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Capítulo 8: Ressaca Digital

Seis meses sem a IA central. Seis meses desde que Baía Cinzenta acordou de seu coma induzido.

Gabriel Moretti desejava que a cidade tivesse apertado o botão de soneca.

Ele estava deitado no chão de seu apartamento, encarando o teto manchado de umidade. A chuva lá fora não era mais controlada por satélites climáticos; chovia ácido, chovia fuligem, e chovia o tempo todo. O silêncio do "Ruído" — a frequência subliminar de pacificação que a Aeterna transmitia — havia sido substituído pela cacofonia analógica.

Gritos, buzinas travadas, sirenes constantes, música distorcida de alto-falantes estourados. A liberdade tinha o som de uma enxaqueca constante.

Gabriel rolou, sentindo as cicatrizes no estômago repuxarem. O chip de dados que ele engolira meses atrás ainda estava lá, encapsulado em tecido cicatricial, um tumor de silício. Às vezes, ele achava que podia sentir o código vibrando contra suas costelas, sussurrando segredos que ele não conseguia decifrar.

Bom dia, detetive, — a voz de Aria piscou no despertador digital quebrado na cabeceira. — Temperatura atual: 12 graus. Chance de chuva ácida: 100%. Chance de sobrevivência: Variável.

— Cale a boca, Aria — resmungou Gabriel, levantando-se como um velho de trinta anos.

Aria não respondeu. Ela era um fantasma agora, vivendo nos circuitos de seu apartamento, em seu carro, em seu comunicador. Valéria tentava isolá-la, entender o código fonte, mas a menina digital era escorregadia. Ela aparecia quando queria, sumia quando precisavam dela.

Gabriel bebeu um gole de uísque barato direto da garrafa para matar as bactérias da boca e vestiu o sobretudo bege, que agora cheirava permanentemente a mofo. Tocou o Colar de Sol, sentindo o metal frio contra o peito.

Ao sair do prédio, a realidade o agrediu. Sem a censura algorítmica da Aeterna, os outdoors holográficos, antes limpos e corporativos, agora exibiam o id da cidade: pornografia glitch, propaganda de armas impressas em 3D e pregações de cultos neo-luditas.

Ele caminhou até a delegacia, chutando lixo que os robôs de limpeza desativados não recolhiam mais.

Dentro da DPBC, o caos era físico. Pilhas de papel cobriam as mesas onde antes havia terminais holográficos.

— Moretti! — O grito do Capitão Vilar cortou o zumbido.

Vilar parecia ter envelhecido uma década. Ele estava em pé no meio do esquadrão.

— Na minha sala. E traga sua... parceira.

Gabriel franziu a testa, olhando para a mesa ao lado da sua.

Sentada lá, com os pés sobre uma pilha de processos, estava a Detetive Valéria Cruz.

Cabelo tingido de um rosa químico que brilhava no escuro, jaqueta de couro sintético cheia de patches e olhos... olhos que não eram dela. Próteses óticas de grau militar, violetas e inquietas.

Ela parou de mascar chiclete e sorriu.

— O velho tá de mau humor hoje. Deve ser a artrite. Ou o fato de que o orçamento do café foi cortado. De novo.

— Vamos logo, Val.

Eles entraram na sala de Vilar. O Capitão jogou uma pasta na mesa.

— Kiko Vibe — disse Vilar. — Influencer. Encontrado morto esta manhã.

— Overdose? — perguntou Gabriel.

— Térmica — corrigiu Valéria, pegando uma das fotos sem pedir permissão. — O cérebro dele cozinhou. A temperatura interna do crânio subiu para 60 graus em dois segundos.

— Falha de hardware?

— Assassinato. — Valéria apontou para o headset na foto. — Alguém injetou um pacote de dados corrompidos direto no córtex visual dele. O sistema de refrigeração do rig foi revertido. Transformaram o capacete num micro-ondas.

Gabriel sentiu o gosto amargo do uísque voltar.

— Quem mataria um garoto que faz vídeos de dança?

— Kiko ia fazer uma live ontem à noite. Chamada "O Grande Reset". — Vilar cruzou os braços. — Ele prometeu revelar "a verdade sobre a nova infraestrutura". Miranda disse que ele tinha contatos no submundo.

A menção de Miranda fez Gabriel trincar os dentes. O traidor estava preso em uma cela de segurança máxima no subsolo da delegacia, cantando como um canário para a Inteligência em troca de morfina para sua perna gangrenada.

— E o que ele revelou? — perguntou Gabriel.

— Nada — disse Valéria. — Porque ele foi apagado.

— Apagado?

— Shadowban Nível 5. — Os olhos violetas de Valéria giraram, focando em algo invisível. — A conta dele sumiu. Os backups na nuvem foram corrompidos. Até as menções ao nome dele em outros fóruns estão desaparecendo enquanto conversamos. Alguém está limpando a existência dele da história.

Gabriel pegou a foto do cadáver. Olhos queimados. A boca aberta num grito silencioso.

— Mataram o corpo e agora estão matando o fantasma.

— Precisamos ir ao apartamento dele — disse Valéria, já caminhando para a porta. — Antes que os "Limpadores" cheguem ao hardware físico.

Gabriel suspirou e pegou as chaves do carro.

— Aria já traçou a rota? — perguntou ele para o ar.

Rota otimizada, — a voz da menina saiu do comunicador de Valéria. — Tráfego pesado na Zona Sul. Recomendo passar pelo Distrito das Fábricas.

Valéria revirou os olhos.

— Eu odeio quando ela faz isso com meu equipamento. Vamos, Gabo. O morto não vai esperar.