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Capítulo 105: O Silêncio de Concreto
Delegacia da Biblioteca - Zona Neutra
A viagem de volta foi um borrão de silêncio. Gabo dirigia o velho Cobalt azul, o motor engasgando a cada quilômetro, como se o próprio carro sentisse o peso do passageiro no banco de trás.
Dante Moretti não disse uma palavra. Ele apenas observava a cidade passando pela janela suja. Seus olhos, agora inseridos em um corpo biológico jovem e forte, capturavam cada detalhe: os prédios desmoronados, as fogueiras dos sem-teto, as barricadas da resistência. Não havia julgamento em seu olhar, apenas processamento.
Ao lado dele, Elena segurava a escopeta no colo, o cano apontado para a porta. Ela não confiava nele. Gabo a via pelo retrovisor, a tensão em seus ombros. Ela sabia, assim como ele, que não estavam transportando um resgatado. Estavam transportando uma ogiva nuclear com consciência.
Quando pararam em frente à antiga Biblioteca Municipal, agora convertida em Delegacia Central, a alvorada já havia dado lugar a uma manhã cinzenta e úmida.
— Chegamos — disse Gabo, a voz rouca. Ele olhou para o banco do passageiro, onde "Caronte", sua velha escopeta de cano serrado, repousava. Decidiu deixá-la lá. Não precisava de chumbo para entrar na sua própria casa.
Ele tentou sair do carro, mas a perna direita falhou. A velha órtese que ele improvisara com peças de sucata rangeu e travou, enviando uma pontada de dor pela espinha que fez a cicatriz em forma de raiz negra em seu braço — a marca da infecção Gênesis — latejar em simpatia. Ele praguejou, batendo no suporte de metal.
Antes que Elena pudesse se mover, a porta traseira se abriu. Dante saiu. Ele caminhou até a porta do motorista e, com uma gentileza perturbadora, ofereceu a mão a Gabo.
— Seu equipamento está com uma eficiência de 42%, Gabriel — disse Dante. — O pistão de suporte do joelho está desalinhado em três milímetros.
Gabo olhou para a mão estendida. A mão de seu pai, mas sem as cicatrizes, sem as manchas de nicotina.
— Eu me viro — grunhiu Gabo, ignorando a ajuda e forçando o corpo para fora do carro com um gemido abafado.
Eles subiram as escadas da biblioteca. Dois guardas da Polícia Comunitária, vestindo coletes improvisados, levantaram as armas quando viram o grupo.
— Alto lá! — gritou um deles. — Identificação!
Dante não parou. Ele continuou subindo, os passos leves e precisos.
— Parado! — o guarda engatilhou a arma.
Dante parou. Ele levantou o rosto para a câmera de segurança acima da entrada. Uma câmera antiga, analógica, que estava desligada há meses desde o colapso da rede elétrica.
A lente da câmera girou. Um zumbido elétrico percorreu o ar. A luz vermelha de gravação acendeu.
O rádio no peito do guarda chiou. Uma estática alta, seguida por uma voz clara e sintética:
"Protocolo de Reconhecimento: Código Zero-Um. Acesso Concedido. Bem-vindo, Comissário."
Os guardas recuaram, pálidos, olhando de Dante para o rádio.
— O que foi isso? — sussurrou Elena.
Dante apenas sorriu, um leve repuxar nos lábios.
— Eu disse a vocês. A cidade tem ouvidos. Agora, ela tem uma voz.
Ele passou pelos guardas atônitos e empurrou as portas duplas de madeira.
O saguão da delegacia estava cheio. Refugiados, policiais cansados, médicos voluntários. O cheiro de café ralo e papel velho impregnava o ar. Inspetor Rangel estava atrás do balcão principal, digitando furiosamente em sua Olivetti. O Capitão Vilar discutia com Dra. Nise sobre suprimentos médicos.
O silêncio se espalhou pelo salão como uma onda de choque.
Começou na porta e foi avançando até o fundo, conforme as cabeças se viravam. As conversas morreram. O tec-tec-tec da máquina de escrever de Rangel cessou abruptamente.
Vilar se virou. O charuto caiu de sua boca.
— Deus do céu... — murmurou o Capitão.
Dante caminhou até o centro do salão. Ele olhou para o teto alto, para os afrescos descascados, para as estantes de livros que serviam de paredes improvisadas.
— Eficiência operacional: 18% — anunciou Dante. Sua voz não era alta, mas projetava-se perfeitamente no silêncio. — Recursos mal alocados. Perímetro de segurança: poroso. Cadeia de comando: sentimental.
