Appearance
Capítulo 230: A Conta Antiga
Enterramos o Duarte às quatro da tarde, num terreno atrás do galpão, porque não havia mais cemitério e nem quem administrasse um.
A irmã dele chegou de Setor 9 no fim do dia. Tinha dezenove anos e veio a pé. Ficou olhando o monte de terra por muito tempo, e depois perguntou à Elena se o irmão tinha morrido fazendo alguma coisa importante, e a Elena disse que sim, e não era mentira, e mesmo assim eu tive que sair de perto.
Fiquei no pátio até escurecer, olhando a marca que a cinta laranja deixou na grade.
O cheiro não saía. Não era o do rapaz — era o dele: sabão industrial e água parada, um odor de lavanderia de presídio que ficou grudado no ferro do portão e que o vento do canal não levava. Cada vez que a brisa virava, vinha de novo, azedo e limpo ao mesmo tempo, e o gosto disso descia pela garganta e assentava como moeda velha na língua.
Ao longe, as prensas continuavam batendo. Tchunc-tchunc-tchunc. O mundo imprimindo a acusação de um homem enquanto o filho de outra mulher esfriava embaixo de uma lona.
A Elena veio quando as prensas pararam.
Sentou no cascalho, do meu lado, com dois copos e uma garrafa de alguma coisa que tinha sido uísque em outra vida. Serviu os dois. Não me entregou o meu; deixou no chão, ao meu alcance.
— Fala.
E eu falei.
— Barraco setenta e um. Vinte e três de agosto. Eu era o inspetor de plantão e cheguei quarenta minutos depois do chamado.
Peguei o copo. Não bebi.
— A Cleuza Braga estava no chão da cozinha, entre o fogão e a mesa. Trinta e quatro anos. Ele tinha usado uma chave de grifo de vinte e quatro polegadas, dessas de encanador, e depois sentou na cadeira e esperou a viatura chegar. Nem lavou a mão.
— Ele confessou na hora?
— Confessou três vezes. Na cozinha, na viatura e na delegacia. — Tomei um gole. Ardeu como querosene. — E aí veio a enchente de setembro. O depósito de perícia do Distrito Baixo ficou com um metro e meio de água por três dias. Perdemos duzentos e onze processos. O dele foi um.
— A confissão não valia?
— Não tinha advogado presente e ele estava embriagado. Anulada. — Dei de ombros com o ombro que ainda funciona. — Sobrou a vizinha. Dona Zélia, do setenta e três, que viu ele entrar com a chave de grifo na mão. Ela ia depor.
— E?
— O Sindicato controlava a vila. Alguém explicou pra ela como funcionava. Ela voltou atrás na véspera, disse que tinha se confundido, que era outro homem, que estava escuro. — Olhei para o copo. — E aí não sobrou nada. Nem prova material, nem confissão válida, nem testemunha. Ele ia sair em quinze dias, Elena. Um homem que matou a esposa com uma chave de grifo ia sair andando e voltar para a mesma vila onde estava a filha de quatro anos dele.
— Então você plantou a faca.
— Então eu plantei a faca.
Falar em voz alta foi mais fácil do que eu imaginei em catorze anos de ensaio, e isso me deixou pior.
— Peguei uma faca de cozinha da casa dele, do escorredor, na noite da perícia. Passei nela o sangue do laudo velho, que ainda estava na câmara fria porque o depósito de amostras ficava no segundo andar e o segundo andar não alagou. Coloquei na caixa d'água. E na segunda busca eu mandei o perito subir no telhado.
— Você mandou o perito subir no telhado.
— Eu disse que era procedimento padrão em barraco de laje. — Ri, e o som saiu horrível. — Não é. Ninguém nunca subiu num telhado numa segunda busca na história dessa polícia.
Elena ficou olhando para a frente.
— Quantos anos ele pegou?
— Vinte e dois. Cumpriu catorze.
Ela demorou muito para falar de novo.
— Gabo, eu preciso perguntar uma coisa e você vai odiar a pergunta.
— Pergunta.
— Você fez isso outras vezes?
E essa foi a que doeu.
— Não. — Olhei para ela. — Uma vez. Uma vez só, em dezoito anos de polícia, e eu escolhi bem, e é isso que torna a coisa pior.
— Por que pior?
— Porque se eu tivesse feito trinta vezes, eu seria um policial corrupto e a conta seria simples. — Bebi o resto. — Eu fiz uma vez, num caso em que eu tinha certeza absoluta, contra um homem que confessou três vezes e era culpado sem sombra de dúvida. Se existe alguma vez em que valia a pena, era essa. Era o melhor caso possível para se cruzar aquela linha.
