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Capítulo 193: O Ermitão de Cobre
A Subestação B era um mausoléu de transformadores gigantes e cabos da espessura de troncos de árvores, mergulhada em uma escuridão gélida que contrastava com o inferno que tínhamos acabado de escapar. O único som era o gotejar lento de condensação e o chiado elétrico ocasional vindo de painéis avariados.
Arrastei-me pelos corredores estreitos, me escorando na parede. Meu joelho esquerdo era uma massa latejante de carne rasgada e metal exposto. Cada passo enviava um raio de dor lancinante pela minha perna, mas eu precisava daquela dor. Ela era a âncora que mantinha minha mente aqui, na umidade fria do concreto, e não sufocando no perfume fantasma do charuto de cravo de Dante. A fumaça alucinatória recuava para as bordas da minha percepção sempre que o atrito do aço da órtese mordia meu osso.
Valéria caminhava um passo à frente, sua silhueta recortada pela fraca iluminação de emergência. Seu modo de segurança a tornava eficiente, silenciosa e totalmente desprovida de empatia.
— Ritmo cardíaco do sujeito apresenta arritmia crítica. Risco de choque por trauma físico iminente, — ela reportou, sem virar a cabeça. A voz era pragmática até o osso. — Sugiro pausa para estabilização, caso a mobilidade total não seja um requisito tático imediato.
— Continua andando, — eu grunhi, cuspindo sangue no chão imundo. — Se eu parar, o cheiro volta. E se o cheiro voltar, eu morro.
Ela não contestou. Não havia emoção para ofender.
Navegamos pelas galerias de alta tensão até um ruído anômalo quebrar o silêncio fúnebre. O som rítmico e mecânico de uma válvula de vapor desregulada. Viramos um corredor estreito formado por geradores inativos e encontramos uma barricada improvisada. Placas de ferro-velho, telas de terminal apagadas e carcaças de servidores mortos empilhados formavam um ninho de rato cibernético.
No meio do caos, iluminado por um reator portátil que emitia uma luz azulada doentia, estava um homem.
Ele era pequeno, esquelético, vestido com um traje de manutenção tão desgastado que parecia se fundir à sua pele pálida. Uma máscara de respiração acoplada a cilindros de ar improvisados pendia de seu pescoço. Seus olhos estavam esbugalhados, movendo-se freneticamente entre mim e Valéria. Ele segurava uma chave de fenda sônica como se fosse uma faca de combate.
— Um passo a mais e eu frito o circuito no chão! — a voz dele rachou, aguda e carregada de pânico, o sotaque dos níveis inferiores mastigando as palavras. — Eu não sou bio-bateria! O Jardim não vai me levar!
Parei, o peso deslocado para a perna boa, o braço industrial inútil e centelhando ao meu lado.
— Acalme-se, — Valéria declarou. A voz dela não tinha inflexão calmante, era apenas uma diretriz. — Não somos vetores de infecção biológica do Jardim. O núcleo térmico principal foi purgado.
O homem arregalou ainda mais os olhos. — Purgado? Mentira! Ninguém desce no Arquivo e volta respirando. Ninguém!
A adrenalina e a dor me deixavam impaciente. Apertei a mandíbula até os dentes estalarem. Aquele cheiro adocicado de charuto ameaçou rastejar pelo fundo da minha garganta novamente. Imediatamente, bati o punho da minha prótese avariada contra o concreto da parede. A dor no meu ombro descalibrado irradiou como um trovão, esmagando a alucinação sufocante e me devolvendo ao foco frio do presente.
— Nós não somos 'ninguém', — eu disse, a voz rouca, o olhar cravado nele com o cinismo pesado de quem já atravessou o inferno duas vezes. — Meu nome é Gabo. A máquina falante ali é Valéria. Nós destruímos o forno lá embaixo. Agora abaixa essa ferramenta antes que eu quebre seus dedos um por um.
O homem hesitou, a chave sônica tremendo na mão suja de graxa. Ele avaliou meu estado deplorável: coberto de sangue e fuligem orgânica, peças de metal dependuradas, parecendo mais um cadáver reanimado do que um salvador. Então, ele olhou para Valéria, limpa e imóvel como uma estátua digital.
Lentamente, ele abaixou a ferramenta.
— Elias... — murmurou, limpando o suor da testa com as costas da mão. — Eu me chamo Elias. Estive trancado aqui desde que os cadáveres começaram a andar. Eu... eu estava monitorando os picos térmicos. Vocês realmente derreteram aquela desgraça?
— Até a última engrenagem, — eu confirmei.
Valéria processou as informações em uma fração de segundo. — Elias, você possui conhecimento arquitetônico do Nível B? Nossa prioridade atual é estabelecer uma rota segura de evacuação vertical em direção à superfície.
Elias sorriu, um sorriso nervoso, revelando dentes podres e amarelados, mas incrivelmente desprovido do cheiro de fumaça que tanto me aterrorizava.
— Evacuação? — Ele riu, uma risada seca e desesperada. — Amigos, não há mais 'para cima'. O colapso que vocês causaram no Arquivo... ele desestabilizou os suportes da torre primária de exaustão. Os elevadores magnéticos estão todos mortos.
A dor no meu joelho latejou de novo. Deixei o sangue escorrer e pingar no chão, aceitando a agonia crua. Pelo menos a dor era minha. O Jardim, e seus fantasmas sufocantes de charuto, podiam queimar no inferno que criamos.
— Sempre há um jeito para cima, Elias, — respondi, apoiando o ombro bom contra uma viga. — Você só precisa decidir se vai nos mostrar, ou se vai ficar aqui esperando a ferrugem te comer vivo.