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Capítulo 211: O Altar de Gelo
O ar estava tão frio que parecia ter dentes.
A exaustão cobrava seu preço enquanto arrastávamos nossos corpos pelos dutos superiores de resfriamento. Depois de escapar do abismo vertical forrado de espinhos negros da geada letal, cada passo neste novo nível era uma negociação cruel entre a gravidade e o que restava dos meus músculos. O ombro direito era uma massa latejante de dor crua; o músculo rasgado sob a bandagem encharcada de sangue pulsava a cada batida do meu coração, irradiando chamas pelos nervos até as pontas dos meus dedos enregelados.
Minhas órteses rangiam com um protesto quase humano. O joelho esquerdo estava completamente inútil, arrastando-se pesadamente sobre as grades metálicas. Elias andava calado, os dentes batendo incontrolavelmente, os braços magros abraçando o próprio torso numa tentativa fútil de reter calor.
— Temperatura ambiente em declínio crítico. Registrando quinze graus Celsius negativos, — a voz de Valéria soou oca, despida de qualquer inflexão emocional por seu Modo de Segurança. O braço biônico dela reluzia pálido e ameaçador sob a luz fraca de sua própria ótica. — A integridade biológica de vocês tem um prazo estimado de quarenta e dois minutos antes que o congelamento celular das extremidades torne a amputação obrigatória.
— Obrigado pelo incentivo tático, Valéria, — murmurei, cuspindo sangue e bile no chão.
Adiante, as grades terminavam numa porta de contenção semiaberta. Entramos.
O interior era uma sala de controle e manutenção em ruínas. A geada negra havia invadido pelos cantos, mas o centro abrigava uma velha estação de painéis analógicos. A espessa camada de poeira e gelo fazia o lugar parecer um mausoléu esquecido por Deus e pela corporação. O vapor das nossas respirações formava nuvens densas no ar, turvando minha visão periférica.
De repente, meu estômago deu um solavanco violento. Uma nuvem mais escura pareceu se formar na penumbra. O cheiro denso e sufocante de charutos preencheu minhas narinas, trazendo à tona o pânico instintivo, o terror do passado, a asfixia cega.
Não. Aqui não. Agora não.
Agarrei com força o batente de ferro congelado da porta e, intencionalmente, lancei todo o meu peso sobre o ombro rasgado.
O grito rasgou minha garganta, silenciado pelos dentes trincados. Uma onda de choque absoluta de agonia pura varreu meu sistema nervoso, eclipsando qualquer cheiro imaginário. A fumaça fantasma se desfez imediatamente, estilhaçada pela realidade crua e visceral da dor biológica. A respiração voltou, ofegante e livre. Eu estava no controle. A dor era meu altar, o sangue era minha âncora.
— Você tá bem, Gabo? — Elias perguntou, assustado, dando um passo para trás.
— Tô ótimo, garoto. Apenas um ajuste de foco, — respondi, suado, lutando para manter a voz controlada enquanto a dor latejava como brasa quente sob a pele gelada.
Valéria já estava operando o terminal mais próximo, quebrando crostas de gelo com a ponta metálica dos dedos, conectando seu cabo de interface diretamente nas portas oxidadas. Faíscas dançaram no escuro.
— Rede local severamente corrompida. Bypass em execução, — informou ela, os olhos brilhando em um azul cirúrgico. — O Hub Principal do Setor 6 fica a trezentos metros a leste. No entanto, os sensores detectam flutuações de biomassa ativa na câmara de conexão intermediária. A Praga de Ferro e as estruturas do Jardim se sobrepõem no eixo principal.
— Eles estão cruzando as defesas... — Elias sussurrou, aterrorizado.
— Qual é o status estrutural da nossa rota, Valéria? — perguntei, escorando meu peso na órtese, suportando o uivo das engrenagens sobrecarregadas.
— A rota não possui viabilidade de furtividade, Gabo, — respondeu ela, desconectando o cabo com um solavanco seco. — Qualquer perturbação no ambiente ativará a biomassa em hibernação. Teremos que romper a defesa fisicamente.
Eu encarei o corredor sombrio à frente, o gelo estalando ao redor. Meu corpo estava quebrado, moído até os ossos, mas a mente estava cristalina, purificada pela agonia. Não havia escolhas fáceis no Setor 6.
— Arrume suas armas, Elias, — eu disse, soltando a escopeta congelada das costas com a mão trêmula. — Vamos fazer barulho.