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Capítulo 30: O Preço da Liberdade
O corredor do Nível 70 da Torre Aeterna se transformou em um matadouro de metal e luz estroboscópica. Gabo e Elena usavam os racks de servidores tombados como barricadas. O ar sibilava com o fogo cruzado, cheio de cheiro de ozônio e plástico derretido. Os guardas de elite da Aeterna, equipados com armaduras de cerâmica branca, avançavam implacavelmente, uma maré asséptica de morte.
— O upload está em 50%! — gritou Valéria por cima do barulho ensurdecedor, os dedos dançando sobre o teclado holográfico. — A rede da cidade está começando a se desfazer! Os firewalls estão caindo como dominós!
Então, os guardas pararam. Eles não recuaram; apenas abriram caminho, como o Mar Vermelho, para uma figura que caminhava calmamente através da fumaça e dos flashes de disparo.
Kael, "O Cirurgião".
Ele não usava armadura volumosa. Seu corpo modificado era uma obra-prima do aprimoramento ilegal, esguio e letal. No lugar de seu braço direito, uma lâmina de osso de cerâmica, longa e serrilhada, vibrava com um zumbido baixo que fazia os dentes de Gabo doerem.
— Moretti — a voz de Kael, filtrada por um sintetizador vocal no pescoço, era fria como o metal. — A Dra. Vance me enviou pessoalmente. Ela quer sua dor, não sua morte. Ainda.
Gabo se levantou da cobertura e disparou. As balas da Glock ricochetearam no peito de Kael como chuva em um telhado de zinco. Ele nem sequer vacilou.
Com uma velocidade que desafiava a biologia, Kael avançou. A lâmina cortou o ar com um silvo agudo.
Gabo tentou bloquear com a coronha de sua escopeta vazia, mas a lâmina de cerâmica cortou a madeira e o metal como se fossem papel. O golpe seguinte foi um chute lateral no peito. Gabo sentiu as costelas estalarem e foi arremessado contra um painel de vidro temperado, que se estilhaçou com o impacto. Ele caiu no meio de cacos brilhantes, o ar expulso de seus pulmões.
Elena atacou Kael por trás com uma faca de combate, tentando atingir as juntas do pescoço. Mas Kael era rápido demais. Ele girou, agarrou-a pelo pescoço com a mão humana e a arremessou contra a parede oposta. Ela bateu com um som surdo e caiu, imóvel.
— Elena! — gritou Gabo, tentando se levantar, cuspindo sangue.
Kael se virou para ele, caminhando devagar. Ele estava saboreando o momento.
— Você tirou o brinquedo favorito dela — sibilou Kael. — A Torre. O controle. Agora, vou tirar o seu. Sua capacidade de caminhar.
Ele ergueu a lâmina. Gabo rolou para o lado, desesperado, mas o espaço era curto.
A lâmina desceu.
Não cortou a perna fora — a armadura leve da canela de Gabo impediu a amputação — mas o impacto foi devastador. A lâmina de cerâmica esmagou a tíbia e a fíbula com a força de uma prensa hidráulica.
O som foi um estalo úmido e nauseante de osso se partindo em múltiplos fragmentos.
A dor foi um sol branco que explodiu na mente de Gabo, cegando-o momentaneamente. Ele gritou, um som animal, primal, que rasgou a garganta. Sua perna direita estava dobrada em um ângulo errado, inútil, destruída internamente.
Kael riu, um som áspero e sintético. Ele levantou a lâmina para o golpe final, mirando no pescoço de Gabo.
— Fim do jogo, detetive.
— UPLOAD CONCLUÍDO — anunciou a voz de Valéria, não apenas pelo corredor, mas por todos os alto-falantes da torre, da cidade, de cada celular em Baía Cinzenta. — PROTOCOLO: LIBERDADE.
As telas ao redor deles explodiram em luz branca pura. Os rostos dos fantasmas digitais, as vítimas do Gamemaster, olharam para Kael por um instante, um julgamento silencioso de mil almas. E então desapareceram, substituídos por uma única palavra que brilhava em cada superfície: LIVRES.
A própria torre pareceu gritar. A infraestrutura de resfriamento que a sustentava foi desligada abruptamente. Luzes de emergência explodiram. Cabos de energia de alta tensão se soltaram do teto, estalando como chicotes elétricos, procurando terra.
O chão tremeu violentamente.
Uma sobrecarga massiva atingiu o sistema de Kael, que estava conectado à rede da torre para aumentar seus reflexos. Seu corpo travou. Faíscas jorraram de suas articulações. Seus implantes ópticos estouraram, e ele gritou, cego e paralisado, antes de cair de joelhos, fumegando.
Gabo, lutando contra a inconsciência, viu o cabo de energia solto dançando perto dele. A dor na perna era uma âncora que o puxava para baixo, mas o ódio o mantinha à tona. Ele se arrastou, deixando um rastro de sangue.
Com um último esforço titânico, ele pegou o cabo vivo com a mão enluvada e o pressionou contra o pescoço metálico de Kael.
O cheiro de ozônio, metal queimado e carne cozida encheu o corredor. O Cirurgião teve uma última convulsão violenta e tombou para o lado, estático e morto.
Valéria correu até Gabo, o rosto pálido de horror ao ver o estado da perna dele.
— Gabo! Meu Deus, sua perna...
— Elena... — ofegou ele, a visão escurecendo nas bordas. — Veja a Elena...
Valéria correu até a parceira caída. Elena gemeu e começou a se mexer. Estava viva.
Val voltou para Gabo, rasgando a manga da camisa para fazer um torniquete na perna esmagada.
— Temos que sair daqui! A estrutura está instável! A torre vai cair!
Gabo olhou para o teto, onde pedaços de concreto começavam a se soltar. Ele não sentia mais a perna, apenas um frio entorpecente. Ele sabia que nunca mais andaria do mesmo jeito. O custo fora alto.
Mas, ao longe, através da parede de vidro quebrada, ele podia ouvir algo que não ouvia há anos.
Gritos de alegria vindo da rua. Buzinas. O som de uma cidade acordando.
— Eles estão livres, Val — sussurrou ele, um sorriso manchado de sangue nos lábios. — Valeu a pena.
— Fique comigo, Gabo! — chorava Valéria, puxando-o. — Não ouse morrer agora!
— Só... vou descansar um pouco... — murmurou ele.
A escuridão o envolveu suavemente, enquanto o som da Torre de Marfim morrendo era a canção de ninar mais doce que ele já ouvira. O reinado da Aeterna havia terminado. Mas a longa recuperação de Gabriel Moretti estava apenas começando.
