Skip to content
Imagem do Capítulo

Capítulo 60: Despejo

Galerias Subterrâneas - Setor Norte

O tiroteio no túnel confinado era ensurdecedor. O som dos disparos da Glock de Gabo ricocheteava nas paredes de concreto úmido, criando uma cacofonia de ecos que parecia multiplicar cada tiro em dez. O ar estava pesado de cordite, vapor de água e o cheiro metálico de sangue — dele ou dos mercenários, já não sabia dizer.

— Corre, Aria! — gritou Gabo, disparando às cegas para forçar os inimigos a se protegerem atrás das colunas de suporte.

A menina correu, pequena e ágil, os pés descalços não fazendo barulho no concreto molhado. Ela desapareceu em uma bifurcação do túnel, sua silhueta fantasmagórica engolida pela escuridão como se a própria sombra a tivesse reivindicado.

Uma bala raspou o ombro de Gabo, rasgando o couro do sobretudo e queimando a pele por baixo. Ele grunhiu entre os dentes cerrados — mais irritação do que dor. Dor era ruído de fundo neste ponto. Seu corpo inteiro era uma sinfonia de desconfortos que ele aprendera a ignorar.

As órteses nas pernas chiavam a cada movimento, protestando contra a umidade que infiltrava suas juntas improvisadas. O display no visor interno — uma tela holográfica rachada que ele soldara ao capacete de motoqueiro — piscava em vermelho.

ALERTA: BATERIA CRÍTICA - 8%INTEGRIDADE ESTRUTURAL: 15%SERVO DIREITO: FALHA IMINENTERECOMENDAÇÃO: EVACUAÇÃO IMEDIATA

— Agora não, lata velha! — Gabo bateu na coxa mecânica com a coronha da pistola. O impacto fez o servo direito engasgar, mas voltar a funcionar. Por enquanto.

Ele se jogou atrás de uma coluna de concreto no momento exato em que uma rajada de submetralhadora varreu o espaço onde estivera. Faíscas pularam do metal onde as balas arrancaram pedaços da estrutura. Fragmentos de cimento atingiram seu rosto, cortando a bochecha.

Os mercenários avançavam com disciplina militar. Movimentos coordenados, comunicação silenciosa, cobertura alternada. Eram profissionais de verdade — não a escória de gangue que costumava enfrentar. Estes eram o "Esquadrão de Limpeza" da Aeterna, a unidade fantasma que oficialmente não existia.

E eles queriam a menina.

— Entregue a garota, Moretti! — gritou o líder, a voz amplificada por um modulador tático que a deixava desumana. — E garantimos uma morte rápida para você. Sem dor. Sem humilhação. Apenas... fim.

— Tentadora a oferta! — gritou Gabo de volta, trocando o carregador com dedos que tremiam mais do que ele gostaria de admitir. Restavam dois carregadores. Doze balas. Contra oito homens armados até os dentes. — Mas eu prefiro a versão longa e dolorosa! É mais do meu estilo!

Ele precisava criar uma distração. Algo que comprasse tempo para Aria fugir. Olhou ao redor, forçando os olhos a se adaptarem à penumbra do túnel.

Acima das cabeças dos mercenários, tubulações de vapor passavam pelo teto baixo. Canos grossos, enferrujados, cobertos de condensação. Relíquias do sistema de aquecimento geotérmico que a cidade usava antes da Aeterna monopolizar a energia. Velhos. Corroídos. Sob pressão constante por décadas sem manutenção.

Perfeito.

Gabo mirou. Não nos homens — seria desperdício de munição contra aquelas armaduras. Na válvula de pressão acima deles. Um alvo do tamanho de um punho, parcialmente escondido por teias de aranha industrial.

Um tiro. Errou por centímetros.

Dois.

A válvula explodiu.

Um jato de vapor superaquecido jorrou com a força de um trem de carga, preenchendo o corredor com uma névoa branca e escaldante. O som foi ensurdecedor — um silvo agudo que parecia o grito de uma locomotiva agonizante.

Os mercenários gritaram. Mesmo através das máscaras táticas, o calor era brutal. Viseiras embaçaram, sensores fritaram, pele exposta começou a formar bolhas. Eles recuaram em desordem, alguns arrancando os capacetes para respirar, quebrando a formação que os tornava letais.

Gabo não esperou para ver o resultado. Ele correu — ou tentou. O servo direito das órteses escolheu aquele momento exato para finalmente falhar.

FALHA CRÍTICA - SERVO DIREITO OFFLINE

A perna direita travou em posição estendida. Gabo tropeçou, caiu de joelhos no concreto molhado, o impacto enviando uma onda de dor pela coluna já comprometida. Sua visão escureceu nas bordas.

— Merda. Merda. MERDA!

