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Capítulo 208: A Geada Negra
O tubo estreito de drenagem terminou abruptamente. Deslizei para frente, o metal corroído arranhando minha jaqueta, até sentir o vazio sob minhas pernas. Caí com um estrondo metálico. Minha órtese esquerda bateu contra um piso de grade de aço, o impacto enviando uma onda de choque pelo meu joelho danificado. Soltei um rosnado baixo, acolhendo a dor crua; ela era a âncora perfeita, um lembrete físico que me impedia de recair nas alucinações asfixiantes do duto claustrofóbico de onde acabamos de sair.
— Área de aterrissagem confirmada, — a voz gélida de Valéria soou logo acima. Segundos depois, ela pousou graciosamente ao meu lado, sem o menor sinal de desconforto. — Temperatura ambiente em queda acentuada. Aproximadamente quatro graus Celsius negativos.
Elias despencou em seguida, caindo desajeitadamente. Ele arfou, abraçando os próprios ombros.
— Tá... tá muito frio aqui, — gaguejou o rapaz, os dentes batendo enquanto o feixe de sua lanterna improvisada tremia pelo novo ambiente. — Isso não deveria estar acontecendo no Setor 6. O reator geotérmico fica logo abaixo da gente.
Levantei-me devagar, sentindo as engrenagens da minha perna mecânica protestarem contra o frio súbito. Olhei em volta. Estávamos em uma câmara de resfriamento massiva, esquecida desde os tempos de ouro da Aeterna Corp. Mas não era apenas o abandono que dominava o lugar. As paredes não estavam unicamente enferrujadas pela Praga de Ferro; estavam cobertas por uma substância escura e fibrosa. Uma geada negra. Parecia tecido biológico necrótico, cristalizado pelo frio extremo.
— Análise, — pedi a Valéria.
Ela operava em Modo de Segurança, desprovida de inflexões emocionais. As lentes varreram as paredes.
— A estrutura celular da biomassa congelada apresenta assinaturas botânicas agressivas, consistentes com os esporos do Jardim, — relatou ela. — No entanto, a interação com o óxido de ferro acelerado causou uma reação endotérmica letal. A Praga de Ferro está essencialmente matando o Jardim de frio, e o Jardim está tentando devorar o metal em resposta. O resultado é essa necrose térmica.
Respirei fundo. O ar não fedia a fumaça ou poluição química, graças a Deus. O cheiro era de ozônio estático e carne congelada. Um odor repulsivo, sim, mas eu preferia a morte por hipotermia a suportar o pânico asfixiante do meu passado.
Forcei o ombro ferido propositalmente, sentindo o músculo lacerado arder sob os curativos rudimentares. O choque de agonia limpou qualquer resquício de medo da minha mente. A dor era meu oxigênio.
— Fique perto da gente, Elias, — ordenei, batendo na lateral da minha escopeta com a mão direita. — Se encostar nessa geada, você perde o membro antes mesmo de perceber.
— A probabilidade de amputação espontânea por necrose de contato biológico é de 89%, — acrescentou Valéria, de forma assustadoramente casual. — Recomendo seguirmos pela passarela central. É a rota com menor concentração de material anômalo.
Caminhamos pela estrutura de aço suspensa, meus passos irregulares ecoando pelo salão vazio. O rangido da minha órtese sob tensão era o único som constante, lutando contra o ar gélido. No meio da câmara, o feixe de luz de Elias revelou algo que fez meu estômago afundar.
Eram três corpos humanos, sentados em círculo, abraçados uns aos outros. Eles não estavam apenas mortos; estavam fundidos ao chão pela geada negra. Metade de suas roupas de operário havia sido consumida pelas fibras botânicas, enquanto seus implantes cibernéticos estavam inchados e esfarelando pela ferrugem da Praga de Ferro. O campo de batalha de dois terrores absolutos, com a humanidade presa no meio como dano colateral.
— Sucata e adubo, — murmurei, a dura realidade do Setor 6 batendo mais forte do que qualquer punho de metal.
Continuei andando. Deixei que o peso da minha perna arruinada e o cansaço lancinante guiassem o caminho em direção à escuridão congelada, sabendo que a única saída daquele pesadelo era através dele.