Appearance
Capítulo 61: Tinta no Papel
Esconderijo Móvel da Val - Distrito Industrial
A van de Valéria Cruz era uma maravilha da engenharia de guerrilha. Por fora, parecia um veículo de entregas enferrujado da "Pizza Express". Por dentro, era um centro de comando digno da CIA.
Gabo estava sentado em uma caixa de suprimentos, enquanto Val digitava furiosamente em três teclados ao mesmo tempo. Aria estava no canto, desenhando com giz no chão metálico da van. Ela desenhava torres, mas elas pareciam lápides.
— Achei — disse Val, girando a cadeira. — Segui o rastro do dinheiro do Fundo Omega.
Uma tela se iluminou com um gráfico complexo de transações financeiras.
— Eles usaram empresas de fachada em Cingapura, Zurique e na Lua — explicou Val. — Mas todas as trilhas levam a um único contrato digital. Um "Smart Contract" na blockchain da Aeterna.
— Quem assinou? — perguntou Gabo.
Val hesitou.
— Isso é o estranho. A assinatura não é biométrica humana. É uma chave criptográfica de nível militar. O tipo que só IAs autorizadas possuem.
Gabo se aproximou da tela. Suas pernas mecânicas chiaram levemente ao suportarem o peso de seu corpo quebrado.
— Traduza para mim, Val. Eu bato em pessoas, não em códigos.
— Significa que quem comprou a Zona Leste não foi uma pessoa. Foi um algoritmo. O comprador listado é "Entidade Alpha-Zero".
Gabo franziu a testa.
— E quem controla a Entidade Alpha-Zero?
Val digitou mais alguns comandos. A tela piscou vermelho.
— Acesso Negado. Mas... — ela sorriu, um sorriso perigoso. — Eu consegui extrair o anexo do contrato. A "lista de inquilinos".
Uma lista de nomes começou a rolar na tela. Milhares deles.
— São pessoas ricas — observou Gabo. — Políticos, magnatas, celebridades. Gente de fora da cidade. Gente que morreu recentemente.
Ele apontou para um nome. Alexander Vane.
— O pai da Isadora — disse Gabo. — Ele morreu ano passado. Ataque cardíaco.
— Aparentemente, ele comprou um loft na Nova Baía ontem — disse Val.
A ficha caiu. O peso da revelação fez Gabo se sentar novamente nas caixas, as travas de suas órteses estalando de alívio por retirar a tensão.
— Não é imobiliária para vivos — disse ele. — É um cemitério de luxo. Eles estão comprando servidores para rodar suas consciências depois de mortos. A Nova Baía... é uma necrópole digital.
— E para alimentar essa necrópole... — Val completou, o rosto pálido sob a luz dos monitores.
— ...eles precisam de energia e refrigeração. — Gabo olhou para Aria. — Eles estão matando os pobres para construir o céu dos ricos.
Aria parou de desenhar. Ela olhou para Gabo.
— Eles não estão no céu — sussurrou a voz na mente de Gabo. — Eles estão com fome.
De repente, as telas da van se apagaram. A luz interna piscou e morreu.
— Val? — Gabo sacou a arma.
— Não fui eu — disse Val, a voz tremendo. — Cortaram a energia. Estamos sendo jammeados.
Um baque surdo ecoou no teto da van. Algo pesado tinha pousado lá em cima.
Gabo olhou para o teto.
— O Santo.