Ele bateu na coxa com força bruta, ignorando a dor nos nós dos dedos. Uma vez. Duas. Três. O metal gemeu, faíscas saltaram de uma junta solta, e por pura teimosia mecânica — ou talvez por pena do velho guerreiro — o servo reativou.

Gabo se levantou, mancando pesadamente na direção onde Aria tinha ido.

Encontrou-a encolhida em um nicho entre dois canos de esgoto, os joelhos puxados contra o peito, os olhos heterocromáticos enormes e brilhantes na escuridão. Ela não chorava. Aria nunca chorava. Mas havia algo em seu rosto que Gabo reconhecia.

Medo. O medo de quem sabe exatamente o que está em jogo.

— Vamos, rápido! — Gabo estendeu a mão.

Aria a segurou. Seus dedos eram gelo — como sempre — mas o aperto era firme. Confiante. Ela confiava nele. Deus sabe por quê.

Eles correram — ou a versão que Gabo conseguia de correr com uma perna que falhava a cada terceiro passo — por corredores labirínticos que cheiravam a mofo e esquecimento. Subiram escadas de manutenção enferrujadas que gemiam sob seus pesos combinados. A cada degrau, Gabo sentia as juntas das órteses protestarem, os alertas no visor se multiplicando como pragas.

BATERIA: 5%SERVO ESQUERDO: DEGRADAÇÃO CRÍTICACOLUNA VERTEBRAL: ESTRESSE EXCESSIVOTEMPO ESTIMADO ANTES DE FALHA TOTAL: 4 MINUTOS

Quatro minutos. Ele precisava sobreviver quatro minutos.

Finalmente, eles irromperam na superfície através de uma escotilha de manutenção coberta de lixo.

A noite tinha caído sobre Baía Cinzenta, mas a cidade ardia.

Fogueiras de barricadas pontilhavam o horizonte. O som distante de sirenes — as poucas que ainda funcionavam — misturava-se com gritos e o estalido de tiros esporádicos. O ar cheirava a fuligem, borracha queimada e o ozônio metálico da tempestade que se aproximava.

Eles saíram em um beco nos fundos de um antigo shopping center abandonado, o esqueleto de concreto de um templo de consumo que ninguém mais podia pagar. Vitrines quebradas exibiam manequins sem cabeça, testemunhas mudas de uma era de abundância que parecia mitológica agora.

Mas não estavam a salvo. O céu estava cheio de drones — pontos de luz vermelha que patrulhavam metodicamente, varrendo o terreno com sensores térmicos e de movimento.

E então, o chão tremeu.

Gabo olhou para a rua principal, além do beco.

Um veículo colossal avançava pela avenida destruída, esmagando carros abandonados e barracos de refugiados como se fossem feitos de papel. Parecia uma escavadeira blindada, mas maior. Monstruoso. Na lateral, pintado em letras garrafais vermelhas sobre o metal negro fosco: REMOÇÃO URBANA - PROGRAMA DE REVITALIZAÇÃO MUNICIPAL.

O veículo tinha garras hidráulicas na frente — mandíbulas de aço do tamanho de contêineres que agarravam paredes inteiras e as derrubavam com a facilidade de uma criança quebrando castelos de areia. E atrás dele, marchando em formação perfeita, uma falange de robôs CP-Z — os "Pacificadores" que a Aeterna usava para controle de distúrbios. Doze unidades, cada uma armada com canhões de supressão que podiam derrubar um elefante.

Eles atiravam em qualquer coisa que se movesse nos escombros. Sem aviso. Sem discriminação. Limpeza. Simples assim.

Era um despejo em massa. Uma operação de guerra contra a pobreza. A solução final da Aeterna para o problema dos "recursos humanos excedentes".

— Eles vão derrubar o quarteirão todo... — Gabo percebeu com horror crescente. Seu estômago afundou.

O shopping onde eles estavam encostados estava diretamente na linha de demolição. Em menos de dois minutos, aquelas garras estariam arrancando as paredes ao redor deles.

— Inspetor!

A voz veio de cima. Gabo ergueu os olhos, protegendo-os do clarão de um holofote que varria o beco.

Uma figura acenava do telhado do prédio vizinho — um apartamento de três andares que ainda mantinha parte da estrutura. Cabelos com fios holográficos brilhavam como um farol na escuridão caótica.

Valéria.

— A escada de incêndio! Subam! Agora! — ela gritou, jogando uma corda improvisada.

Gabo pegou Aria no colo, ignorando a dor lancinante nas costas que fez sua visão piscar em branco por um segundo. A menina era leve — leve demais, como se seus ossos fossem ocos — mas cada grama parecia uma tonelada para seu corpo destruído.

As órteses gemiam a cada degrau da escada de metal. Alarmes silenciosos explodiam em seu visor.