Deixei o copo no chão.
— E olha onde a gente está.
— A Bia descobriu, — Elena disse. Não era pergunta.
— A Bia era boa. Boa de verdade, não boa de discurso. — Fechei os olhos. — Ela pegou o inquérito seis anos depois, num arquivamento de rotina, e viu que a data do laudo de sangue era anterior à data da apreensão da faca. Um erro de dois dias que ninguém nunca ia notar, porque ninguém lê inquérito arquivado.
— Ela te confrontou.
— Numa lanchonete na Rua Ferrugem, com o inquérito em cima da mesa, entre o café dela e o meu. — Eu conseguia ver a mesa. Ainda consigo. — Ela não gritou. A Bia nunca gritava. Ela disse: "Você tem uma semana para levar isso à Corregedoria. Se você levar, eu vou com você e eu falo por você."
— E você não levou.
— Eu não levei.
— Por quê?
— Porque eu tinha razão. — A palavra saiu como pedra. — Porque o homem era culpado, Elena, e ele ia sair, e a filha dele estava naquela vila, e eu passei a semana inteira construindo o argumento de que estar certo é mais importante que estar limpo. E no sétimo dia eu tinha o argumento pronto e ele era perfeito e eu acreditei nele.
— E ela terminou com você.
— Ela terminou comigo. — Engoli. — E seis meses depois o Miranda matou ela num galpão, e todo mundo, incluindo eu, passou quinze anos achando que o que quebrou o Gabriel Moretti foi a morte da Bia.
Olhei para a Elena.
— Não foi. O que quebrou foi ela ter morrido antes de eu ter a chance de fazer a coisa certa. Enquanto ela estava viva, eu ainda podia me entregar um dia. Quando ela morreu, virou segredo permanente. E aí eu tive que virar o cara que estava certo, para sempre, porque a alternativa era ser o cara que perdeu a mulher e mentiu.
A Valéria apareceu na porta do galpão. Ficou lá, sem entrar, com aquela imobilidade absoluta.
— Você ouviu tudo, — falei.
— Ouvi.
— E?
— Estou processando a implicação operacional.
— Fala em português, Val.
Ela entrou. Parou a dois metros.
— Eu revi meus registros dos últimos quatro anos com essa informação nova, — ela disse. — Em onze ocasiões você recusou atalhos que teriam salvado tempo e reduzido risco. Eu classifiquei essas recusas como ineficiência moral e as registrei como custo. — Uma pausa. — Elas não eram ineficiência. Você estava evitando repetir isso.
Eu não tinha resposta.
— Isso muda a sua avaliação sobre mim?
— Muda o modelo, não a avaliação. — Nenhuma inflexão. — Você é mais previsível do que eu calculava, e mais caro. Ambos são úteis de saber.
Ela olhou para o portão. Para a marca da cinta na grade.
— O problema tático permanece o mesmo. O sujeito Braga não pode ser preso, não pode ser comprado, não pode ser dissuadido, e anunciou cronograma. Amanhã às onze ele cobra do Elias.
— Eu sei.
— Você vai ao portão.
— Vou.
— A probabilidade de você resolver isso sem matá-lo é—
— Não me diz o número.
Ela fechou a boca.
A Dra. Elara Vance falou do escuro, e eu tinha esquecido que ela estava ali.
— Inspetor.
— Doutora.
A cadeira de aço rangeu quando ela se aproximou até a beira da luz.
— O senhor passou dois dias me olhando como quem olha lixo, — ela disse. — Porque eu assinei um memorando dizendo que uma coisa indefensável devia ser feita em escala, já que ia ser feita de todo jeito.
— Doutora, agora não.
— Agora exatamente. — A voz dela não subiu, mas ficou dura. — O senhor plantou uma faca porque tinha certeza. Eu recomendei escala porque tinha certeza. Nós dois olhamos para uma regra, achamos que sabíamos mais que ela, e cobramos a diferença dos outros.
Ela deixou aquilo assentar.
— A única distinção entre nós é a quantidade de zeros. E eu, ao contrário do senhor, não passei catorze anos fingindo que a distinção era de natureza.
Elena olhou para mim.
Eu não consegui olhar para ela.
— O senhor vai ao portão amanhã, — a Vance continuou. — E vai encontrar um homem que construiu a vida inteira em cima de uma frase verdadeira. Não subestime isso, inspetor. Gente com uma frase verdadeira é a coisa mais difícil de matar que existe.