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Metadados

  • Título: Fios Desencapados
  • Data In-Game: 23 de Novembro, 01:00
  • Localização: O Fliperama (Esgotos / Subnível do Distrito Industrial)
  • Personagens Presentes: Gabo Moretti, Valéria Cruz, Inspetor Rangel (Crítico), Aria (Offline).
  • Resumo: O grupo chega ao esconderijo "O Fliperama", onde Gabo luta para estabilizar Rangel usando recursos médicos limitados e improvisação brutal. Valéria tenta reviver Aria, mas descobre que o dano é mais profundo do que hardware. O peso da sobrevivência começa a fraturar a moral do grupo.

Narrativa

Capítulo 121: Fios Desencapados

O caminhão "Toupeira" morreu com um suspiro engasgado assim que cruzaram a comporta de entrada do esgoto. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo som de metal esfriando e pela respiração irregular de Rangel.

Gabo saltou da cabine, seus joelhos protestando com o impacto no concreto úmido. O ar ali embaixo tinha gosto de cobre e mofo antigo. O Fliperama. O santuário de Kiko Vibe.

— Valéria, luzes — ordenou, abrindo a porta do carona.

Rangel estava pálido, a cabeça pendendo num ângulo errado. O improviso de torniquete na perna estava encharcado.

— Não tenho interface com o sistema daqui — a voz de Valéria veio da caçamba, tremula. — É tudo... analógico. Interruptores físicos.

Gabo praguejou e tateou a parede até encontrar a caixa de disjuntores. Ele empurrou a alavanca principal com força.

Com um zumbido grave, lâmpadas de filamento no teto piscaram e acenderam, banhando o bunker em uma luz amarela e doente. O lugar parecia um museu de tecnologias mortas: servidores torre, monitores CRT volumosos, e emaranhados de cabos que pareciam intestinos de robôs estripados.

— Me ajude com ele — Gabo puxou Rangel para fora. O inspetor era pesado, um peso morto de carne e culpa.

Eles o arrastaram até uma mesa de metal no centro da sala, empurrando teclados e xícaras de café fossilizadas para o chão.

— Ele está perdendo muito sangue — Valéria disse, suas mãos pairando sobre o ferimento no ombro de Rangel. Seus olhos cibernéticos giravam, processando dados que não podia usar. — A artéria subclávia... Gabo, precisamos de um autodoc.

— Não tem autodoc aqui — Gabo rasgou a camisa de Rangel. A ferida era feia, bordas queimadas por plasma e rasgadas por estilhaços. — Kiko não planejava se machucar, só se esconder.

Ele olhou ao redor, buscando algo útil. Havia uma caixa de ferramentas enferrujada e um kit de primeiros socorros industrial na parede. Ele correu até lá. Bandagens secas, antisséptico vencido e...

Ele pegou um ferro de solda da bancada eletrônica.

— O que você vai fazer? — Valéria recuou, horrorizada.

— Cauterizar.

— Você vai matar ele de choque! — ela gritou. — Ele precisa de cirurgia vascular, não de tortura medieval!

— Ele tem três minutos antes de sangrar até secar — Gabo ligou o ferro na tomada. O cheiro de ozônio subiu. — Segure os ombros dele.

— Eu não consigo...

— Valéria! — Gabo rugiu. — Segure a porra dos ombros dele ou ele morre agora!

Valéria obedeceu, lágrimas prateadas se formando nos cantos dos olhos. Ela segurou Rangel com força, desviando o olhar.

Gabo esperou a ponta do ferro ficar vermelha. Sua mão tremia. Não de medo, mas de adrenalina contida. O cheiro de carne queimada que viria a seguir... aquilo traria memórias que ele lutava para enterrar. A fumaça. Sempre a fumaça. O cheiro dos charutos do pai, impregnando a casa antes de cada surra, antes de cada silêncio.

Ele sentiu a náusea subir, um gosto amargo de bile e cinza fantasma na boca. Foco. Agora.

Ele pressionou o punho contra o peito, sentindo o Colar de Sol morder a pele através da camisa. A queimadura fria do metal era sua única âncora. Dor é realidade. O resto é fumaça.

— Desculpe, Rangel — sussurrou.

Ele encostou o ferro na ferida.

O cheiro foi imediato e nauseante. Rangel gritou, um som gutural que ecoou pelas paredes de concreto, antes de desmaiar novamente. Gabo trabalhou rápido, selando o vaso rompido com precisão brutal, ignorando o cheiro de churrasco humano que impregnava o ar confinado.

Quando terminou, largou o ferro na mesa e se afastou, respirando com dificuldade.

— Está feito — disse, a voz rouca. — O sangramento parou.

Valéria soltou o inspetor e correu para o canto da sala, vomitando bile.

Gabo limpou as mãos num pano sujo de graxa. Ele olhou para o corpo inerte de Aria, deitada em um sofá de couro rasgado no canto. Ela parecia uma boneca quebrada, seus olhos heterocromáticos apagados, a pele sintética fria e cinza.

— E ela? — perguntou, acenando com a cabeça para a androide.

Valéria limpou a boca e se aproximou de Aria. Ela conectou um cabo de seu pulso na porta de diagnóstico na nuca da androide.

— O núcleo lógico está intacto — disse Valéria, sua voz voltando ao tom analítico, uma defesa contra o horror que acabara de presenciar. — Mas a matriz de personalidade... ela se fragmentou para conter o feedback da rede neural de Dante.

— Dá para consertar?

— Hardware? Sim. Software? — Valéria hesitou. — Ela salvou os Drenados absorvendo a dor deles. Isso... isso muda quem você é, Gabo. Mesmo para uma máquina. Se eu a religar, não sei quem vai acordar.

Gabo assentiu. Ele se sentou no chão, encostado na mesa onde Rangel respirava superficialmente. Suas mãos ainda tremiam levemente, não por fraqueza, mas pela descarga de tensão. Ele entrelaçou os dedos, forçando-os a parar.

— Temos tempo — disse ele, fechando os olhos. — O mundo lá fora parou. Pela primeira vez em anos, ninguém está nos caçando.

— Por enquanto — corrigiu Valéria, sentando-se ao lado de Aria e segurando a mão fria da androide.

O som da chuva gotejando de algum cano estourado marcava o tempo. Tap. Tap. Tap.

Gabo puxou o colar debaixo da camisa e o segurou firme. O metal estava quente com o calor do seu corpo.

Eles estavam vivos. Quebrados, sujos, e cercados de fantasmas. Mas vivos.

— Por enquanto — repetiu Gabo.