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Capítulo 36: O Ninho da Serpente
A Delegacia do Setor 4, o último bastião de "lei" na borda da Zona Industrial, parecia menos um posto policial e mais uma fortaleza sitiada medieval. Empilhadas na frente da entrada principal, barreiras de concreto Jersey estavam entrelaçadas com arame farpado e carcaças de drones abatidos. Policiais exaustos, cujos uniformes azuis estavam cinzentos de fuligem, patrulhavam o perímetro com o nervosismo de quem sabe que está em desvantagem numérica e tecnológica. Como a rede elétrica havia caído horas atrás, apenas fogueiras acesas dentro de latões de óleo iluminavam a fachada, projetando sombras longas e distorcidas que pareciam dançar nas paredes marcadas por balas.
— Como vamos entrar? — perguntou Elena, observando de longe através de um par de binóculos táticos rachados. Ela estava sentada no banco do carona do Cobalt, que agora ostentava cicatrizes de batalha e um pneu estepe no lugar da roda dianteira direita. — Eles estão no limite. Vão atirar em qualquer coisa que não tenha um distintivo.
— Pela entrada de custódia — disse Gabo, verificando a carga de sua escopeta pela enésima vez. — Fica nos fundos, perto da doca de carregamento de prisioneiros. A fechadura é mecânica, uma relíquia da velha guarda. Ninguém usa há anos porque os drones de transporte faziam todo o trabalho sujo pelo ar.
Eles contornaram o quarteirão a pé, movendo-se pelas sombras. O beco dos fundos era um cemitério de lixo tecnológico. Pilhas de monitores quebrados e teclados antigos formavam montanhas de plástico. No meio desse entulho, alguns "Vazios" — viciados em Lázaro que, com o desligamento da rede neural da Aeterna, haviam perdido a conexão com sua realidade sintética — vagavam em estado catatônico, murmurando para telas desligadas.
— Ratos digitais — sussurrou Valéria, com um misto de pena e nojo. — Eles nem sabem que o servidor caiu. O cérebro deles ainda está esperando o pacote de dados. É patético.
— É humano — retrucou Elena, ajustando o foco de seu binóculo analógico. — Tão humano quanto depender de um brinquedinho no pulso para abrir uma porta.
Valéria bufou.
— Esse "brinquedinho" já salvou a pele do Gabo mais vezes do que suas lentes de vidro, jornalista.
— Ele não precisa de wi-fi para sangrar, Valéria. E nem eu para atirar. — Elena olhou para Gabo, buscando aprovação silenciosa. — Vamos fazer isso do jeito antigo. Pé na porta.
Gabo ignorou a tensão entre as duas, embora tenha notado o tom. Ele foi até a porta de metal enferrujado. Ele inseriu um pé-de-cabra na fenda e forçou. O metal gemeu, um som agudo que fez Elena sacar a pistola com uma velocidade impressionante, enquanto Valéria apenas revirava os olhos digitais.
— Sutileza nota zero — murmurou Val. — Eu teria levado três segundos para decodificar a tranca.
— E alertado todas as sentinelas silenciosas na rede — rebateu Elena, sorrindo de canto. — Às vezes, a força bruta é a única linguagem que eles entendem.
A porta cedeu com um estalo seco.
O interior da delegacia cheirava a suor velho, café queimado e medo. O medo tinha um cheiro específico: azedo e metálico. Eles avançaram pelos corredores de serviço, passando pelo bloco de celas temporárias. Os prisioneiros não gritavam mais; eles apenas olhavam com olhos vazios, esperando o julgamento ou a fome.
Subiram para o segundo andar, onde ficava a divisão de detetives. A sala grande estava deserta, papéis voando ao vento que entrava por janelas quebradas. Mas, no fim do corredor, uma linha de luz amarela escapava por baixo da porta do escritório do capitão.
Gabo fez sinal de silêncio. Ele avançou, o chão rangendo levemente sob suas botas pesadas.
Pela fresta da porta entreaberta, ele viu a cena.
O Capitão Jonas Vilar não estava comandando seus homens. Ele estava fazendo as malas.
Vilar, um homem que Gabo respeitara como um pai substituto por anos, estava enfiando barras de ouro e drives de dados criptografados em uma mochila tática. Um rádio de emergência de banda larga estava ligado na mesa.
