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Capítulo 24: A Galeria dos Deformados

O cheiro não era apenas de esgoto. Era um cheiro químico, doce e podre, como flores em decomposição e carne queimada.

Eles caminhavam pelos túneis da Fundação há uma hora. A água escura batia em suas canelas. Valéria guiava o caminho com a luz do seu deck, projetando o mapa tridimensional que roubaram de Miranda.

— Estamos perto — sussurrou ela. — A entrada de serviço da Torre fica logo após a câmara de tratamento antiga.

— Por que está tão quieto? — perguntou Elena. Ela segurava uma pistola que Gabo lhe dera, segurando-a com as duas mãos, tremendo levemente.

Gabo parou. Ele ergueu o punho.

— Porque não estamos sozinhos.

Ele apontou a lanterna da escopeta para as paredes.

Não eram tubulações.

Eram corpos.

Dezenas deles. Embutidos nas paredes de concreto, fundidos com a alvenaria. Alguns tinham partes mecânicas grosseiras substituindo membros. Outros tinham o peito aberto, expondo órgãos que pulsavam com uma luz bioluminescente fraca.

— Meu Deus — Elena cobriu a boca.

— Arte — disse uma voz vinda da escuridão. Uma voz aguda, arranhada, polida.

Gabo girou, apontando a "Caronte".

Uma figura emergiu das sombras no final do túnel. Usava um avental de couro pesado, manchado de óleos escuros. Óculos de joalheiro brilhavam em seus olhos.

O Taxidermista.

— Gabriel Moretti — disse ele, fazendo uma reverência teatral. — E a pequena Valéria. E a Sra. Moretti. Que honra. Raramente recebo convidados de tal... qualidade.

— Sai da frente — rosnou Gabo.

— Sair? Mas a exposição mal começou. — O Taxidermista estalou os dedos longos e finos.

Nas paredes, os "corpos" abriram os olhos. Olhos de vidro, olhos de câmera, olhos vazios.

Eles começaram a se soltar do concreto. A carne rasgando, o metal rangendo.

— Meus "Lázaros" — explicou o Taxidermista, com orgulho paternal. — A droga mata a mente, mas o corpo... o corpo é tão resiliente. Com um pouco de relojoaria e a tecnologia certa, eles se tornam... úteis.

As criaturas avançaram, um coro de gemidos e metal rangendo.

— Fogo! — gritou Gabo.

O túnel explodiu em som e fúria. O primeiro disparo da "Caronte" desintegrou uma das abominações. Mas elas continuavam vindo, indiferentes.

— Val, a porta! Agora! — gritou Gabo, recarregando.

— Estou tentando! O mecanismo é antigo, está quase fundido! — Valéria estava conectada a um painel na parede, seus dedos dançando sobre o holograma de seu deck.

Elena disparou sua pistola, os tiros soando como estalidos perto do rugido da escopeta. Ela acertou um atacante no pescoço, mas ele apenas cambaleou.

— Na cabeça, Elena! O cérebro ainda comanda os motores! — instruiu Gabo, disparando novamente.

O Taxidermista ria, uma cacofonia aguda que cortava o barulho da batalha.

— Magnífico! A luta pela sobrevivência! A pura textura do medo!

De repente, Valéria parou de hackear. Ela se virou, não para a porta, mas para o Taxidermista. Seus olhos de prata, normalmente frios e analíticos, queimavam com uma fúria que Gabo nunca vira.

— Você... — ela sibilou, a voz tremendo de raiva. — Esses atuadores... os circuitos de feedback... são meus.

O Taxidermista inclinou a cabeça, um sorriso se espalhando por seu rosto fino.

— Ah, a pequena Valéria. Sim. Seus projetos iniciais de próteses neurais eram... inspiradores. Um pouco ingênuos, claro. Focados em curar. Eu vi o verdadeiro potencial. Em controlar.

— Você os perverteu! — gritou Valéria. — Você pegou minha tentativa de dar vida e a usou para criar escravos! Marionetes de carne podre!

— A arte exige sacrifício! — retrucou o Taxidermista. — E matéria-prima. Você deveria se sentir honrada. Sua tecnologia, minha visão. Juntos, criamos... a galeria perfeita.

Por um segundo, Gabo temeu que Valéria fosse atacá-lo. Mas em vez disso, ela se virou para o painel, um novo tipo de determinação em seu rosto.

— Aberto! — ela gritou, quando a porta blindada atrás deles finalmente começou a se erguer com um gemido de metal torturado.

— Entrem! — ordenou Gabo.

Elena e Valéria passaram por baixo da porta semi-aberta.

Gabo se virou para o Taxidermista. O assassino estava parado, admirando a cena.

— Você é um desperdício de peças, Moretti.

Mas foi Valéria quem respondeu. Ela parou do outro lado da porta, o rosto contorcido de ódio.

— Isso não é arte! — gritou ela, sua voz ecoando pelo túnel. — Você pegou o meu código, a minha pesquisa para curar paralisia, e transformou nisso? Monstros de Frankenstein movidos a bateria? Você não é um artista. Você é um vírus! E eu sou o antivírus.

Ela digitou um comando final no painel. A porta blindada desceu com o dobro da velocidade, esmagando o braço mecânico de um Lázaro que tentava passar.

Gabo puxou uma granada de fragmentação.

— Crítica dura — disse ele. — Aqui vai a minha.

Ele lançou a granada. O Taxidermista arregalou os olhos. Gabo mergulhou sob a porta que se fechava.

A explosão sacudiu as fundações da cidade. O túnel atrás deles colapsou, soterrando a "galeria" e seu criador.

Do outro lado, Gabo se levantou. Elena estava pálida, mas assentiu. Valéria, no entanto, tremia de raiva, os punhos cerrados.

— Ele usou meu trabalho — ela sussurrou, a voz cheia de veneno. — Ele pegou algo que eu criei para ajudar e transformou em um pesadelo.

Gabo colocou a mão em seu ombro.

— É por isso que temos que parar tudo isso, Val. Não é só sobre meu pai. É sobre impedir que monstros como ele continuem a existir.

Eles estavam em um corredor limpo, branco, estéril. O ar era frio e cheirava a nada.

— Bem-vindos à Aeterna — disse Gabo, a voz sombria. — O cheiro de merda acabou. Agora começa o cheiro de sangue e dinheiro.