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Capítulo 84: A Primeira Colheita
Estação de Metrô Linha Vermelha - 11:30 AM
O trem maglev estava parado no meio do túnel, suspenso a poucos centímetros do trilho magnético inativo. As luzes de emergência banhavam o cenário em um vermelho intermitente, criando sombras dançantes que pareciam vivas.
Gabo forçou a abertura das portas do vagão. O cheiro era insuportável: uma mistura de ozônio queimado e carne crua.
— Fiquem juntos — ordenou Vilar, sua lanterna tática cortando a escuridão.
O túnel, antes um tubo limpo de concreto e aço, parecia agora o esôfago de uma besta colossal. As paredes pulsavam. "Veias" grossas e translúcidas, transportando um fluido luminescente amarelado, cobriam a fiação elétrica.
— Onde estão os passageiros? — perguntou Nise, a voz abafada pela máscara de gás.
Eles avançaram pelos trilhos. Mais à frente, encontraram o primeiro.
Um homem de terno, ainda segurando uma maleta. Mas seus pés não tocavam o chão. Ele estava fundido à parede do túnel. Vinhas de metal e carne saíam de suas costas, prendendo-o ao concreto como uma mosca em uma teia. Seu rosto estava calmo, os olhos abertos vendo algo que ninguém mais via.
— Ele está... vivo — sussurrou Val, escaneando os sinais vitais. — O coração bate a 10 batimentos por minuto. Metabolismo em estase completa. Ele está sendo nutrido pela parede.
— Nutrido ou drenado? — perguntou Gabo.
— Ambos. É uma simbiose forçada.
Mais à frente, a cena se repetia. Dezenas, talvez centenas de pessoas. Mulheres, crianças, idosos. Todos capturados pelas raízes biomecânicas, integrados à arquitetura do túnel. Eles formavam uma galeria grotesca de estátuas vivas.
— Por que não matá-los? — perguntou Vilar, horrorizado. — Por que mantê-los assim?
— Processamento — disse Gabo, sentindo um calafrio na espinha. — A Torre Aeterna caiu. O servidor central se foi. "Eles" precisam de um novo processador.
— Cérebros humanos — concluiu Nise, enjoada. — Eles estão usando as pessoas como nós de uma rede neural biológica.
De repente, um som percorreu o túnel. Não um som mecânico, mas um suspiro coletivo. As centenas de pessoas presas nas paredes abriram a boca ao mesmo tempo.
— O... Sol... Negro... — elas sussurraram em uníssono.
A vibração do som fez as veias nas paredes brilharem mais forte. O túnel estremeceu.
— Temos que sair daqui! — gritou Vilar.
Raízes explodiram do chão, tentando agarrar suas pernas. Gabo cravou os pés mecânicos com força no chão, resistindo ao tranco das órteses, e disparou, cortando um tentáculo que se enrolava no tornozelo de Nise. O tentáculo gritou e sangrou óleo preto.
Eles correram de volta para a plataforma da estação, enquanto o "coro" das vítimas aumentava de volume, transformando-se em um grito psíquico que ecoava não nos ouvidos, mas dentro do crânio.
