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Capítulo 55: A Tentação de Lázaro

Dia 46 do Dilúvio - Refúgio Subterrâneo

A dor na coluna de Gabo era um lembrete constante de sua mortalidade. Sem as órteses, ele se movia com dificuldade, apoiado em uma bengala improvisada feita de cano de PVC.

Ele estava sozinho no bar improvisado do esconderijo, tentando afogar a dor em uísque barato, quando ela entrou.

Não era Val, nem Elena. Era uma mulher que ele nunca tinha visto, mas que parecia conhecer cada um de seus pesadelos.

Ela usava um vestido vermelho que parecia líquido, deslizando sobre curvas perigosas. Seu cabelo platinado capturava a pouca luz do ambiente. O cheiro de jasmim sintético invadiu o ar viciado do porão.

— Gabriel Moretti — disse ela. A voz era seda e lâmina. — Você parece um homem que carrega o mundo nas costas. E que as costas estão quebrando.

Gabo levou a mão à pistola sob a mesa.

— Quem é você e como passou pelos sensores?

— Isadora. E seus sensores são ótimos para detectar máquinas, mas péssimos para detectar... intenções. — Ela sentou-se à frente dele, cruzando as pernas.

Ela colocou um frasco pequeno sobre a mesa. O líquido dentro brilhava com um azul elétrico intenso.

Lázaro. A droga. A versão pura.

— Vim te fazer uma oferta, Gabo.

— Eu não uso. E se você não sumir em dez segundos, vou te prender. Ou pior.

Isadora riu suavemente.

— Você não entende. Isso não é para ficar "chapado". É um passaporte. — Ela empurrou o frasco na direção dele. — Dentro dessa simulação... eles estão vivos.

Gabo congelou.

— O quê?

— Helena. Dante. Até a pequena Clara, feliz e sem dívidas. — Isadora inclinou-se para frente, os olhos verdes perfurando a alma dele. — O Marco tem os backups neurais deles, Gabo. Ele me deu isso. É uma cópia perfeita da consciência da sua família, rodando em um servidor isolado, esperando por você.

A mão de Gabo tremeu. Ele olhou para o frasco. Uma vida onde a chuva parou. Onde sua mãe estava assando bolo. Onde seu pai estava lendo jornal. Onde ele não era um aleijado perseguido.

— É só beber — sussurrou Isadora. — E você pode ficar lá para sempre. Sem dor. Sem luta. Apenas paz.

Gabo sentiu o desejo. Era uma fome física, avassaladora. Ele estendeu a mão. Seus dedos roçaram o vidro frio.

Isadora sorriu. Um sorriso de vitória.

Mas então, Gabo viu.

No pulso de Isadora, sob a manga do vestido, havia uma marca roxa. Uma contusão em forma de dedos mecânicos.

A mão de Gabo passou pelo frasco e agarrou o pulso dela com violência.

— Quem fez isso em você? — ele rosnou.

O sorriso de Isadora vacilou.

— Me solta.

— Foi o Miranda, não foi? Com aquela mão de metal dele.

Isadora tentou puxar o braço, mas Gabo segurou firme. Ele viu o medo nos olhos dela. Não o medo de uma vilã pega, mas o medo de uma vítima.

— Você veio aqui me vender o paraíso, mas você vive no inferno, não é, Isadora?

A máscara da femme fatale caiu. Isadora relaxou os ombros, derrotada.

— Ele disse que se eu não fizesse você beber... ele ia me dar para os robôs. — Uma lágrima solitária escorreu pela maquiagem perfeita. — O Marco... ele quer você fora do tabuleiro, mas não quer te matar. Ele quer te possuir. Como um troféu na estante digital dele.

Gabo soltou o braço dela. Ele pegou o frasco de Lázaro e o jogou contra a parede. O vidro quebrou, e o líquido azul evaporou com um chiado.

— Diga a ele que eu recuso a oferta.

Isadora olhou para o líquido desperdiçado, depois para Gabo.

— Ele vai me matar.

— Não — disse Gabo, levantando-se com dificuldade, mas com uma nova força nos olhos. — Você vai nos ajudar a matá-los.

— Por que eu faria isso? Vocês são meia dúzia de ratos contra um exército.

— Porque eu sou o único que viu a marca no seu braço e perguntou quem fez, em vez de perguntar o que você podia fazer por mim.

Isadora avaliou o homem à sua frente. Quebrado, sujo, velho. Mas inquebrável.

— O Miranda controla os robôs de uma sala no subnível da Prefeitura — disse ela, rápido. — Mas o Marco... o Marco está construindo algo pior na Represa. O "Projeto Dilúvio" não é só água. É um reset.

Ela tirou um chip escondido no salto do sapato e o colocou na mesa.

— Aqui estão as plantas. E os códigos de acesso do Miranda.

Gabo pegou o chip.

— Bem-vinda à resistência, Isadora. O café é horrível, mas a liberdade é de graça.

Ela se levantou, ajeitando o vestido.

— Não se engane, Moretti. Eu não sou sua amiga. Eu só quero estar do lado que vai estar vivo amanhã.

Ela saiu, deixando para trás o cheiro de jasmim e a promessa de traição.

Gabo olhou para a mancha azul na parede. Ele tinha recusado o paraíso. Agora, só restava vencer o inferno.