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Capítulo 32: O Vazio do Silêncio

Descer 28 andares de escada com uma perna quebrada e carregando uma pessoa ferida é um tipo especial de inferno. Gabo já não sentia o joelho; a adrenalina e a dor tinham se fundido em um zumbido branco e furioso em sua mente.

A escadaria era um pandemônio. Pessoas gritavam, empurravam, tropeçavam na escuridão quase total, quebrada apenas por flashes de celulares e lanternas de emergência fracas.

— Saiam da frente! — gritava Elena, usando a coronha da pistola para forçar passagem. — Polícia!

A palavra não significava mais nada. O pânico era a única autoridade ali.

No 15º andar, a multidão parou, espremida contra as portas corta-fogo. Trancadas eletronicamente. Mortas.

— Estamos presos! — gritou uma mulher, a voz estridente de pavor. — Vamos morrer aqui!

— Afastem-se! — rugiu Gabo.

Ele colocou Val no chão com cuidado. Mancou até a porta. As dobradiças eram internas, o painel eletrônico, inútil.

— Elena, a "Caronte" — pediu ele, estendendo a mão.

— Sem munição — lembrou ela.

— Não preciso de balas. Preciso de uma alavanca.

Gabo encaixou o cano da escopeta na fresta da porta. Elena o ajudou. Juntos, fizeram força, os músculos tensos. O metal gemeu em protesto.

— Um... dois... TRÊS!

A porta cedeu com um estalo metálico, abrindo uma fresta estreita. A multidão avançou como uma onda, quase esmagando-os.

— Calma! — gritou Gabo, agarrando um executivo pelo colarinho e o jogando para trás. — Comportem-se como gente!

Eles esperaram o fluxo diminuir antes de pegar Val e continuar a descida.

Quando finalmente alcançaram o térreo, o saguão da Aeterna Tower era uma cena de apocalipse. As portas de vidro estavam estilhaçadas. A rua, uma massa de gente confusa e desorientada. Carros autônomos, agora tijolos inúteis, bloqueavam a via, suas buzinas presas em um lamento eletrônico que logo silenciou.

Mas o mais assustador não era o caos visual. Era a ausência de som.

O "Ruído", aquele zumbido onipresente de dados, tráfego e vida eletrônica que todos haviam aprendido a ignorar, desaparecera. O silêncio que ficou não era paz. Era um vácuo. Um vazio sensorial tão profundo que causava vertigem física, uma tontura violenta nos ouvidos acostumados à pressão constante da Rede.

Ao redor deles, pessoas caíam de joelhos, vomitando. Não era apenas medo. Era abstinência. O labirinto de seus ouvidos, acostumado com a pressão constante, estava em colapso.

— O Ruído parou — disse Val, segurando a cabeça com as duas mãos, balançando. — Gabo... o mundo está girando.

— Respirem! — ordenou Gabo, embora ele mesmo sentisse o chão inclinar. — É só o silêncio. Vocês nunca ouviram o silêncio antes. Ele é pesado.

E havia outro silêncio, mais pessoal e perturbador. O espaço que Aria ocupava em sua mente era agora um buraco negro de estática. Sem rede, sem a voz sarcástica dela. Pela primeira vez em anos, Gabo estava verdadeiramente sozinho dentro da própria cabeça.

Gabo sentiu a própria bile subir. Ele se apoiou em um pilar, respirando fundo, lutando contra a tontura. Olhou para a rua escura e chuvosa.

— Estamos perdidos — corrigiu ele. — E agora a verdadeira selva começa.

Um tiro ecoou na escuridão, seguido por gritos agudos. O saque já havia começado.

— Precisamos sair da avenida — disse Gabo, recuperando o equilíbrio. — Becos. Conheço o caminho para o metrô abandonado.

Eles mergulharam na sombra, deixando a torre moribunda e a cidade nauseada para trás.