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Capítulo 198: A Marcha Fúnebre

Os setecentos e quinze metros restantes até o poço de elevação eram uma sentença de morte executada em câmera lenta. O ar nas catacumbas do Setor 6 não circulava; ele apodrecia. A umidade carregava o cheiro de ozônio cru, esgoto antigo e cobre molhado, mas por trás de tudo isso, espreitava o fantasma que tentava me devorar: o aroma espesso e denso do charuto de Dante.

Sempre que a escuridão silenciava meus sentidos, a fumaça invisível invadia minhas narinas. A sensação de asfixia não era psicológica; meus pulmões realmente fechavam, minha traqueia apertava. O único antídoto era o choque térmico e elétrico da dor.

Minha bota mecânica esmagava cascalho e poças de lodo industrial. A cada dois passos, eu cravava as unhas sujas da minha mão esquerda no ombro direito, apertando os músculos rasgados. O sangue quente escorria pelos meus dedos, e o pico de agonia brilhava no meu cérebro como um sinal luminoso em neon de letreiro vagabundo. A dor queimava a alucinação, substituindo o sufocamento pelo simples e honesto sofrimento físico.

Elias tremia ao meu lado, tropeçando nas sombras projetadas por sua lanterna enfraquecida. Ele não dizia uma palavra desde o incidente na ponte improvisada, mas sua respiração ofegante era um ruído patético que se misturava ao gotejar das tubulações.

— Frequência respiratória do sujeito civil indica hiperventilação, — disse Valéria. A luz pálida de seus sensores cortava o escuro como um farol fantasma, varrendo o ambiente com indiferença geométrica. — Se continuar nesse ritmo, a alcalose respiratória induzirá desmaio em menos de dez minutos. Arrastar seu corpo reduzirá nossa velocidade em sessenta e dois por cento. Recomendo descarte em caso de colapso.

— Tenta respirar pelo nariz, Elias, — eu murmurei, minha voz um ruído áspero. — Senão a lata velha vai te deixar pra trás, e eu não vou ter força pra carregar sua carcaça.

Elias soluçou, mas forçou a boca a fechar, puxando o ar de forma trêmula pelas narinas.

Nós entrávamos em um túnel mais largo, onde as fundações do que um dia fora o sistema de trânsito rápido repousavam como ossos de leviatãs. Mas algo estava errado. As paredes ali não eram apenas de concreto oxidado; elas estavam tomadas pela mesma doença que destruíra o Nível 7.

Gavinhas do Jardim, pálidas e com veias azuis cintilantes, cobriam as colunas de sustentação. Diferente das raízes frenéticas da ponte, estas pareciam dormentes, engordadas. No teto, casulos grotescos pendiam, gotejando um fluido amniótico amarelado.

— Diminua a emissão de luz, — eu ordenei a Elias, apertando meu ombro novamente até ver estrelas, só para garantir que o cheiro de charuto não voltasse justo ali. — Agora.

Ele apagou a lanterna na mesma hora. Mergulhamos numa penumbra iluminada apenas pela bioluminescência doentia da biomassa e pelo feixe azul-gélido de Valéria.

— Análise termográfica, — Valéria informou com sua voz sintetizada, livre de qualquer tensão. — Os casulos emitem assinaturas de calor compatíveis com metabolismo basal. Trinta e seis graus Celsius. Estão incubando material orgânico reciclável.

— O que tem dentro deles? — Elias sussurrou, aterrorizado.

— Restos. A biomassa reaproveita o tecido necrosado, — eu respondi, cuspindo no chão. O cinismo amargo era um mecanismo de defesa tão válido quanto a dor física. — Não são mais pessoas. São só peças de reposição pra essa praga do caralho.

Ao nos movermos furtivamente pelo corredor, percebi que um dos casulos estava rachado. O fluido pingava sobre o metal enferrujado dos trilhos abaixo. E ali, deitado no lodo, havia algo que parecia um braço humano, mas fundido a placas de silício e fios óticos. A praga não estava apenas devorando a cidade; ela a estava reescrevendo.

A náusea subiu pela minha garganta, e, como um relógio quebrado, a alucinação de fumaça veio junto. O charuto de Dante, encorpado, doce e sufocante. Senti minha visão periférica escurecer. A falta de ar dobrou meus joelhos.

Caí pesadamente sobre a minha perna mecânica, os pistões choramingando com o impacto bruto no concreto. A joelheira metálica cedeu, e a agonia disparou pela minha perna esquerda, atingindo meu quadril mutilado. A dor foi avassaladora, ofuscante. Mas ela quebrou a redoma da alucinação.

Arfei, puxando grandes goles de ar carregado de ozônio, tossindo violentamente enquanto Elias dava um passo para trás, assustado com minha queda súbita.

— Gabo? — ele sussurrou.

— Pressão arterial do indivíduo alfa caindo, — relatou Valéria, seus olhos estáticos fixados em mim. — Falência sistêmica por estresse crônico se aproximando. Se a integridade estrutural do seu fêmur falhar agora, a amputação não será suficiente.

— Eu... tô bem, — rosnei, fincando o punho de ferro da prótese direita no chão para me alavancar para cima. As juntas do meu braço estalaram, ecoando ruidosamente na catacumba.

Os casulos acima de nós pulsaram com o som. As veias azuis brilharam um pouco mais intensas, respondendo ao estímulo.

— Movimento detectado, — a voz do Modo de Segurança de Valéria soou como uma sentença de morte. — Atividade neural nos casulos aumentou oitocentos por cento. O ruído mecânico agiu como gatilho.

Uma fenda molhada se abriu no casulo mais próximo. O som de carne rasgando e fluido derramando encheu o túnel. Algo começou a se arrastar para fora. Uma abominação de carne pálida, entrelaçada com fios de cobre e raízes azuis, sem olhos, guiada apenas pela vibração.

— Corram, — eu disse, empurrando Elias para frente, sentindo meu próprio sangue escorrer quente pelo queixo. — Corram pra porra do poço!