Skip to content
Imagem do Capítulo

Capítulo 83: Raízes

Gabinete do Prefeito (Interino), Vilar - 09:00 AM

Vilar jogou o mapa holográfico da cidade sobre a mesa. Estava cheio de pontos vermelhos.

— Ocorrências de "vandalismo botânico" aumentaram 300% em 24 horas — disse ele, esfregando as têmporas. — Árvores rompendo asfalto, vinhas bloqueando trilhos de maglev, parques invadindo prédios residenciais. A cidade está sendo devorada pela selva.

— Não é aleatório — disse Gabo, traçando uma linha com o dedo entre os pontos. — Olhe o padrão.

— Parece uma espiral — observou Nise.

— É a sequência de Fibonacci — corrigiu Val. — A proporção áurea. A natureza segue a matemática perfeita.

— E o centro da espiral? — perguntou Vilar.

Gabo apontou para o ponto onde a espiral convergia, as juntas de suas órteses mecânicas nas pernas emitindo um zumbido baixo ao reajustar o peso do seu corpo frágil sobre a mesa. Não era a Torre Aeterna. Não era a Prefeitura.

Era o Memorial do Dilúvio, o enorme parque construído sobre as ruínas dos bairros baixos que foram inundados permanentemente. Um lugar de luto, cheio de estátuas e ciprestes.

— O que tem lá? — perguntou Vilar.

— O servidor de backup original — disse Val, acessando arquivos antigos. — Antes da Torre, antes de tudo, a Aeterna tinha um bunker lá. Deveria estar desativado há décadas.

— Deveria — disse Gabo. — Mas raízes procuram água. E aquele bunker está submerso. É o lugar perfeito para algo crescer sem ser perturbado.

Nise levantou-se, inquieta.

— Analisei a amostra do laboratório, Gabo. O DNA... é humano.

O silêncio na sala foi absoluto.

— Humano? — repetiu Vilar.

— Modificado, sim. Misturado com fungos, plantas, e polímeros sintéticos. Mas a base... a base é humana. Quem está fazendo isso não está criando monstros do zero. Está convertendo pessoas.

— O "Batismo" — murmurou Gabo, lembrando-se do Profeta Mudo. — Eles não estavam apenas ouvindo. Estavam sendo transformados.

O comunicador de Vilar tocou. Era o chefe da manutenção do metrô.

Capitão, temos um problema na Linha Vermelha. O trem parou. Os passageiros dizem que... que os túneis estão sangrando.

— Sangrando?

Seiva, senhor. Seiva vermelha escorrendo pelas paredes. E... tem gente presa na parede. Tipo, fundida no concreto.

Vilar olhou para Gabo.

— Começou — disse Gabo, verificando a carga de sua arma e sentindo a pressão bruta do metal das órteses contra seus fêmures. — A Primeira Colheita.

— Vamos para o Memorial — decidiu Gabo, forçando as pernas mecânicas a suportarem seu movimento até a porta. — Se cortarmos a raiz mestra, talvez o resto pare de crescer.

— Ou talvez a gente descubra que a árvore é muito maior do que pensamos — disse Val, sombriamente.

Eles saíram, deixando o mapa holográfico brilhando na sala vazia. A espiral vermelha parecia girar lentamente, como um furacão se aproximando da costa.