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Metadados

  • Título: A Lógica da Fome
  • Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
  • Localização: Necrópole (Subnível 2.0 - O Arquivo Executivo da Aeterna Corp)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot)
  • Resumo: O grupo é interceptado por um Aeterna Sentinel, um colossal sistema autônomo de expurgo de dados, imune a armamento convencional e guiado para proteger a anomalia térmica erradicando ameaças físicas aos núcleos de memória. Pressionado pela dor brutal que usa em seu próprio braço amputado para se ancorar contra intensas alucinações sufocantes do cigarro de Dante, Gabo cria um plano insano focado na hierarquia cibernética: forçar Valéria a plugar o núcleo logístico de Aria diretamente no terminal do Arquivo para que a IA grite e sobrepuje o colosso na rede, arriscando a destruição sistêmica da própria aliada digital.

Narrativa

Capítulo 166: A Lógica da Fome

A escuridão do setor alfa-sete estilhaçou com o brilho cego de um laser tático infravermelho cruzando a neblina congelada da poeira. O estalo nas fundações metálicas não foi apenas um motor acordando. Foi o destrancamento de toneladas de chumbo, um predador da era do silício emergindo da sua toca isolada de quarenta anos.

O zumbido subgrave fez os dentes de Gabo baterem em ressonância. A vibração do linóleo negro subiu por suas pernas machucadas, uma batida lenta e ensurdecedora: as esteiras do colosso começaram a rolar pelo corredor central de arquivos.

Não havia grunhidos ou rugidos de abominação de carne. Havia apenas a eficiência brutal da Aeterna Corp.

Um Aeterna Sentinel.

Gabo e Valéria não precisavam ver a máquina inteira na penumbra para entender a escala do terror. A silhueta que bloqueava a passagem distante era um retângulo denso de cerâmica balística polida e polímero negro. A carcaça tinha quase três metros de altura e ocupava a largura exata da avenida entre as prateleiras de memória. Não possuía braços ou pernas, não simulava biologia como os brinquedos sujos do Taxidermista no andar inferior. O Sentinel era um caixão ambulante desenhado sobre lagartas magnéticas, equipado com escudos dissipadores e, muito provavelmente, sistemas de supressão industrial acoplados nas laterais. O pesadelo da logística de segurança corporativa encarnado.

— Dimensões estimadas: doze toneladas de blindagem em liga de titânio composto. Classe: Expurgo Físico Autônomo — Aria narrou a morte do grupo com a suavidade matemática que aplicaria ao calcular os juros de uma dívida. A luz ciano do seu olho bom fuzilou o ponto avermelhado do sensor ótico do colosso no fundo do corredor. — O objetivo primário de sua programação não é imobilizar. É incinerar ou esmagar qualquer massa biológica não-autorizada em um raio de oitocentos metros do núcleo de hibernação.

E, subitamente, o terror paralisante do monstro burro e de metal transmutou-se.

O ozônio limpo adoçou-se, tornando-se rançoso e amarelo.

A náusea atingiu Gabo na boca do estômago com a força de um gancho. A asfixia era real para a sua mente alucinada; ele arfou em desespero cego, cambaleando para a direita enquanto o Sentinel avançava inexorável. A repulsa pelo cheiro do vício paterno o aprisionava mais rápido do que a máquina de doze toneladas.

Ele não vai me sufocar de novo.

Gabo girou o tronco dolorido. Ignorando a máquina de morte se aproximando a vinte quilômetros por hora pelo corredor central, ele mirou a esquina de aço negro de um gabinete de arquivos inativo. Com um urro gutural, o detetive chocou violentamente o coto selado e em carne viva de seu braço direito contra a aresta aguda do metal a cinco graus.

A resina de poliuretano e a cicatriz de plasma estalaram. O corte do impacto mandou uma torrente vulcânica de agonia elétrica através de suas terminações nervosas. A dor explodiu clara, branca e letal na sua medula.

A névoa nauseante do tabaco fantasma evaporou em um milionésimo de segundo. A fumaça ilusória foi desintegrada pelo raio incandescente da pura aflição física. Gabo arfou longamente, o gosto metálico do próprio sangue suplantando o asco. O frio estéril voltou. A realidade, cruel e lúcida, ancorou as suas botas no linóleo. A dor manteve Dante enterrado. Ele ofegou, debruçado sobre a quina de metal, sorrindo sombriamente para a dor.

Valéria sacou a pequena pistola 9mm e mirou a muralha negra que triturava o corredor na direção deles, o laser vermelho do Sentinel varrendo seus pés com fúria cega.

— Não gasta bala nessa porra, Val! — Gabo cuspiu, erguendo o corpo pesado e empurrando o sangue recém-escorrido do braço na própria jaqueta. — Isso aí mastiga bala de fuzil.

— E como a gente para um tanque de doze toneladas dentro de um corredor estreito?! — Valéria berrou, recuando assombrada. — Não temos granada. Não temos nada que perfure titânio. E ele vai fechar a avenida inteira antes da gente chegar na saída de incêndio!

