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Capítulo 90: O Arquivista
Biblioteca Municipal (Submersa) - Nível -3
A Biblioteca era um dos poucos lugares que o Jardim ainda não tinha consumido totalmente. Talvez porque papel velho e tinta seca não fossem nutritivos para a Colmeia.
Mesmo com as pernas presas em pesadas órteses metálicas e seus movimentos limitados, Gabo navegou com um pequeno barco a remo pelos corredores inundados. As estantes formavam cânions de livros mofados.
Ele procurava o Arquivista. Uma lenda urbana entre os sobreviventes. Alguém que sabia como o mundo era antes.
— Quem navega nas águas do esquecimento? — uma voz ecoou das sombras.
Gabo parou de remar.
— Um homem que não quer esquecer.
Uma figura apareceu no topo de uma estante que emergia da água como uma ilha. Era um velho, vestindo um terno puído dos anos 2020, preservado em plástico. Ele usava luvas cirúrgicas para manusear um livro.
— Ah, Detetive Moretti. — O velho fechou o livro. — Sua reputação o precede. Ou devo dizer, sua assinatura genética. O cheiro do Jardim está em você.
— Eu sei — disse Gabo, escondendo a mão infectada. — Estou procurando informações sobre o Projeto Gênesis. E sobre um homem chamado...
— Dr. Silas Vance? — completou o Arquivista.
O zumbido das órteses de Gabo pareceu travar quando ele congelou de choque.
— Vance? Parente da Dra. Elara Vance?
— Pai dela. E mentor de Dante Moretti. — O Arquivista desceu da estante, equilibrando-se em uma prancha de madeira. — Todos achavam que ele tinha morrido no primeiro surto da Febre Cinzenta. Mas ele apenas... se plantou.
— Ele é o Jardineiro?
— Ele é o Pai. O Jardineiro é apenas uma função. Silas Vance queria curar a morte. Ele achava que a tecnologia era fria demais, e a biologia frágil demais. Ele queria a fusão. A Carne Mecânica.
O Arquivista jogou um livro para Gabo. Era um diário de campo, encadernado em couro sintético.
— Está tudo aí. Os planos, as fórmulas. E a fraqueza.
— Fraqueza?
— Toda floresta tem medo de uma coisa, Detetive. Fogo. Mas não fogo comum. O Jardim se adapta ao calor. Você precisa de um fogo que queime a informação genética.
— Radiação?
— Pior. Um vírus. Um retrovírus digital que ataque a biologia. Algo que Dante estava desenvolvendo antes de morrer. O "Código Morto" não era uma arma contra IAs. Era uma arma contra isso.
— Onde está esse código?
— Você já sabe — o Arquivista sorriu, triste. — Está na única coisa que Silas não pode controlar. Na Entidade que se recusa a ser carne.
— O Código Morto.
— Exato. O Código Morto é o portador do vírus. Mas para liberá-lo... alguém precisa se sacrificar. Precisa se conectar ao Jardim e executar o comando de autodestruição do servidor. Ele vai matar a si mesmo e a toda a nova vida da cidade.
A dor latejante nos ligamentos arruinados era a única coisa que mantinha sua sanidade intacta. Gabo olhou para o diário em suas mãos.
— Salvar a cidade ou salvar a menina. De novo.
— A história é um círculo, Detetive. Cabe a você decidir quando quebrá-lo.
