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Capítulo 195: O Sangue nas Engrenagens

A válvula de meia tonelada cedeu com um gemido metálico agudo, ecoando pelo fosso como uma besta ferida. A escotilha de descompressão se abriu, revelando as entranhas escuras dos dutos de refrigeração secundários. Um vento gélido soprou de lá, cheirando a zinco molhado, ozônio velho e lodo calcificado, não a fumaça de charuto. Era um alívio temporário, mas caro.

Soltei o aro de aço incrustado de ferrugem. O braço direito pendeu inútil ao meu lado. Cada batimento cardíaco enviava uma onda de agonia latejante através do ombro, onde a musculatura havia rasgado sob o torque bruto da prótese hidráulica não calibrada. O líquido rubro e quente começou a ensopar a manga da minha jaqueta sintética, misturando-se ao óleo hidráulico que vazava do meu cotovelo cibernético danificado.

— Rota liberada, — murmurei, a voz ríspida, raspando na garganta seca. Puxei uma respiração superficial, testando os limites da minha própria miséria. A dor era aguda, radiante e absolutamente perfeita. Era um farol no meio do nevoeiro mental, empurrando a maldita fumaça fantasma de volta para o abismo escuro da minha cabeça.

Elias olhava para o meu ombro sangrando com os olhos arregalados de um vira-lata que acabou de ver alguém mastigar vidro. Ele recuou, piscando freneticamente. — Você é louco, cara. Completamente quebrado. Você não vai aguentar engatinhar quilômetros de duto sangrando desse jeito. Os "catadores" que vivem no Nível C vão farejar isso.

Valéria interrompeu a histeria com a precisão implacável de um metrônomo. — Análise de fluido vital: Gabo perdeu aproximadamente novecentos mililitros de sangue. A taxa de coagulação natural é insuficiente. Recomendo cauterização imediata com os fios desencapados do conduíte central para evitar falência sistêmica durante o trajeto.

Ela não demonstrou preocupação. Os olhos dela não tinham espaço para empatia, apenas apontavam uma falha mecânica no equipamento avariado que eu era.

— Não temos tempo, — rosnei, me arrastando para a entrada do duto circular. O metal sujo congelou a palma da minha mão não biológica. O chão sob nossos pés vibrava levemente; o inferno do Jardim ainda devorava o andar inferior e a temperatura do fosso subia rápido. — Se eu cauterizar, a dor diminui. Eu preciso da dor.

Elias hesitou na borda. — E se a gente ficar aqui e tentar barrar a porta? Talvez o fogo não passe. — A transferência térmica pelo metal derreterá suas terminações nervosas em doze minutos, — respondeu Valéria. — Probabilidade de sobrevivência estática: 0%. Probabilidade de sobrevivência em movimento contínuo: 12.4%. Avance, Elias.

Ele engoliu em seco, derrotado pela matemática, e rastejou para o tubo escuro depois de mim. Valéria fechou a marcha, seus movimentos precisos e eficientes.

O interior do duto era um pesadelo claustrofóbico. Tubos menores de condensação se enroscavam pelas paredes como veias doentes em um cadáver industrial. A escuridão era quase sólida, quebrada apenas pela pálida e fria luz tática dos implantes oculares de Valéria, projetando sombras alongadas e distorcidas que dançavam sobre as poças de água ácida estagnada.

Rastejar com um braço inútil e uma perna mecânica cujas articulações rangiam com areia e ferrugem não era movimento, era penitência. Arrastei meu corpo polegada por polegada, usando a prótese pesada e desligada apenas como um peso morto que eu empurrava cegamente, focado em forçar o ombro dilacerado contra o aço frio cada vez que o espectro do trauma ameaçava voltar.

Sempre que a temperatura aumentava levemente devido ao vapor remanescente do condensador, ou quando a luz da lanterna de Valéria piscava no lodo, minha mente tentava evocar a silhueta de Dante. O cheiro enjoativo do charuto começava a preencher meus pulmões num espasmo asfixiante de pânico. O ar faltava. E então, eu impulsionava todo o meu peso sobre o braço direito estraçalhado.

O ombro rasgado guinchava e minha visão borrava em vermelho, a pura e crua biologia rompendo o véu da alucinação sintética e psicológica. A dor me ancorava de volta ao cheiro real de mofo, óleo e lixo industrial.

— Seu ritmo caiu quarenta e dois por cento, — informou Valéria lá de trás, sua voz ressoando de forma abafada no tubo estreito. — Os tremores em seu tronco indicam choque neurogênico incipiente devido aos repetidos estímulos dolorosos autoinfligidos.

— Continua calculando, Valéria, — murmurei, engasgando com o próprio suor que escorria pelo meu rosto sujo. — Só me diz a que distância estamos.

— Trezentos metros da junção de exaustão principal para o Setor 6. Há uma queda de pressão barométrica adiante. O duto deve desembocar nas catacumbas de serviço da infraestrutura legada, logo abaixo do Distrito Comercial.

Elias resmungava atrás de mim, algo ininteligível sobre maldições e o colapso iminente das fundações. O cheiro de medo puro e suor azedo que emanava dele se misturava ao meu sangue e óleo queimado.

O mundo subterrâneo da cidade era um vasto cemitério de máquinas mortas e fios rompidos, e nós éramos apenas fantasmas rastejando por suas entranhas de aço, tentando encontrar uma fresta de luz antes que fôssemos enterrados de vez na escuridão.