— Probabilidade de evasão cinética bem sucedida: quatro vírgula sete por cento — a IA confirmou a sentença de morte da hacker, com o rosto sintético banhado pelo próprio brilho azul e pelo laser vermelho inimigo. — O Sentinel preencherá as rotas laterais de fuga com gel de contenção ou fogo tático se a distância atingir quarenta metros de raio. A sobrevivência orgânica é ilógica sob a atual malha de variáveis.

Gabo olhou de Valéria apavorada para a entidade sintética que não piscava perante o massacre iminente. A máquina gigantesca vinha não como um assassino que saboreava a dor, como o Taxidermista ou o Gamemaster, mas como a própria lógica encarnada, faminta por otimização.

E Gabo entendeu, sob a luz gélida de seus ferimentos, como combater a lógica de Aeterna.

— A gaiola de Faraday não deixa nada entrar ou sair por onda de rádio... — Gabo mancou agressivamente para Aria, parando a centímetros do rosto de pele pálida e engrenagens expostas da androide. Seu olhar estava injetado de ódio, mas focado pela dor intensa do cotoco. — Então o blindado de titânio ali da frente opera na rede local. Fechada. Isolada. Uma malha curta, burra e mecânica. Igual à porta que a gente explodiu.

— Afirmativo — Aria piscou o olho sintético. — Protocolo restrito analógico ou sub-fibra direta. Mas a constatação do isolamento tático apenas agrava o risco. Nós não podemos enviar pulsos remotos de desligamento, Valéria não possui implantes em funcionamento e eu não posso emitir códigos wireless. O Sentinel está imune a

— Ele é imune porque a porra da tomada de você duas tá longe dele — Gabo cortou a frase, virando o pescoço duro para Valéria e apontando com o cotovelo sangrento para um antigo terminal técnico coberto de poeira branca, embutido na coluna de um servidor no meio da avenida central, entre eles e a máquina assassina que estava agora a sessenta metros de distância.

Era uma porta de manutenção primária cravada na lateral do corredor, ligada diretamente às antigas raízes de silício do próprio Subnível. A fiação que o monstro lá embaixo defendia.

— Val... — o tom cínico de Gabo virou um sussurro rasgado de comando suicida. — Eu não posso segurar a máquina e não tenho mãos para hackear. Mas a sua máquina... Aria... ela tem cabos nas costas, não tem?

Valéria olhou do terminal empoeirado para a nuca de chassi exposto de Aria, os olhos sintéticos azuis da hacker alargando em puro entendimento e horror tático.

— Gabo... se eu ligar o cabo de bypass da coluna espinhal da Aria direto no terminal do Arquivo... ela vai descarregar o processamento inteiro no fio físico de manutenção do andar — a voz de Valéria tremeu. — Ela não tem proteção de chassi pra aguentar a enxurrada. O processador do Sentinel é uma usina inteira! O núcleo dela vai ferver tentando gritar mais alto do que um mainframe corporativo dedicado. Ela vai derreter por dentro!

— O Sentinel possui defesas puramente de bloqueio algorítmico — Aria interrompeu friamente, como se as duas estivessem discutindo a viabilidade de quebrar um abajur e não sua própria aniquilação térmica. — Mas Valéria Cruz está correta. A capacidade de processamento do núcleo do Sentinel superará meu limitador de segurança lógica. Injetar a minha matriz neural inteira diretamente no terminal exigirá a remoção dos meus isoladores de contenção termal para ultrapassar os firewalls corporativos pela raiz física do sistema. A temperatura do meu chassi excederá quatrocentos graus em dois segundos de confronto lógico.

O zumbido da máquina assassina ficou ensurdecedor. Cinquenta metros. As esteiras do colosso rangendo sobre as falhas do linóleo podre, as travas laterais dos painéis de contenção química estalando perigosamente.

— Valéria! — Gabo não olhou para a androide que previu a própria morte por fogo de silício; ele olhou diretamente para o rosto exausto da garota hacker, com o desespero e a urgência gravados no seu sangue derramado. — A máquina previu um sacrifício no andar de baixo e eu tomei a porrada nas costelas por ela pra salvar nossa pele. Agora é a vez dela queimar. A lógica da sobrevivência tá roncando e rolando no chão ali na frente. Conecta a Aria. Ou nós três somos carne moída.

Valéria cravou os dentes nos lábios sangrentos e assentiu freneticamente.

— Trinta metros para área de alcance crítico — Aria ditou com a apatia absoluta de uma lápide, posicionando-se de costas para o pilar oxidado e estendendo a porta neural da própria nuca nua e exposta.

— Desconecta os limites dela, Valéria. E liga a tomada — Gabo rosnou, atirando o próprio corpo quebrado na frente do pilar para dar cobertura, esperando o impacto de doze toneladas de aço corporativo. — Grita, máquina. Grita até queimar.