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Imagem do Capítulo

Metadados

  • Título: A Fome do Abismo
  • Data In-Game: Pós-Colapso do Sentinel (Noite Eterna)
  • Localização: Dutos de Escoamento Secundário
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria

Narrativa

Capítulo 180: A Fome do Abismo

Os Dutos de Escoamento Secundário do Distrito 4 não foram feitos para o trânsito de humanos. Eram canos redondos de concreto com cinco metros de diâmetro, parcialmente submersos por uma lama negra e fétida.

A cada passo, as pernas mecânicas de Gabo esmagavam sedimentos industriais com um protesto choroso das juntas. O braço mutilado com a pesada e grosseira prótese oscilava ao seu lado feito uma âncora que ameaçava afogá-lo. O cheiro rascante de decomposição química começou a mexer com seu córtex cerebral novamente.

Onde devia estar apenas fedor de esgoto industrial, a fobia impôs o aroma opressivo do tabaco de Dante. A fumaça invisível envolveu seu pescoço. O peito de Gabo apertou, os pulmões tentando encontrar oxigênio através do manto negro da asfixia fóbica.

Dessa vez, Gabo nem sequer engasgou. Ele levantou a colossal garra de ferro de seu novo braço industrial e chocou-a brutalmente contra a parede de concreto do tubo. A repulsão cinética estilhaçou pedras, mas também mandou um impacto infernal diretamente contra as terminações expostas do seu ombro cortado a laser. A dor incandescente subiu pelo pescoço, expurgando a asfixia, quebrando o terror fantasma. A dor o limpou e calou a fumaça.

— Danos colaterais autoinfligidos em aumento exponencial — o algoritmo estéril de Valéria recitou de trás dele. — O desgaste do material orgânico não se justifica pelo resultado transitório, Gabo. A taxa de mortalidade em combate atingirá índices inaceitáveis.

— Sem o "resultado transitório", eu morro aqui babando, Val. — Ele cuspiu, o sangue ralo escorrendo do lábio que ele acabara de morder pela dor.

A poucos metros de distância, o cenário mudou. O lodo escuro desapareceu debaixo de um campo brilhante de mofo bioluminescente. A biomassa letárgica do Jardim pulsava. Presos nas paredes, envoltos num casulo denso e fibroso de filamentos brancos e raízes, estavam três Catadores.

Eles ainda estavam vivos.

Seus membros orgânicos pareciam apodrecidos, enquanto seus implantes cibernéticos baratos piscavam erraticamente, lutando contra o parasitismo. A biomassa fungóide estava digerindo-os lentamente, operando-os como bio-baterias e atrasando o óbito para extrair até o último elétron de seus marcapassos e neuro-circuitos.

Um deles, faltando metade do rosto engolido pelo fungo, virou o único olho restante para Gabo. Seus lábios de pele necrosada tentaram articular uma palavra. Mate-nos.

— Detectando assinaturas de calor múltiplas sendo processadas e assimiladas — Valéria informou friamente, escaneando o corredor. O tapete espesso de raízes carnívoras barrava o caminho completo. — Avanço impossível sem contato direto com a flora corrosiva. Nível de letalidade: 98%.

O pânico do catador semi-vivo ecoou pelo duto num gemido agudo e aquático, vindo do fundo de pulmões afogados em esporos.

A compaixão era uma fraqueza que Gabo não podia mais sustentar. Se ele tentasse arrancá-los do casulo orgânico, o fungo digeriria a ele mesmo, ou ele desabaria com a perna falhando sob o próprio peso.

Gabo olhou para a abóbada do túnel. Logo acima da massa fúngica, canos marcados com tarjas amarelas enferrujadas cruzavam a parede. Lodo ácido industrial. Lixo de antigas baterias.

— Eles estão mortos, e nós não podemos recuar — a racionalidade fria de Valéria parecia infectá-lo.

— Desculpem — Gabo murmurou para os olhos suplicantes na parede.

Gabo ergueu sua monstruosa prótese de braço, trincou os dentes e acionou a força hidráulica não calibrada do membro. Ele jogou o peso desbalanceado contra os ganchos que seguravam a tubulação ácida acima do campo fúngico.

O ferro retorceu. Com um rasgo agudo, o cano estourou.

Uma cachoeira de lodo esverdeado e borbulhante caiu como napalm sobre o campo fúngico e os Catadores presos a ele. Gritos distorcidos de agonia se misturaram ao som sibilante do ácido derretendo carne, metal e a raiz carnívora de forma indiscriminada.

Uma nuvem cáustica de vapor tomou conta do túnel. O tapete de fungo encolheu-se, abrindo um caminho cinzento derretido ao longo do meio.

— Rota alternativa funcional, probabilidade de avanço retomada — constatou Valéria, caminhando imediatamente sobre a trilha cáustica com precisão algorítmica.

Gabo passou por cima das carcaças dissolvidas. Ele usou a dor excruciante do braço estendido contra a tubulação para silenciar qualquer remorso ou fobia que tentasse emergir. Ele não estava salvando ninguém. Estava apenas sobrevivendo mais um segundo no abismo.