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Capítulo 78: O Jardim de Concreto

Zona Leste, Antigo Distrito Industrial - 10:00 AM

A luz do sol não perdoava. Antes, a chuva e o neon escondiam as cicatrizes de Baía Cinzenta. Agora, sob o brilho implacável da manhã, a cidade parecia um cadáver em decomposição avançada.

Mas algo estava errado.

Gabo estacionou o Cobalt, o metal azul fervendo sob o calor. Ele ajustou os óculos escuros, um hábito novo para olhos acostumados à penumbra eterna.

— Você disse que era uma ocorrência de vandalismo — disse ele, saindo do carro com um grunhido, suas órteses mecânicas rangendo e absorvendo o impacto no asfalto quente.

O Capitão Vilar estava parado diante de um antigo armazém da Aeterna Corp. Ele parecia exausto, o uniforme desbotado pelo suor.

— Era — respondeu Vilar. — Até entrarmos.

Gabo seguiu o capitão. A porta de metal estava retorcida, mas não por ferramentas hidráulicas ou explosivos. Parecia ter sido... esmagada de dentro para fora.

Ao entrarem, o ar mudou. Ficou úmido, pesado, com cheiro de terra molhada e decomposição doce.

— O que diabos... — Gabo parou.

O interior do armazém, antes um depósito de peças de servidores, era agora uma selva. Mas não uma selva normal. Trepadeiras grossas e cinzentas subiam pelas paredes, pulsando levemente. Flores negras, do tamanho de cabeças humanas, pendiam do teto, gotejando um líquido viscoso.

E no centro de tudo, uma árvore maciça havia rompido o concreto do chão. Seu tronco não era feito de madeira, mas de uma amálgama de cabos de fibra ótica fundidos com material orgânico, casca e osso.

— Meus homens encontraram dois saqueadores aqui — disse Vilar, apontando para a base da "árvore".

Gabo se aproximou. Os corpos não estavam apenas mortos. Eles estavam integrados. Raízes finas entravam por seus ouvidos, bocas e narizes, costurando-os ao tronco. Seus rostos estavam congelados em expressões de êxtase aterrorizante.

— Nise já viu isso? — perguntou Gabo, sentindo um arrepio que o sol lá fora não conseguiria curar.

— Ela está a caminho. Mas Aria... — Vilar hesitou. — Aria diz que isso não existe.

— Como assim?

— Os sensores da cidade dizem que este armazém está vazio. Temperatura ambiente, sem atividade biológica, sem consumo de energia. Para a Entidade, este lugar é um ponto cego.

Gabo tocou em uma das folhas cinzentas. Ela reagiu ao calor do seu dedo, enrolando-se como uma sensitiva, mas com a rapidez de uma armadilha. Ele puxou a mão a tempo.

— Não é só o assassino do hospital — murmurou Gabo. — A cidade inteira está rejeitando o implante. O sistema imunológico do planeta acordou. E ele nos vê como a infecção.

Um som ecoou no fundo do armazém. Algo se movendo entre as vinhas. Pesado. Úmido.

— Temos companhia — disse Vilar, sacando sua arma.

— Não atire a menos que seja necessário — avisou Gabo. — Acho que balas não vão funcionar contra o jardim.

Do meio da folhagem, uma figura emergiu. Humana, ou quase. Vestia trapos que um dia foram roupas de técnico da Aeterna. Sua pele estava coberta de musgo simbiótico.

— O silêncio... — coaxou a criatura, com uma voz que parecia sair de uma garganta cheia de lama. — Ele está crescendo.

E então, o ser caiu morto, uma flor negra brotando instantaneamente de seu peito aberto.