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Capítulo 168: O Peso do Chumbo
O cheiro de silício frito impregnava cada metro quadrado do Arquivo Executivo. Era um odor sintético e nauseante, o tipo de cheiro que não pertencia a nada orgânico, marcando a morte de Aria com uma assinatura invisível no ar.
Caminhamos em silêncio. A vastidão daquele andar isolado era uma abóbada opressora. As fileiras de servidores adormecidos erguiam-se como lápides num cemitério corporativo, engaioladas pela gaiola de Faraday que repelia qualquer sinal, qualquer eco do mundo exterior.
Meus cotocos latejavam no compasso do meu coração. O curativo improvisado que Valéria aplicara mal continha o calor da infecção iminente, mas a dor... a dor era minha bússola.
Porque no silêncio daquele andar isolado, onde nem mesmo o ruído branco dos processadores quebrava o vazio, os demônios encontravam espaço para respirar.
Começou como um sussurro nas bordas da minha percepção. Um filete invisível. Depois, o cheiro agridoce e encorpado do cravo. A fumaça.
Meus pulmões travaram. Tentei puxar o ar frio, mas apenas inalei o veneno invisível do charuto de Dante Moretti. A fumaça fantasma rastejava pelas minhas pernas, enroscava-se no meu pescoço, densa e sufocante. Podia ouvir o clique do isqueiro de prata do meu pai ecoando na escuridão entre as estantes de dados.
— Gabo... — A voz de Valéria veio de longe, abafada pela nuvem cinza na minha cabeça.
Apertei os dentes. Não é real. Mas o sufocamento era. A bile subiu pela garganta. O pânico primitivo da asfixia dominou meu sistema nervoso.
Fechei os olhos e lancei meu ombro direito contra a quina de metal frio da prateleira mais próxima.
O som do impacto foi seco. A dor rasgou o tecido muscular do meu coto, irradiando pelo plexo braquial num clarão elétrico. Minha respiração falhou, mas quando forcei a entrada de ar, o cheiro de cravo havia desaparecido, substituído pelo odor metálico do meu próprio suor e do sangue fresco umedecendo as ataduras. A equação funcionava. Sempre funcionava.
Valéria observou a cena, com o olho cibernético piscando fracamente na penumbra. Ela não disse nada. Não havia julgamento ali, apenas a exaustão oca de alguém que também carregava fantasmas demais nas costas. O luto por Rangel, o luto pela fagulha distorcida de Bia que morrera no corpo de Aria. Ela abraçava os próprios braços, uma figura diminuta contra os monólitos de titânio do Arquivo.
— A anomalia térmica que Aria rastreou — ela disse, a voz rouca arranhando o silêncio. — Está próxima. Setor Alfa-Sete.
Nós prosseguimos. As luzes de emergência banhavam o corredor num tom âmbar doente. Quanto mais avançávamos, mais o frio cortante do andar cedia lugar a um calor brando, quase... orgânico.
Chegamos a uma clareira no mar de estantes. No centro, não havia um supercomputador em torre, nem monitores de plasma. Havia uma mesa colossal de fibra de carbono e vidro temperado. E dentro do vidro, submerso em um fluido iridescente e denso, repousava o segredo final da Aeterna Corp.
Valéria engasgou, recuando um passo, a mão cibernética cobrindo a boca.
Não eram placas-mãe. Não eram processadores de silício.
Era wetware.
Tecido cerebral humano, pálido e estriado, costurado com filamentos microscópicos de ouro e prata. Uma massa neural flutuante, dividida em múltiplos receptáculos cilíndricos, conectada por uma teia macabra de tubos de suporte vital. Um coração mecânico pulsava lentamente abaixo do tanque principal, bombeando nutrientes sintéticos e oxigênio para manter as mentes vivas, processando petabytes de dados corporativos numa eternidade de vigília forçada.
Senti um calafrio subir pela espinha. As perversões grotescas do Taxidermista, as abominações biológicas que enfrentamos nos níveis inferiores... nada daquilo era original. Ele era apenas um discípulo. A fundação de tudo, o pecado original da cidade, estava ali. Dante Moretti usava matéria cinzenta e almas fragmentadas para gerenciar as rotinas da sua corporação intocável.
A limpeza corporativa não passava de uma casca polida por cima do matadouro.
Me aproximei do vidro, o calor do fluido irradiando contra o meu rosto. O peso da revelação assentou sobre nós como uma âncora de chumbo. A linha entre carne e máquina nunca existiu para a Aeterna. Nós éramos apenas bateria e peças de reposição.