BATERIA: 2%SERVO DIREITO: OFFLINESERVO ESQUERDO: DEGRADAÇÃO TERMINALFALHA SISTÊMICA EM: 45 SEGUNDOS

Quarenta e cinco segundos. Quarenta. Trinta e cinco.

A perna direita travou novamente, desta vez com um estalo audível de metal quebrando. Gabo tropeçou, bateu o joelho na grade da escada, sentiu algo rasgar dentro de si. Não sabia se era músculo, tendão ou esperança.

— Merda!

— Deixa o peso morto para trás, Gabo! — gritou Val lá de cima, a voz embargada de desespero. — Solta a armadura! Você não vai conseguir!

— Nunca! — Gabo rosnou entre dentes cerrados.

Ele sabia que Val não estava falando das órteses. Ela estava falando dele mesmo. Do velho que insistia em carregar o mundo nas costas mesmo quando o mundo não queria ser carregado.

Vinte segundos.

Gabo forçou as órteses com pura força de vontade. Ele ouviu engrenagens quebrando, sentiu metal se deformando contra suas pernas, mas a estrutura obedeceu por mais alguns passos. Pura teimosia transformada em movimento.

Dez segundos.

A escavadeira estava a cinquenta metros. O som de concreto sendo triturado era ensurdecedor, uma orquestra de destruição que fazia o ar vibrar.

Cinco.

Gabo alcançou o telhado no exato momento em que seus servos finalmente morreram.

FALHA SISTÊMICA TOTALÓRTESES: OFFLINEMODOS DE EMERGÊNCIA: ESGOTADOSRECOMENDAÇÃO: REMOÇÃO IMEDIATA DO EQUIPAMENTO

A estrutura metálica nas pernas de Gabo travou completamente, transformando-se de prótese em prisão. Ele caiu para frente, Aria ainda em seus braços, rolando no chão do telhado coberto de detritos.

Val os puxou para longe da borda no exato momento em que a escavadeira atingiu a base do prédio de onde tinham subido. A estrutura gemeu, rachou e desabou em uma nuvem de poeira e memórias pulverizadas.

Gabo ficou deitado no telhado, ofegante, o coração parecendo querer explodir no peito. Cada respiração era uma facada. Cada batimento, um terremoto.

Val se ajoelhou ao lado dele, os olhos cibernéticos — agora com aquele brilho prateado estranho desde o casulo — cheios de preocupação real.

— Você está horrível, chefe. — A voz dela estava rouca. — Tipo, pior que o normal. E o normal já era bem ruim.

Gabo tentou sorrir. Saiu mais como uma careta manchada de sangue.

— Você devia ver os outros caras. Eles estão com vapor até na alma.

Aria se aproximou, silenciosa como sempre. Ela colocou a mãozinha pequena na testa de Gabo. Fria. Suave.

E algo aconteceu.

A dor na coluna — aquela dor constante que era sua companheira há meses — diminuiu. Não curada. Não desaparecida. Mas... silenciada. Como se alguém tivesse abaixado o volume de um rádio que tocava estática 24 horas por dia.

— O que você fez? — sussurrou Gabo.

Aria não respondeu. Apenas olhou para ele com aqueles olhos antigos, heterocromáticos, que pareciam conter galáxias e vazio ao mesmo tempo.

— Temos que sair da cidade — disse Val, já se levantando, já planejando. — O cerco está fechando. Eles declararam Lei Marcial em todos os setores. Drones em cada esquina. CP-Z em cada cruzamento. Se ficarmos, viramos estatística.

Gabo olhou para a destruição lá embaixo. Para a "Nova Baía" sendo construída sobre os ossos da velha. Para os corpos que ninguém ia enterrar. Para os gritos que ninguém ia ouvir.

Ele se levantou. Foi difícil — as órteses mortas pesavam como uma armadura medieval, e suas pernas naturais mal lembravam como funcionavam sem ajuda. Mas ele se levantou.

— Não — disse ele, a voz rouca mas firme. — Nós não vamos sair. Nós vamos descer.

— Descer? — Val piscou. — Descer aonde?

— Até o fundo dessa maldita piscina. Até onde eles acham que ninguém vai procurar. — Gabo olhou para Aria, depois para Val. — Eles querem essa menina. E enquanto eles quiserem ela, vão continuar vindo. Não importa onde a gente se esconda.

Ele deu um passo em direção à borda do telhado, olhando para o caos abaixo.

— Então a gente para de se esconder. A gente vai até eles. E a gente termina isso.

Val e Aria trocaram um olhar. A hacker e a aberração. As duas únicas pessoas no mundo que ainda acreditavam que Gabriel Moretti sabia o que estava fazendo.

Talvez estivessem certas.

Provavelmente não.

Mas em Baía Cinzenta, "provavelmente não" era o mais perto que alguém chegava de esperança.