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Capítulo 227: O Estagiário
Passamos a tarde inteira conferindo, porque uma acusação dessas não se faz com uma pasta.
Elias montou uma linha na mesa de carga: abria a caixa, tirava a ficha, lia a linha do segundo aval em voz alta, e passava adiante. Elena anotava. A Dra. Vance conferia a numeração de contrato contra o registro-mestre que ela carregava na memória, e ela nunca errou uma vez sequer.
Valéria contava.
— Ano vinte e nove: quatrocentos e doze fichas. Rubrica presente em quatrocentos e doze.
Uma hora depois:
— Ano trinta e quatro: mil e oitenta e nove fichas. Rubrica presente em mil e oitenta e nove.
Três horas depois, com o sol descendo do outro lado do galpão:
— Total conferido: quarenta e sete mil, trezentas e onze admissões sem consentimento, distribuídas em cinquenta e nove exercícios fiscais. — Ela levantou o rosto. — Rubrica de segundo aval presente em todas. Nenhuma exceção. Nenhuma delegação. Nenhuma ausência por férias, licença ou substituição.
O galpão ficou quieto.
Quarenta e sete mil pessoas. Não é um número que a cabeça segura. A cabeça segura uma pessoa, segura talvez uma família, e depois desiste e vira estatística. Foi isso que eles compraram: a nossa incapacidade de sentir sessenta anos de uma vez.
— Ele assinou todas, — falei.
— Ele assinou todas, — a Vance confirmou.
— Em sessenta anos, nem uma vez ele delegou. Nem uma vez ele tirou férias. Nem uma vez ele deixou outro carimbar por ele.
— Não.
Puxei uma banqueta e sentei, porque a perna avisou que ia acabar sentando de qualquer jeito.
— Por quê? — perguntei. — Ele era CEO, doutora. Ele tinha exército, tinha torre, tinha uma cidade inteira na coleira. Por que o homem continua carimbando papel de admissão como um funcionário do segundo escalão?
E a Dra. Elara Vance, que passou sessenta e um anos auditando aquilo, me deu a única resposta que faz sentido.
— Porque ele não delega o que ele gosta.
Ela pediu água. Elias trouxe. Ela bebeu com as duas mãos e continuou.
— Eu conheci o Viktor no ano da auditoria, — disse. — Ele tinha vinte e dois anos e o cargo mais irrelevante do prédio: digitalizar contratos de cuidado perpétuo. Uma sala sem janela, no subsolo do jurídico, com uma pilha de papel que ia até o teto e uma cota diária que ninguém conferia.
— E?
— E ele leu. — Ela olhou para o próprio arquivo empilhado no galpão. — Todos. Um por um. Ninguém pediu; ninguém teria notado se ele apenas escaneasse. Mas ele leu, e ele entendeu uma coisa que os cinco donos, com quarenta anos de mercado, nunca entenderam.
— O quê?
— Que ninguém estava comprando um túmulo. — Ela me olhou. — As famílias pagavam fortunas por cuidado perpétuo porque queriam que alguém continuasse existindo. O caixão era o meio. Os donos vendiam o meio. O Viktor foi o primeiro a ver que dava para vender o fim.
Elena tinha parado de escrever.
— Ele fez uma apresentação para a diretoria? — perguntei.
— Ele fez um memorando de quatro páginas, sem ser convidado. Eu li antes deles. — Um som seco que quase foi risada. — Estava correto. Cada linha. Um estagiário de vinte e dois anos entregou a tese estratégica mais competente que aquela empresa viu em sessenta anos, e a diretoria promoveu ele por isso, e continuou não entendendo o próprio negócio até morrer.
— E a senhora entendeu.
— Eu entendi. — Ela sustentou meu olhar sem piscar. — Foi por isso que eu escrevi que era indefensável. E foi por isso que eu escrevi que, se fossem prosseguir, prosseguissem em escala. Eu sabia que aquele rapaz não ia parar, inspetor. Eu só podia escolher se ele ia fazer aquilo com registro ou sem.
Olhei para as quatro toneladas de papel.
— A senhora perdeu esse braço de ferro por sessenta anos.
— Perdi. — Nenhuma autopiedade. — E ganhei hoje.
Elias foi o primeiro a perguntar a coisa óbvia, porque ele é o único de nós que ainda pergunta as coisas óbvias.
— Mas... por que ele? — Ele estava com uma ficha na mão, olhando para a rubrica. — Vocês passaram esse tempo todo caçando o Gamemaster, o Jardineiro, o Taxidermista, o pai dele. Esse cara é um contador.
