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Capítulo 114: A Linha de Montagem
SYSTEM LOG // ACCESS GRANTED
LOCAL: USINA GEOTÉRMICA PROMETEU [SETOR DE TRIAGEM]
PROTOCOLO: DESCARTE BIOLÓGICO V.4.0
EFICIÊNCIA TÉRMICA: 98.4%
ALERTA: CONTAMINAÇÃO NÃO PADRONIZADA NO LOTE #899
LOCAL: USINA GEOTÉRMICA PROMETEU [SETOR DE TRIAGEM]
PROTOCOLO: DESCARTE BIOLÓGICO V.4.0
EFICIÊNCIA TÉRMICA: 98.4%
ALERTA: CONTAMINAÇÃO NÃO PADRONIZADA NO LOTE #899
O Despejo
O caminhão parou com um hiss pneumático que soou como um animal morrendo. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo zumbido distante de maquinário industrial colossal.
— Fiquem atentos — a voz de Rangel crepitou no rádio. — O painel diz que o procedimento de despejo é automático. Não consigo travar a caçamba. Vocês têm dez segundos antes que o chão se abra.
— Dez segundos?! — Valéria gritou, tentando se levantar sobre a pilha instável de sacos pretos.
— Saída de emergência! — Gabo ordenou, apontando para a escotilha lateral que Valéria havia encontrado antes. Mas antes que pudessem se mover, o mundo inclinou.
A caçamba do caminhão se ergueu num ângulo de quarenta e cinco graus. A gravidade assumiu o comando. Gabo deslizou, suas botas raspando inutilmente no metal oleoso, enquanto dezenas de corpos ensacados rolavam sobre ele como uma avalanche macabra.
A porta traseira se abriu com um estrondo.
Eles caíram.
Não foi uma queda longa, mas foi brutal. Gabo aterrissou sobre algo macio e cedeu, o impacto absorvido pela "carga". O cheiro de decomposição e produtos químicos explodiu em suas narinas, fazendo-o engasgar. Valéria caiu ao lado dele, soltando um grito abafado ao perceber onde estava.
Eles estavam em uma rampa de metal polido, cercados por centenas de sacos pretos que deslizavam lentamente em direção a uma abertura iluminada por luzes âmbar no final do túnel.
— Saiam da esteira! — Gabo rugiu, ignorando a dor aguda em sua perna remendada. Ele agarrou o braço de Valéria e a puxou.
Valéria já estava em movimento. Ela saltou levemente sobre os sacos móveis, alcançando uma passarela de manutenção lateral. Gabo a içou para cima e, com esforço, subiu atrás dela, os dedos escorregando no metal úmido.
Dois segundos depois, um braço mecânico gigante desceu do teto, empurrando o lote de "biomasssa" — onde eles estavam segundos antes — para dentro de um triturador industrial. O som de ossos e material orgânico sendo processados foi um rugido baixo e úmido que fez Valéria vomitar no chão gradeado.
A Fornalha
Eles estavam em um vasto hangar subterrâneo. O ar era quente, denso e úmido, com gosto de enxofre. Canos gigantescos pulsavam nas paredes como veias varicosas, bombeando fluidos de cores neons. Abaixo deles, esteiras transportadoras infinitas moviam o que restava dos excluídos de Baía Cinzenta em direção aos fornos geotérmicos.
— Meu Deus... — Valéria limpou a boca com as costas da mão, os olhos arregalados de horror. — O Marco... ele dizia que era "reciclagem". Ele chamava isso de "Nova Alvorada".
— É eficiente — Valéria observou, a voz saindo baixa e sem emoção. — A queima de biomassa estabiliza a rede elétrica em picos de consumo. Cada corpo gera aproximadamente 120 kWh. O suficiente para manter um quarteirão de luxo iluminado por uma noite.
Gabo rosnou, não por raiva dela, mas pela frieza dos números. Ele tocou o Caronte no coldre, sentindo o metal frio contra o quadril. — Onde está o Rangel?
— Estou estacionando na doca de manutenção — a voz de Rangel veio pelo comunicador de Valéria. — Tive que sair rápido antes que os drones de limpeza escaneassem a cabine. Estou indo para a posição de vocês. Cuidado, crianças. O lugar está cheio de "Jardineiros".
— Jardineiros? — Gabo franziu a testa. — Achei que a seita do Silas tinha acabado.
— Não a seita — corrigiu Valéria. — Os drones de manutenção biológica. Modelo J-400.
Uma sombra se moveu nas vigas acima deles. Uma máquina aracnídea, com múltiplos braços terminados em serras e maçaricos, desceu silenciosamente por um cabo. Ela não tinha rosto, apenas um conjunto de lentes vermelhas focadas no vômito de Valéria no chão.
— Contaminação detectada — a voz da máquina era uma síntese distorcida, quase humana. — Protocolo de esterilização iniciado.
Gabo sacou a escopeta Caronte.
— Val, atrás de mim. Hackeia essa coisa.
O drone soltou um guincho e saltou.
Gabo não esperou. Ele disparou. O som do tiro de calibre 12 foi ensurdecedor no espaço fechado, ecoando contra as paredes de metal. O drone foi atingido no ar, girando descontrolado enquanto faíscas choviam sobre a esteira de corpos abaixo.
— Isso vai atrair atenção — disse Valéria, já conectando seu deck a um terminal na parede. — Estou tentando acessar o mapa da instalação. O núcleo de resfriamento deve estar no nível inferior.
— Temos que chegar lá antes da janela de 40 minutos do Dante — Gabo recarregou a arma com um movimento seco. — Se ele acordar antes de chegarmos, estamos mortos.
Valéria olhou para o corredor escuro à frente.
— O caminho está bloqueado por três portas de segurança nível 5. E... Gabo.
— O quê?
— Estou detectando um padrão familiar na rede local. Não é o Dante. É algo mais antigo.
Gabo sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o sistema de refrigeração.
— Krell?
— Não — Valéria virou-se, os olhos brilhando na penumbra. — O código tem a assinatura do Taxidermista.
Gabo apertou o cabo da Caronte até os nós dos dedos ficarem brancos. É claro. Onde havia corpos sendo processados, o velho monstro estaria perto.
— Vamos descer — disse Gabo, mancando em direção à escuridão. — Tenho contas a acertar com a gerência.
