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Capítulo 210: Roldanas e Sangue
A subida foi excruciante. Pendurado por um cabo tático fixado a um mosquetão enferrujado, balançava a quase seis metros do chão forrado por espinhos negros. O vento gélido sibilava através da estrutura metálica maciça, roubando o pouco de calor que me restava.
Elias já estava seguro na plataforma superior, puxado implacavelmente pelo braço mecânico de Valéria, que havia ancorado a corda em uma roldana emperrada. Agora era minha vez, e cada centímetro conquistado exigia um preço absurdo de dor.
O cinto tático mordia minha carne, mas era o esforço nos meus braços que estava me destruindo. Com o joelho esquerdo inútil balançando no vazio e as órteses das pernas rangendo como metal moribundo, dependia unicamente da força bruta da minha parte superior. Forcei o ombro ferido para sustentar o peso. Um grito abafado escapou dos meus lábios quando senti a bandagem encharcar com sangue quente de um músculo reabrindo.
— Gabo, o gancho principal está apresentando fadiga de material, — a voz de Valéria desceu do topo, isenta de pânico, em seu implacável Modo de Segurança. — A corrosão térmica comprometeu o pino mestre. Você precisa acelerar a subida, ou o sistema entrará em colapso catastrófico.
O cheiro de suor e sangue misturado com o ozônio me envolveu. Por um terrível segundo de vertigem e exaustão, as luzes da lanterna se distorceram, transformando o hálito frio no meu rosto em fumaça cinzenta e sufocante. A alucinação do tabaco ameaçou estrangular meus pulmões, o terror da velha fobia gritando na minha mente.
Eu não deixaria a mente me destruir antes do metal. Bati minha prótese brutalmente contra o eixo enferrujado ao lado do cabo. A dor lancinante enviou uma sacudida de choque puro pelo meu sistema. A alucinação sumiu como vidro quebrado.
— Puxa, Valéria! Puxa com tudo! — gritei.
Ela começou a girar a roldana emperrada. O cabo estalou. O som metálico angustiante de um eixo cedendo se misturou ao atrito infernal das minhas botas raspando no concreto vertical. Elias, apavorado, tentou ajudar segurando o final do cabo.
Meio metro. O gancho acima rangeu de forma doentia, pó de ferrugem chovendo nos meus olhos. O cheiro de ferro puro entrou no meu nariz, agudo, cru, ancorando-me na realidade de Baía Cinzenta.
Dez centímetros. Meus dedos agarraram a beirada da plataforma, esfolando a pele até a carne viva contra o piso de aço rasgado. O pino mestre do suporte soltou um lamento agudo e rompeu de vez.
Senti o chão sumir, mas o braço biônico de Valéria disparou para baixo como um dardo, segurando a alça do meu cinto com força brutal, impedindo minha queda fatal de volta para a geada letal. Com um puxão seco e cirúrgico, ela me içou e me atirou no piso de gradeamento estreito, onde rolei em exaustão cega.
Fiquei deitado de bruços, o peito arfando, cada respiração puxando ar gelado que esfaqueava meus pulmões. O sangue gotejava lentamente do meu ombro arruinado, manchando o metal podre, enquanto a dor latejava como um segundo coração furioso.
Elias estava encostado na parede, pálido, segurando as mãos trêmulas no próprio rosto.
— Você quase... ele quase rompeu todo, — o garoto murmurou, o choque estampado nos olhos arregalados.
— Funções vitais estabilizadas, embora apresentem risco de hipotermia grave e choque hipovolêmico por perda de sangue, — Valéria relatou friamente, inspecionando o abismo abaixo de nós, que havia acabado de engolir a estrutura colapsada.
— Tá... tá tudo bem, — eu disse, cuspindo no chão de metal e forçando os braços cansados a me empurrarem para cima. A dor era horrível, e eu nunca estive tão grato por ela. Estávamos vivos, longe da necrose espinhenta. — Vamos achar a saída dessa geladeira.