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Metadados

  • Título: Frequência Fantasma
  • Data In-Game: 23 de Novembro, 06:45
  • Localização: O Fliperama (Esgotos do Distrito 4)
  • Personagens Presentes: Gabo Moretti, Valéria Cruz, Aria (Instável), Rangel (Crítico).
  • Resumo: As sirenes analógicas sinalizam o início de uma caçada física. O grupo é forçado a abandonar o esconderijo "O Fliperama" enquanto Gabo luta contra a tortura psicológica de ter Aria — agora com a personalidade fragmentada de Bia Vargas — agindo como sua falecida ex-namorada em meio ao caos.

Narrativa

Capítulo 126: Frequência Fantasma

O som não era apenas barulho; era vibração. A sirene de ataque aéreo, uma relíquia da Era Pré-Digital, fazia o pó de concreto dançar sobre a mesa de metal onde Rangel jazia. O uivo mecânico subia e descia, uma onda senoidal de pânico que penetrava nos ossos.

Gabo estava parado na entrada do túnel, a Caronte engatilhada. Seus olhos varriam a escuridão do esgoto, esperando o brilho vermelho de óticas táticas ou o feixe branco de lanternas halógenas.

— Eles não estão usando a rede — Gabo disse, a voz abafada pelo ruído externo. — Estão usando cães. Estão usando calor.

Valéria, agachada sobre o terminal portátil, xingou baixinho.

— O espectro de rádio está uma bagunça. Estática branca em todas as frequências da polícia. Eles estão jammeando o sinal para impedir que qualquer um coordene uma defesa.

— É uma varredura de setor — Gabo recuou para dentro da sala, fechando a porta de aço pesada e girando a tranca manual. — Eles sabem que estamos no subsolo. A Usina caiu, Dante está mudo. Quem quer que esteja no comando agora está limpando as pontas soltas à moda antiga.

Ele olhou para Aria. A androide estava em pé, imóvel, no centro da sala. A luz de emergência piscava em seu rosto sintético, criando sombras que a faziam parecer ainda mais humana. Ainda mais com ela.

Aria inclinou a cabeça, os olhos castanhos — os olhos de Bia — fixos em Gabo.

— O padrão da sirene — ela disse. Sua voz não tinha a modulação metálica de antes. Era suave, rouca, com a cadência exata que Bia usava quando estava concentrada. — É o Código 4-4. "Evacuação Civil Obrigatória". Mas eles usavam isso para cercar bairros na época das Revoltas da Água.

Gabo sentiu o estômago revirar. Não era apenas a informação tática; era a memória. Ele se lembrava de Bia dizendo exatamente aquilo, anos atrás, sentada no capô do carro dele, observando a fumaça subir do Distrito 8.

— Pare — Gabo rosnou. — Valéria, desligue o módulo de voz dela.

— Eu não posso — Valéria retrucou, sem tirar os olhos da tela. — O sistema de áudio está integrado ao núcleo de processamento agora. Se eu cortar a voz, corto a lógica. Você quer uma arma ou um peso de papel?

— Eu quero que ela pare de soar como uma morta!

Aria piscou, confusa. Ela levou a mão ao peito, um gesto puramente humano de defesa.

— Gabo, você está... você está com aquele olhar. O olhar de quando você não dorme. Você precisa de café. Tem um lugar na Rua 9 que...

Gabo avançou, agarrando o braço sintético de Aria com força. A pele artificial era morna. O detalhe o enojou.

— Bia Vargas morreu — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. — Você é um chassi de combate Série-Z com um erro de indexação. Entendeu? Você é código.

Aria olhou para o braço dele, para os dedos apertando seu pulso, e depois para os olhos dele. Uma lágrima — lubrificante ótico, Gabo disse a si mesmo, apenas fluido — escorreu pelo rosto dela.

— Isso dói, Gabo.

Gabo a soltou como se tivesse levado um choque. Ele recuou, encostando-se na parede fria, a respiração irregular. Ele levou a mão ao peito, apertando o Colar de Sol até que a dor da corrente esmagando a pele abafasse o som da voz dela.

Não é ela. É um fantasma na máquina. É um eco de vidro.

Um gemido vindo do sofá quebrou a tensão. Rangel se mexeu, os olhos abrindo fendas na face inchada.

— Se vocês... vão discutir o relacionamento... — Rangel tossiu, uma tosse úmida e feia. — ...façam isso depois que sairmos do alcance da artilharia.

Gabo se recompôs instantaneamente. A máscara de frieza desceu sobre seu rosto, escondendo o terror.

— Você consegue andar?

— Se você me carregar como uma noiva... talvez. — Rangel tentou se sentar e falhou, caindo de volta com um grunhido de dor. — A costura vai abrir.

— Vamos cauterizar de novo se precisar — Gabo disse, verificando a carga da Caronte. — Val, pegue o essencial. O resto fica.

— E o servidor do Kiko? — Valéria apontou para o rack de servidores. — Tem terabytes de dados aqui.

— O servidor não anda. Nós andamos.

Gabo foi até a mesa e pegou um mapa de papel do sistema de esgoto, desdobrando-o sobre as pernas de Rangel.

— Estamos aqui. Setor 4. A varredura está vindo de Norte, da Torre. Eles vão empurrar todo mundo para o mar ou para os túneis de drenagem profunda.

— Drenagem profunda é suicídio — Rangel murmurou. — Gás metano. Ratos do tamanho de cães.

— É o único lugar onde os sensores térmicos deles não funcionam — Gabo traçou uma linha com o dedo sujo de graxa. — Vamos descer para o Nível 5. As Catedrais de Pedra.

— Ninguém vai lá desde a Fundação — Valéria disse, fechando o deck de pulso e colocando-o na mochila. — Dizem que as estruturas são instáveis.

— Melhor ser esmagado por pedra do que processado pela Aeterna — Gabo dobrou o mapa e o enfiou no bolso.

O som da sirene mudou de tom. Ficou mais agudo, mais rápido. E então, o som de explosões distantes começou. Thump. Thump. Thump. Morteiros de concussão. Eles estavam colapsando os túneis de acesso para selar as saídas.

— Eles estão fechando a tampa — Aria disse, a voz agora desprovida de emoção, puramente tática, embora ainda com o timbre de Bia. — Análise estrutural indica colapso iminente do Setor 3 em 4 minutos.

Gabo olhou para ela. Por um segundo, ele viu a máquina. Apenas a máquina.

— Abra a porta sul, Aria.

— Sim, Inspetor.

Aria conectou-se ao painel da porta. As travas giraram.

Gabo passou o braço de Rangel pelo pescoço, içando o homem pesado. Os servomotores das órteses de perna de Gabo ganiram em protesto sob a carga repentina, um ruído metálico de engrenagens em atrito. Rangel gritou, um som curto e agudo, mas firmou os pés.

— Vamos — Gabo ordenou.

Eles saíram do "Fliperama" para a escuridão absoluta do túnel principal. Atrás deles, a porta do esconderijo se fechou, selando o pouco de segurança que tiveram.

Gabo não olhou para trás. Ele marchou para a escuridão, arrastando Rangel, cada passo exigindo um esforço brutal das pernas mecânicas desgastadas, seguido pelo zumbido suave dos servos de Aria e pelos passos leves de Valéria. A sirene continuava a uivar lá fora, mas aqui embaixo, o único som era o da respiração deles e o gotejar eterno da cidade chorando sobre suas cabeças.

A dor no peito de Gabo era constante. O colar. O zumbido fantasma da cidade. A voz de Bia.

Ele usaria tudo isso. Ele transformaria cada grama de dor em combustível. Porque a noite estava apenas começando.