— É por isso, — falei.
Todo mundo olhou.
Levantei da banqueta. Peguei a ficha da mão dele com a única mão que tenho, e li o nome em voz alta, e depois falei devagar, porque eu estava organizando aquilo na cabeça pela primeira vez.
— O Gamemaster era uma máquina que o Krell ligou. — Coloquei a ficha na mesa. — O Taxidermista era um doente que a cidade do Krell deixou solto porque cadáver modificado não dá processo. O Silas era um fanático usando a tecnologia do Krell. O Marco era um administrador brigando pelos restos do império do Krell. E o meu pai... — engoli — ...o meu pai foi matéria-prima do Krell.
Olhei para a rubrica pequena e firme no canto do papel.
— Eu passei quinze anos lutando contra as coisas que esse homem ligou. Nenhuma delas era ele. Eram ferramentas dele. Eu estava batendo nos braços de uma máquina achando que era a máquina.
— E ele nunca apareceu, — disse Elena, baixo.
— Ele nunca precisou. — Ri. — Ele é a única pessoa nessa história que nunca sujou a mão. Nem uma vez. Nem uma vez em sessenta anos, ele levantou de uma cadeira para matar alguém. Ele carimbava.
Bati o dedo na ficha.
— Mas ele carimbava todas. Ele não deixava ninguém carimbar por ele. Ele gostava.
Foi a Valéria quem fechou a conta, do jeito dela, sem cerimônia nenhuma.
— Correção de perfil, — ela disse. — Viktor Krell não é o financiador dos antagonistas anteriores. Ele é o autor deles. Reclassificação recomendada: alvo primário. Todos os outros passam a ser consequência.
— Concordo, — disse a Vance.
— Concordo, — disse Elena.
Elias levantou a mão, meio sem jeito, e depois percebeu que ninguém tinha pedido votação e a abaixou.
— Eu também, — ele murmurou.
Olhei para os quatro. A jornalista que passou quatro anos fora da cúpula montando prensa. A auditora que passou sessenta e um anos dentro de um vidro guardando a prova. O técnico de manutenção que não apertou o botão de subir. E a coisa fria e perfeita que já foi a pessoa mais calorosa que eu conheci, com o módulo da própria humanidade guardado numa caixa a três metros dali, ainda por usar.
Era um exército ridículo.
Era o melhor exército que essa cidade já teve.
— Elena, — falei. — Quanto tempo até a primeira tiragem?
Ela olhou o relógio de pulso — analógico, corda manual, claro.
— Se a gente começar a compor agora, o primeiro caderno de dezesseis páginas sai amanhã de madrugada. Doze mil cópias até o fim da semana.
— Começa pelas fichas de aprovação.
— Já é o plano.
— E põe a rubrica na capa. — Peguei a ficha e entreguei para ela. — Grande. Do tamanho da página. Sem manchete, sem foto, sem texto. Só a assinatura dele e o número.
Elena olhou para o papel na mão.
— Que número?
— Quarenta e sete mil, trezentos e onze.
Ela ficou olhando aquilo por um tempo. Depois assentiu, guardou a ficha no caderno com um cuidado que não tinha nada de jornalístico, e foi chamar os caminhões.
Fiquei na porta do galpão vendo o sol acabar de descer atrás da Velha Baía.
Daqui dá para ver a cúpula. De longe, no fim da tarde, ela quase parece bonita — uma bolha cinza-esverdeada cobrindo a cidade que me comeu vivo, com as luzes de emergência piscando lá dentro como vaga-lumes num pote.
Em algum lugar embaixo daquela bolha tem um homem de um metro e trinta e cinco, de terno impecável e bengala de titânio, que hoje ainda não sabe.
Amanhã de madrugada, doze mil pessoas vão saber o nome dele.
Enrolei o Colar de Sol no punho e apertei até o metal morder a palma — não para cortar alucinação nenhuma, porque aquela já foi embora e não voltou. Só porque é o que eu faço com a mão quando estou decidindo uma coisa.
— Val, — falei sem virar. — Quanto tempo até eu conseguir andar uma distância longa sem cair?
— Com fisioterapia, alimentação regular e a infecção controlada: onze semanas. — Uma pausa. — Sem isso: você não anda distância longa nenhuma outra vez.
— Então marca onze semanas.
Ela se colocou ao meu lado, olhando para a mesma cúpula, com as lentes brilhando fraco no escuro que chegava.
— Registrado, — ela disse.
E, se eu não estivesse ouvindo com muita atenção, eu teria jurado que aquela palavra saiu com um pouco de inflexão.