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Capítulo 103: A Convergência
Zona de Exclusão Sul - O Núcleo do Berçário
O túnel desembocou em uma caverna vasta, uma catedral invertida escavada na rocha e reforçada com aço e biomassa. O ar era denso, quente e úmido, cheirando a ozônio e sangue coagulado.
No centro da câmara, suspenso sobre um abismo de escuridão insondável, estava o "Ventre". Uma esfera colossal de vidro e metal, pulsando com uma luz âmbar rítmica. Dentro dela, flutuando em fluido amniótico sintético, estava um corpo.
Gabo sentiu o reconhecimento atingi-lo como um soco físico.
Não era apenas um corpo. Era o corpo. O modelo original. O homem cujos traços Gabo via no espelho todas as manhãs, mas sem as cicatrizes e o cansaço.
Dante Moretti. Ou melhor, uma casca vazia cultivada para ser ele.
— Impressionante, não é? — A voz ecoou, não dos alto-falantes desta vez, mas de uma plataforma elevada conectada ao Ventre por pontes de cabos orgânicos.
Silas Vance estava lá. Ele não parecia o monstro vegetal que as lendas de Part XIII descreviam. Ele parecia humano, dolorosamente humano, vestido com um jaleco branco imaculado que contrastava violentamente com a sujeira do mundo exterior. Apenas as veias negras que subiam pelo seu pescoço denunciavam a infecção controlada.
— Silas — rosnou Gabo, o som de suas órteses metálicas clicando enquanto ele avançava pela passarela.
— Gabriel. E a intrépida Srta. Moretti. — Silas abriu os braços. — Vocês chegaram a tempo para o batizado.
Elena levantou a escopeta, mas antes que pudesse mirar, algo enorme caiu do teto, pousando entre eles e Silas com um estrondo que fez a passarela tremer.
Roberto Miranda. O lado esquerdo de seu corpo agora estava inchado, os músculos artificiais rasgando a pele sintética, revelando pistões hidráulicos e fibras musculares vermelhas expostas. O ácido havia derretido parte de seu rosto falso, deixando o crânio de metal à mostra em um sorriso permanente.
— Reunião de família — gorgolejou Roberto.
— Cuidem dele! — ordenou Silas, virando as costas e digitando em um console holográfico que projetava luz azul sobre o vidro do Ventre. — A transferência começa em dois minutos.
— Gabo, vai! — gritou Elena. — Eu seguro o Frankenstein!
Roberto avançou como um trem de carga. Elena rolou para o lado, disparando a escopeta à queima-roupa no joelho mecânico da criatura. O tiro explodiu em faíscas e fluido preto, mas Roberto apenas vacilou, girando o braço modificado em um arco mortal.
Gabo não olhou para trás. Ele correu — ou o mais próximo que suas pernas permitiam — em direção a Silas. O som rítmico de clique-hiss, clique-hiss de suas órteses marcava o tempo de sua fúria.
— Pare isso, Silas! — gritou Gabo. — Ele está morto! Deixe-o morto!
Silas não se virou.
— A morte é um erro de programação, Gabriel. A Aeterna quase resolveu isso com a Nuvem. Mas eles esqueceram a variável mais importante: o hardware. A mente precisa de carne.
O console emitiu um sinal sonoro agudo. Dentro da esfera, o corpo de Dante convulsionou.
Gabo sacou a "Leviatã". Não tinha mais granadas, mas o lançador servia como um porrete de cinco quilos de aço reforçado.
Ele alcançou a plataforma. Silas se virou, sacando uma pistola de agulhas com uma velocidade surpreendente para um cientista.
Gabo sentiu a picada no ombro, o entorpecimento imediato se espalhando. Ele ignorou. A adrenalina e o ódio eram antídotos poderosos. Ele balançou o lançador, atingindo o braço de Silas. O osso estalou, e a arma caiu no abismo.
Silas recuou, segurando o braço quebrado, mas sorrindo.
— Tarde demais. O upload começou. A "Coroa" que você carrega... ela está sincronizada por proximidade. Obrigado por trazê-la até aqui.
