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Capítulo 215: Os Alicerces do Inferno

O silêncio do Hub Principal era pesado como chumbo líquido. As palavras de Valéria ficaram suspensas no ar filtrado, frias e incontestáveis. A porta dos fundos para o porão do inferno.

Fechei a jaqueta manchada sobre o meu braço mutilado. A carne ainda latejava, um ritmo quente e brutal que empurrava o gosto residual de alcatrão e fumaça velha de volta para os abismos da minha mente fraturada. Enquanto a dor me rasgasse, o fantasma do charuto de Dante não me asfixiaria. Esse era o acordo repulsivo que fiz com meu próprio corpo.

— Você quer dizer que a Aeterna construiu algo abaixo da cidade original? — Elias engoliu em seco, recuando um passo da torre de servidores iluminada de verde. O pavor escorria dele como suor frio. — Abaixo do Setor 7? Aquilo já é o esgoto do mundo...

— A infraestrutura embrionária, — Valéria desconectou o cabo neural da nuca com um movimento seco e clínico. Os olhos azuis voltaram a focar em mim, destituídos de qualquer resquício de empatia, travados no absoluto Modo de Segurança. — As fundações geológicas que sustentam a arcologia. Registros indicam falhas tectônicas artificiais e câmaras de contenção térmica da era do Projeto Gênesis. Não é esgoto, civil. É a raiz. E o elevador de manutenção primário está a quarenta metros a nordeste desta câmara.

Eu me apoiei na parede metálica, usando a escopeta como bengala. Minha perna quebrada protestou num chiado mecânico de servos prestes a morrer.

— Então é para lá que o Jardim não conseguiu ir. Ou foi impedido de ir, — rosnei, cuspindo sangue ralo no chão impecável de Aeterna. — Se há um fundo verdadeiro nessa latrina de concreto, é lá que o Taxidermista ou qualquer coisa que esteja controlando a cidade se esconde.

— Probabilidade de sobrevivência na descida: onze vírgula seis por cento, — Valéria relatou. Ela não soava pessimista. Apenas lia o tabuleiro de xadrez da nossa agonia. — Suas falências múltiplas de órgãos e integridade mecânica reduzem a métrica a cada hora.

— Eu não preciso de estatísticas, Valéria. Preciso da porra do elevador.

Elias balançou a cabeça, o rosto pálido refletindo o brilho estéril dos consoles. — Eu não vou. Não vou descer mais. O que quer que esteja lá embaixo, não foi feito para seres humanos. Aquele Jardim, a Praga... eles já são o inferno. Se essa coisa que vocês dizem construiu algo ainda mais fundo... nós só vamos encontrar o diabo.

— Você pode ficar aqui e rezar para os servidores, Elias, — eu disse, a voz áspera como lixa. Ajeitei a bandoleira da arma no ombro bom. A dor nas juntas inflamadas me fez ranger os dentes. Ótimo. Mais âncoras contra a fumaça ilusória. — Mas este salão estéril não é um santuário. É uma tumba que os vermes esqueceram de cavar. Assim que a rede principal cruzar os dados, algo virá até aqui.

Valéria já marchava em direção ao quadrante nordeste do salão, seus passos abafados pelo piso gradeado. — A escotilha de descompressão está ativa. A energia residual do núcleo geotérmico mantém os sistemas vitais de contenção em estado vegetativo.

Fui mancando atrás dela. Elias hesitou por dez longos segundos. O silêncio artificial do salão pareceu esmagá-lo mais do que a ferrugem lá fora. Com um praguejo sufocado, ele correu para nos alcançar.

A passagem não era uma porta, mas uma escotilha circular embutida no piso de aço reforçado, com trancas de pressão dignas de um submarino nuclear. O metal em volta não tinha um único arranhão, limpo de qualquer bioma podre ou praga oxidante.

Valéria não hesitou. Inseriu a mão em um painel lateral retrátil e induziu uma sequência de pulso elétrico. O som de sucção a vácuo ecoou violentamente. As pesadas travas giraram, liberando jatos de ar gelado que cheiravam a ozônio puro e poeira secular.

Quando a escotilha se abriu como um olho de aço, o abismo nos encarou de volta. Não havia iluminação de emergência. Apenas a escuridão absoluta e um fosso escuro descendo pela garganta do mundo.

O ar frio subiu das profundezas. Era limpo. Seco. Um túmulo perfeitamente conservado.

Por um instante, o cheiro de charuto fantasma ameaçou roçar meus pulmões novamente, engatilhado pela escuridão claustrofóbica. Fechei o punho da minha mão mutilada com força brutal, esmagando a carne aberta até que a agonia física me puxasse pelos cabelos de volta à realidade crua.

— Senhoras primeiro, — resmunguei.

Valéria iniciou a descida pela plataforma estreita e escada de aço. Nós estávamos deixando as sombras corporativas de Aeterna para entrar no coração vivo do vazio geológico.