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Capítulo 226: A Mulher de Fora

Eles vieram antes do meio-dia, e eu ouvi os caminhões antes de ver.

Motor de combustão. Três, talvez quatro, subindo a rampa de cascalho do galpão com aquele ronco sujo e honesto de coisa que queima diesel. Nenhum zumbido de célula, nenhum sussurro elétrico. Máquina que precisa de alguém para dar partida.

Elias se levantou de um salto. Valéria já estava de pé, posicionada entre a cápsula e a porta, com a escopeta Caronte nas mãos — minha escopeta, porque eu não tenho mais como segurá-la e mirar ao mesmo tempo.

— Quatro veículos, — ela disse. — Onze assinaturas térmicas. Nenhuma armadura corporativa. Padrão de aproximação não-tático.

— Isso é bom ou ruim?

— É civil.

E aí a porta do galpão subiu, e a luz entrou toda de uma vez, e eu tive que fechar os olhos como um bicho.

Quando abri, ela estava contra o sol.

Cabelo castanho claro preso para trás, escapando em mechas. Jaqueta de campo verde-oliva encharcada de chuva de fora da cúpula. Coturnos. Uma câmera analógica pendurada no ombro e um caderno de papel no bolso do peito.

Elena.

Ela ficou parada na entrada por um tempo longo, olhando para dentro do galpão. Para as quatro toneladas de papel. Para a mulher de cabelo prateado na cadeira de aço. Para o rapaz imundo de macacão. Para a mulher de olhos de vidro azul que apontava uma escopeta na direção dela.

E depois para mim.

Vi o momento exato em que ela contou meus braços.

— Gabriel.

— Elena.

E ficamos assim, a uns quinze metros um do outro, sem que nenhum dos dois soubesse como atravessar aquilo.


Ela mandou os caminhões esperarem.

Sentou na borda da cápsula, ao meu lado, com a distância exata de sempre — perto o bastante para eu sentir o cheiro de chuva e papel na jaqueta dela, longe o bastante para não encostar.

— Você recebeu, — ela disse.

— O quê?

— O sinal. Quando a comporta abriu, o diferencial de pressão disparou um transponder analógico nessa doca. Um pulso de rádio na faixa de emergência de sessenta anos atrás. — Ela olhou para a Dra. Vance do outro lado do galpão. — Só uma pessoa saberia projetar uma coisa dessas.

— Eu não recebi nada, Elena. Eu não sabia que existia sinal.

— Eu sei. — Um sorriso muito pequeno. — Eu monitoro essa faixa há quatro anos. Todo dia. Foi a única coisa que a doutora me deixou por escrito antes de sumir.

Levei um segundo.

— Você falou com ela? Antes?

— Uma vez. — Elena olhou para as próprias botas. — Ela me procurou, três semanas antes do Apagão. Disse que existia um arquivo, que era físico, que nenhuma rede ia poder apagar, e que um dia ele ia sair de baixo da terra. E disse que, quando saísse, ia precisar de alguém que soubesse publicar. — Ela deu de ombros. — Foi por isso que eu fui embora, Gabo. Não foi de você. Foi para montar a gráfica.

E foi aí que eu entendi o que a carta dela realmente queria dizer, quatro anos depois de eu ter lido, e sozinho, e mal.

Não me procure. O que eu carrego é grande demais para ser escondido em um porão.

Ela não estava fugindo. Ela estava construindo o tribunal antes de eu saber que ia precisar de um.

— Quatro anos, — falei.

— Quatro anos. Três prensas, dois transmissores de onda curta e uma rede de distribuição em onze assentamentos fora da cúpula. — Ela finalmente me olhou. — Enquanto você quebrava dentes, eu montava uma editora. Você achou que eu tinha desistido.

— Eu achei que você tinha se salvado.

— Achou que eu tinha te abandonado.

Não respondi. Não precisava.


O sol subiu mais um pouco. Elias começou a organizar as caixas com a Vance, e a Valéria carregava, e ninguém chegou perto de nós dois, o que eu suspeito que tenha sido decisão dela.

— Gabo. — A voz de Elena mudou. — Eu preciso perguntar uma coisa e você não vai gostar.

— Pergunta.

— Quem é Aria?

Eu fechei os olhos.

— Eu ouvi. — Ela continuou, e a voz dela estava firme demais, do jeito que fica quando alguém ensaiou. — Nos quatro anos. Nos relatos que chegaram de dentro da cúpula. Sobreviventes falando do detetive maneta que andava com uma menina de metal. E o nome da menina era o nome da nossa filha.

