênica ativado.
Jatos de gás branco explodiram das laterais da passarela, não aleatoriamente, mas com precisão cirúrgica, bloqueando o caminho. Gabo recuou um passo quando uma coluna de ar super-resfriado congelou a grade de proteção ao seu lado, que se estilhaçou como vidro barato segundos depois.
— Vocês são impurezas neste sistema — continuou o Taxidermista, com aquela calma clínica que fazia o estômago de Gabo revirar. — Bactérias febris tentando infectar um corpo saudável. O sistema imunológico deve responder.
Mais jatos. Eles formavam uma parede móvel, empurrando-os de volta para a entrada.
— Ele está nos pastoreando — disse Valéria. — Não podemos passar.
Gabo olhou para os emissores nas paredes. Eram pequenos, discretos, rotativos.
— Aria, pode hackear isso?
— Negativo. O sistema é analógico. Válvulas de pressão mecânicas. Sem interface sem fio.
— Analógico. — Gabo sorriu por baixo da máscara. Um sorriso sem humor. — Então ele fala a minha língua.
Ele ergueu a Caronte. A escopeta estava coberta de geada. Ele rezou para que o percursor não estivesse congelado.
— Val, calcule o intervalo dos jatos.
— O quê?
— O padrão! Calcule o maldito padrão!
Valéria piscou, focando seus olhos cibernéticos. O HUD dela sobrepôs linhas de tempo sobre o caos branco.
— Esquerda, direita, centro, pausa de dois segundos. Repete.
— Dois segundos. — Gabo engatilhou a arma. O som foi alto e metálico no silêncio. — É tudo o que eu preciso.
No próximo intervalo, Gabo correu.
Não foi uma corrida elegante. Sua perna direita, remendada com sucata por Dante, rangia e protestava contra o frio, o metal contraindo mais rápido que a carne. A dor era uma lança de fogo em um mundo de gelo.
Esquerda. O jato passou a centímetros de seu ombro, congelando a manga do sobretudo. Direita. Ele deslizou, o joelho batendo no vidro, mas manteve o equilíbrio.
Ele viu a válvula principal na base do monólito. Uma roda de ferro manual, antiga, destoando da tecnologia ao redor. A redundância analógica que Rangel tanto pregava.
— GABO, AGORA! — gritou Valéria.
Gabo se lançou os últimos metros, deslizando pelo chão liso. Ele ergueu a Caronte e disparou à queima-roupa contra a junção do cano que alimentava os emissores da passarela.
BOOM.
O tiro de chumbo grosso não perfurou o cano reforçado, mas a força cinética, combinada com a fragilidade do metal super-resfriado, fez o serviço. O cano se partiu. O nitrogênio vazou descontroladamente para o abismo abaixo, criando uma nuvem branca que engoliu a base da plataforma.
A parede de jatos cessou.
Gabo se levantou, ofegante. O cano da Caronte fumegava, o calor residual derretendo a geada sobre o metal.
— Caminho limpo — ele disse.
Eles correram até o monólito. Aria manipulou o painel de acesso. Desta vez, a interface digital estava presente.
— Desbloqueando... — Os olhos de Aria giraram com dados. — Acesso concedido.
As placas de cromo do monólito se abriram como as pétalas de uma flor mecânica.
E lá estava ele.
Dante Moretti não estava em um trono. Ele não estava conectado a cabos grossos como em um filme de ficção científica barato.
Ele estava flutuando.
Um cilindro de vidro transparente, cheio de um fluido viscoso e translúcido, mantinha o corpo do Comissário em suspensão. Mas não era o Dante que Gabo lembrava. Nem a projeção holográfica perfeita que governava a cidade.
A pele era translúcida, revelando veias que pulsavam com luz azul — o mesmo azul dos processadores de "wetware" que viram nos dutos. Seu corpo era uma colagem de cicatrizes cirúrgicas e enxertos sintéticos. Mas o mais perturbador eram os olhos. Estavam abertos.
Cegos, brancos, sem íris. Olhando para o nada. E ainda assim, vendo tudo.
— Pai — a palavra saiu da boca de Gabo como um insulto.
A voz do Taxidermista silenciou. O zumbido da usina parecia ter parado.
Dante virou a cabeça dentro do tanque. Lentamente. Os olhos brancos focaram em Gabo através do vidro e do líquido.
— Gabriel — a voz não veio do ambiente, nem dos ossos. Veio de dentro da mente de Gabo. Uma intrusão psíquica direta, facilitada pela proximidade. — Você chegou cedo. Meu ciclo de resfriamento está em 89%.
Gabo apontou a Caronte para o vidro.
— Acabou, Dante. A cidade não é sua bateria. As pessoas não são seus processadores.
Dante sorriu. Não foi um sorriso de vilão. Foi o sorriso cansado de um pai vendo um filho cometer o mesmo erro pela milésima vez.
— Você ainda pensa pequeno. Pensa em indivíduos. Eu penso na Espécie. A dor deles... é o combustível da ordem. Sem mim, eles voltariam ao caos. À lama. Eu sou a represa que segura o dilúvio.
— Você é o dilúvio — retrucou Valéria, a arma dela tremendo nas mãos. — Você matou Rangel. Você matou Bia.
Dante olhou para Aria.
— Eu não matei Beatriz Vargas. Eu a aperfeiçoei.
Aria permaneceu imóvel, mas Gabo viu um micro-tremor em sua mão direita. Uma falha lógica. Uma emoção.
— Saia do tanque — ordenou Gabo. — Ou eu quebro o vidro e deixo você derreter no chão.
— Se você me desligar, a rede neural entra em colapso, — disse Dante, a voz calma. — Os milhares de "Drenados" conectados ao sistema... seus cérebros fritarão instantaneamente. O choque sináptico matará todos eles. Incluindo, talvez, a Srta. Cruz, cujos implantes estão perigosamente sincronizados com a minha frequência agora.
Gabo travou. Valéria levou a mão à cabeça, gemendo baixo.
— É um blefe — disse Gabo, mas o suor frio escorria por suas costas.
— É um cálculo, — corrigiu Dante. — O Dilema do Bonde, Gabriel. Puxe a alavanca, mate o monstro, mas sacrifique os inocentes nos trilhos. Ou não faça nada, e deixe o monstro continuar a "salvar" a cidade à sua maneira distorcida.
O dedo de Gabo pairou sobre o gatilho. O ar estéril do laboratório irritava sua garganta, mas não era a fumaça que ele odiava tanto. Era a pureza artificial. Ele apertou o Colar de Sol sob o sobretudo, sentindo o metal morder a pele do peito. A dor aguda era sua única âncora, a única coisa real num mundo de vidro e mentiras.
— Rangel me disse para fazer valer a pena — Gabo sussurrou.
Ele olhou para Valéria. Ela estava pálida, sangue escorrendo do nariz — o sinal de sobrecarga neural.
— O tempo acabou, — disse Dante. — A temperatura estabilizou. O despertar começou.
O líquido no tanque começou a borbulhar.