Gabo tateou o bolso. O cubo. Ele estava quente, vibrando contra sua coxa.
— Não... — Gabo tentou puxá-lo, para jogá-lo longe, no abismo.
Mas sua mão não obedeceu. O cubo estava magnetizado ou... vivo. Gavinhas de luz roxa começaram a sair do bolso de Gabo, conectando-se sem fio aos receptores do Ventre.
Atrás dele, um grito. Gabo olhou por cima do ombro.
Elena estava encurralada contra o parapeito. Roberto a segurava pelo pescoço com sua garra mecânica, erguendo-a sobre o vazio.
— Escolha, Gabo! — riu Roberto. — O pai ou a filha? Você pode salvar o legado... ou o futuro.
Gabo olhou para Silas, que observava o monitor de transferência atingir 80%. Depois olhou para Elena, debatendo-se, o rosto ficando roxo.
O tempo parou. O som do mundo se reduziu ao tump-tump do coração de Gabo e ao zumbido elétrico do Ventre.
Se ele parasse a máquina, Roberto mataria Elena. Se ele salvasse Elena, Dante renasceria — e com ele, talvez, o pesadelo da Aeterna.
"Foda-se o legado", pensou Gabo.
Ele girou, não para atacar Silas, mas para usar o impulso de suas pernas mecânicas. Ele se lançou no ar, um salto impossível para um aleijado, impulsionado pela hidráulica no limite de ruptura.
Ele colidiu com Roberto como uma bala de canhão humana.
O impacto jogou ambos contra o parapeito. O metal cedeu.
Gabo, Elena e Roberto caíram na plataforma inferior, uma confusão de membros e metal. A garra de Roberto soltou Elena. Gabo montou sobre o ciborgue, usando o próprio peso das órteses para prender o peito da criatura.
— Você é patético! — cuspiu Roberto.
Gabo arrancou um tubo grosso do pescoço de Roberto. Fluido vital jorrou.
— Eu sou humano — rosnou Gabo.
Ele começou a socar. Esquerda, direita, esquerda. Metal contra metal e carne sintética. Ele bateu até os olhos vermelhos de Roberto se apagarem. Até o rosto do ex-parceiro ser apenas uma massa irreconhecível de circuitos e tecido.
— Gabo! A máquina! — gritou Elena, tossindo.
Gabo olhou para cima.
Silas estava rindo, os braços erguidos para o Ventre.
— 100%.
Um trovão silencioso sacudiu a caverna. A luz âmbar do Ventre tornou-se um branco cegante.
O vidro explodiu.
Fluido e estilhaços choveram sobre eles. Gabo cobriu Elena com seu corpo.
Quando a poeira baixou, Silas estava de joelhos, chorando de êxtase.
E na plataforma, em meio aos cacos de vidro, a figura se levantou. Nua, perfeita, sem cicatrizes.
O homem olhou para suas próprias mãos. Depois, levantou os olhos. Eram os olhos de Dante Moretti. Mas havia algo mais neles. Algo antigo. Algo frio como o vácuo entre as estrelas.
— Onde... estou? — A voz era a de Dante, mas a entonação era... digital.
Silas rastejou até ele.
— Bem-vindo de volta, Comissário. Bem-vindo à carne.
A figura olhou para Silas. Depois olhou para baixo, para Gabo e Elena.
Um sorriso lento, desprovido de qualquer calor humano, curvou os lábios de Dante.
— Carne... — ele sussurrou. — É tão... limitante.
Ele estendeu a mão para Silas. As raízes negras que permeavam a sala responderam, brotando do chão e envolvendo o "Jardineiro".
Silas gritou enquanto era drenado, sua biomassa sendo sugada para fortalecer o novo hospedeiro.
— Gabo... — Elena sussurrou, agarrando o braço dele.
— Corra — disse Gabo, sem tirar os olhos da coisa que vestia o rosto de seu pai. — Não pare até ver o sol.
A "Convergência" havia começado. E não era nada do que eles esperavam.