— ...Sim, eu confirmo. — A voz de Vilar tremia, não de medo, mas de pressa. — Eu tenho os códigos de acesso ao arsenal pesado e a rota das patrulhas. Quero extração imediata. Vaga no helicóptero da Vance para o Distrito Alto. Eu e minha família.
— Entendido, Capitão — respondeu uma voz distorcida no rádio. — O Sindicato honra seus acordos. Esteja no telhado em dez minutos. Leve os códigos. Deixe a delegacia aberta.
Gabo sentiu um gosto de bile e traição na boca. O mundo acabava lá fora, a cidade se afogava em sangue, e os ratos continuavam negociando queijo. Ele não sentiu raiva; sentiu uma tristeza profunda, exaustiva.
Ele chutou a porta.
O estrondo fez Vilar pular e derrubar uma barra de ouro. Ele levou a mão ao coldre da cintura, instinto puro, mas congelou quando viu o cano duplo serrado da "Caronte" apontado para seu peito.
— O voo foi cancelado, Jonas — disse Gabo, sua voz fria e calma.
— Moretti... — Vilar empalideceu, parecendo encolher dentro da farda. — Você... disseram que você estava morto na Zona Morta.
— Infelizmente para você, eu sou difícil de matar. — Gabo entrou na sala, mancando. Elena e Val entraram logo atrás, cobrindo os flancos e bloqueando a única saída. — Vendendo a delegacia para o Sindicato, Jonas? Depois de trinta anos de serviço? Depois de tudo que passamos?
— Não tem mais delegacia, Gabo! — gritou Vilar, o suor escorrendo pela careca brilhante. — Acabou! A Aeterna caiu, mas o Sindicato vai herdar as cinzas! Eles estão vindo com blindados, com ciborgues de guerra! Eles vão nos massacrar! Eu só estou tentando salvar minha esposa, meus filhos!
— Salvando sua pele — corrigiu Gabo, chutando a mochila para longe. — Enquanto seus homens, aqueles garotos lá embaixo, seguram barricadas com paus e pedras achando que o "Capitão" tem um plano. Você não ia levá-los, ia?
Vilar baixou os olhos.
— Não havia lugar para todos. Era eu ou ninguém.
Gabo caminhou até a mesa. Ele olhou para o rádio, onde a luz de "transmissão ativa" ainda piscava.
— O Sindicato quer entrar? — Gabo sorriu, um esgar que não chegou aos olhos.
Ele pegou o rádio.
— Atenção, Sindicato — disse Gabo no microfone. — Aqui é o Detetive Moretti. O Capitão Vilar pediu demissão.
Do outro lado, houve um silêncio, seguido por uma risada seca.
— Moretti. A lenda. — A voz era de Kael, o Cirurgião. — Vilar era um covarde, mas era útil. Você é apenas um obstáculo. Nós vamos entrar, detetive. E vamos esfolar cada policial aí dentro.
— Venham — disse Gabo. — As portas estão abertas. Mas tragam sacos para corpos. Muitos deles.
Ele esmagou o rádio com a coronha da escopeta.
Vilar olhava para ele, aterrorizado.
— Você nos condenou! Eles são centenas!
— Não, Jonas. Eu nos dei uma chance de lutar. — Gabo jogou uma escopeta reserva para Vilar. — Você tem uma escolha agora. Você pode morrer como um covarde encurralado tentando fugir com ouro roubado, ou pode morrer como um policial defendendo sua casa.
Vilar olhou para a arma em suas mãos, suas mãos tremendo. Ele olhou para o ouro no chão, depois para Gabo.
— Eu não sou como você, Gabo. Eu não quero ser mártir.
— Ninguém quer. Mas hoje, é o único cargo disponível.
Sirenes começaram a tocar lá fora, seguidas pelo som inconfundível de um veículo blindado arrebentando a barricada de concreto. Tiros começaram a estalar.
— Eles chegaram — disse Elena, engatilhando sua pistola.
Gabo olhou para Vilar.
— Levante-se, Capitão. Seus homens precisam de você.
Vilar respirou fundo. Ele guardou a arma no coldre, pegou seu boné da mesa e o colocou. O medo ainda estava lá, mas a vergonha parecia ter endurecido sua espinha.
— O arsenal pesado está no subsolo — disse Vilar, a voz firme pela primeira vez. — Tenho minas terrestres e duas metralhadoras giratórias apreendidas.
Gabo assentiu.
— Vamos fazer o Ninho da Serpente virar um inferno para eles.
Juntos, eles saíram da sala para enfrentar a guerra que batia à porta.