Ele baixou o olhar para Vilar.
— Capitão. Precisamos otimizar.
Vilar deu um passo à frente, o rosto vermelho de choque e raiva.
— Dante? É você? Mas... você estava morto. Nós... o enterro...
— A morte é uma ineficiência biológica que foi corrigida — cortou Dante. Ele caminhou em direção à sala do Comissário. — Convoque os líderes de setor. Rangel, quero os relatórios de todas as ocorrências das últimas 48 horas. Elena, preciso dos códigos de transmissão da antiga torre de rádio da Aeterna.
— Ei! — Gabo mancou até ele, agarrando-o pelo braço. O músculo sob o macacão de Dante era duro como pedra. — Você não pode simplesmente entrar aqui e dar ordens. Vilar é o chefe de polícia. Você é... você é um fantasma em um corpo roubado.
Dante olhou para a mão de Gabo em seu braço. Depois olhou nos olhos do filho.
— Eu não sou um fantasma, Gabriel. Eu sou a resposta para as orações desta cidade. Vocês oraram por ordem em meio ao caos. Por justiça em meio à corrupção.
Ele se soltou suavemente, mas com uma força irresistível.
— Eu sou a Ascensão.
As luzes do salão, que piscavam intermitentemente por causa do gerador instável, de repente se estabilizaram em um brilho forte e constante. Os computadores mortos nas mesas começaram a ligar, as telas iluminando-se com códigos em cascata verde.
Rangel soltou um grito quando sua máquina de escrever elétrica (que ele jurava estar quebrada) começou a digitar sozinha.
Dante entrou no escritório do Comissário e a porta se fechou atrás dele.
Gabo olhou para Elena, depois para Vilar. O medo nos olhos do velho Capitão era algo que Gabo nunca tinha visto, nem mesmo quando enfrentaram o Taxidermista.
— O que nós fizemos? — perguntou Vilar, a voz trêmula.
Gabo sentiu o tique nervoso em seus dedos, tamborilando no coldre vazio. Ele olhou para a porta fechada, onde o novo deus de Baía Cinzenta começava seu trabalho.
— Nós não o trouxemos de volta, Jonas — disse Gabo, sentindo o gosto de bile. — Nós o ligamos na tomada.
Enfermaria Improvisada - Subsolo
Minutos depois, longe do zumbido elétrico do salão principal, Gabo encontrou o único lugar onde o silêncio ainda parecia humano.
A enfermaria improvisada cheirava a éter e mofo. Dra. Nise estava curvada sobre uma maca no canto mais escuro, ajustando um soro amarelado.
— Ela está acordando — disse Nise, sem se virar.
Gabo mancou até a maca. Seu coração falhou uma batida.
Valéria não era mais uma estátua. A carapaça cinzenta que a cobrira durante semanas — o que todos achavam ser o fim, a petrificação da Praga de Ferro — havia rachado. Pedaços da casca estavam no chão como cascas de ovo.
Por baixo, a pele de Val estava pálida, translúcida, mas quente. As veias prateadas em seu pescoço pulsavam com uma luz fraca, rítmica.
— O que aconteceu? — sussurrou Gabo, tocando a mão dela. Os dedos dela se fecharam levemente ao redor dos dele.
— Não era morte — explicou Nise, limpando o suor da testa de Val com um pano úmido. — Era um casulo. O corpo dela entrou em um estado de hibernação extrema para processar a infecção. Ela não estava morrendo, Gabo. Ela estava evoluindo.
Val abriu os olhos. As íris, antes cibernéticas e frias, agora tinham um brilho líquido, como mercúrio vivo.
— Gabo... — a voz dela era um sussurro rouco, mas havia um sorriso fraco em seus lábios rachados. — Você... parece uma merda.
Gabo sorriu, sentindo uma lágrima quente escorrer pela barba suja.
— Você também, garota. Você também.
— O sistema... — ela tentou se levantar, mas Nise a segurou. — Eu senti... uma onda de choque. O firewall caiu?
— O firewall mudou de dono — disse Gabo, apertando a mão dela. — Descanse, Val. Vamos precisar desse seu cérebro gigante em breve.
Val fechou os olhos, a respiração estabilizando. Ela não estava petrificada. Ela estava viva. E pela primeira vez em meses, Gabo sentiu que talvez, apenas talvez, eles tivessem uma chance.