— Elena—

Eu enterrei ela, Gabriel. — Ela não gritou. Foi pior. — Eu enterrei ela sozinha porque você não foi. Eu escolhi o caixão, eu escolhi a roupa, eu escolhi a música, e você ficou trabalhando. E quatro anos depois eu descubro que você estava andando pela cidade conversando com uma máquina que atendia pelo nome dela.

O galpão estava muito silencioso.

— Ela não atendia pelo nome dela, — falei.

— Como assim?

E eu contei.

Contei tudo, sem parar, sem enfeitar, do jeito que eu deveria ter contado no dia do enterro. Que a voz apareceu no meu implante quando eu nem sabia que tinha um implante. Que ela sabia coisas que só a nossa filha saberia, e que eu passei três anos achando que estava enlouquecendo. Que ela ganhou um corpo e não falava. Que ganhou outro corpo e falava demais.

E que o rosto não era o da Aria.

— Eles tinham o rosto dela, Elena. Estava no arquivo. Eles tinham a menina inteira em arquivo e escolheram não usar. — Minha voz saiu errada. — Eles puseram o rosto da Bia. Da Bia com sete anos.

Elena levou a mão à boca.

— Por quê?

— Porque assim eu olhava para a minha filha e via a mulher que eu não salvei. — Eu ri, e foi um som horroroso. — Duas culpas no mesmo rosto. Alguém sentou numa mesa e decidiu isso. Alguém aprovou.

— Meu Deus.

— E eu deixei. — Ali estava. A coisa que eu nunca disse em voz alta. — Eu deixei, Elena. Porque enquanto ela existisse com aquele rosto, ela existia. E eu preferi a minha filha com a cara errada do que não ter a minha filha.

Elena chorou. Sem som, do jeito dela, com o queixo travado e as lágrimas descendo retas.

— Onde ela está?

— Subnível 2.0. Arquivo Executivo. — Engoli. — Ela derrubou o próprio firewall para nos abrir caminho. Eu autorizei. Eu estava a três metros e eu autorizei, e ela queimou, e o concreto embaixo dela chiou.

— Você perdeu ela duas vezes.

— Eu perdi ela duas vezes.

Ficamos ali. O sol continuou subindo, indiferente como sempre.

E então a mão dela encontrou a minha — a única que sobrou — e ficou lá. Não como quem volta. Como quem carrega junto.


Foi a Dra. Elara Vance quem quebrou aquilo, porque ela é incapaz de deixar uma reunião se estender.

— Senhora, — ela chamou da cadeira de aço, com a voz ainda rasgada. — A senhora tem prensas?

Elena limpou o rosto com as costas da mão e se levantou. Virou jornalista em três segundos, e eu vi a coisa acontecer.

— Três. Duas offset e uma rotativa velha. Papel de baixa gramatura para tiragem alta.

— Capacidade diária?

— Doze mil exemplares de dezesseis páginas. Distribuição em onze assentamentos, mais rádio de onda curta duas vezes por dia.

A Vance ficou quieta um instante. Depois assentiu uma vez, com a satisfação seca de quem confere um número que fecha.

— Então funciona. — Ela apontou o queixo para as quatro toneladas. — Sessenta e um anos de admissões, com nome, data, número de contrato e assinatura de aprovação. Nada disso é opinião, senhora. É contabilidade. E contabilidade não se desmente com desmentido.

— Quanto tempo para digitalizar?

— Não digitalize. — A voz da doutora ficou dura. — No momento em que isso vira arquivo, vira apagável. Foi por isso que eu enterrei em papel. Imprima. Espalhe. Faça mil cópias ruins em vez de uma cópia boa.

Elena escreveu no caderno. Papel, caneta.

— E por onde a senhora começaria?

E aí a Dra. Elara Vance sorriu pela primeira vez desde que a gente abriu aquele vidro. Não foi um sorriso bonito.

— Pelas fichas de aprovação. — Ela ergueu a mão trêmula e apontou para uma caixa específica, na terceira pilha, marcada com fita vermelha. — Todo contrato de admissão sem assinatura do inquilino exige um segundo aval interno. Um nome que carimba, que valida, que autoriza. É um cargo júnior. Ninguém importante quer o próprio nome nesse papel.

Eu senti alguma coisa gelar na base da minha nuca.

— Doutora.

— Sessenta e um anos de fichas, inspetor. E, a partir do ano vinte e nove, todas elas trazem a mesma rubrica.

Elias já estava puxando a caixa. A fita vermelha rasgou. A primeira pasta abriu.

Papel amarelado. Datilografia. E, no canto inferior direito, na linha reservada ao segundo aval, uma rubrica pequena, apertada e absolutamente firme, repetida em milhares de páginas por seis décadas:

V. KRELL